Nos últimos dias, uma marca praticamente desconhecida do grande público tem dado que falar um pouco por todo o lado. Chama-se Slate, é norte-americana e está a captar atenções por uma razão muito direta: quase não promete extras - promete, isso sim, preços muito difíceis de bater.
O seu primeiro modelo é uma pick-up elétrica compacta: nos EUA, deverá custar pouco mais de 24 mil euros e, com incentivos, pode mesmo descer para menos de 18 mil euros.
Numa época em que os automóveis parecem cada vez mais dependentes de ecrãs e funcionalidades digitais, a Slate Truck surge como um regresso ao essencial - um minimalismo automóvel que já não se via há algum tempo. E não está sozinha nesta lógica: lembra-se da Toyota Hilux Champ, com preços a partir de 12 mil euros?
Apesar de terem origens e objetivos diferentes, estes dois modelos cruzam-se em três pontos: preços baixos, simplicidade levada ao limite e uma certeza - nenhum dos dois será vendido na Europa. Afinal, porque é que a Europa não parece gostar de carros baratos? Foi essa a pergunta que procurámos explorar no episódio mais recente do Auto Rádio, o podcast da Razão Automóvel com o apoio do PiscaPisca.pt. Ora veja:
Slate Truck: a nova aposta de Jeff Bezos
A Slate Truck parece representar o oposto da Tesla Cybertruck. Enquanto a pick-up de Elon Musk aposta numa forte componente tecnológica, num desenho radical e em prestações de superdesportivo, a Slate segue um caminho diferente: entregar apenas o indispensável.
A proposta é simples: dois lugares, um habitáculo espartano com vidros de manivela e ausência total de ecrãs. Ainda assim, não abdica do essencial em matéria de segurança, incluindo travagem de emergência e controlo de velocidade de cruzeiro de série.
E como é que conseguem manter o valor tão baixo? A fórmula passa por vendas exclusivamente em linha e, sobretudo, por um processo produtivo extremamente simplificado. Todas as unidades saem da fábrica, no Indiana, com exatamente a mesma carroçaria e a mesma cor. Quer personalizar? Só mais tarde, através de películas de vinil (wraps) e com mais de 100 acessórios disponíveis.
Apesar de a palavra de ordem ser «simplificar», a ficha técnica não fica aquém do que se esperaria: motor elétrico com 150 kW (204 cv), duas baterias à escolha - 52,7 kWh e 84,3 kWh - e uma autonomia que pode chegar aos 450 km. Junta-se ainda uma capacidade de carga útil até 650 kg, um número que faz sentido para uma pick-up com este posicionamento.
Ah, e há mais um detalhe: um dos investidores por detrás do projeto é Jeff Bezos, fundador da Amazon. E isso ajuda a explicar porque é que as comparações com a Tesla Cybertruck acabam por surgir de forma inevitável.
Toyota Hilux Champ: simplicidade levada ao extremo
Do lado oposto do globo, a Toyota aplica uma ideia semelhante com a Hilux Champ. Trata-se de uma versão mais básica e muito mais acessível da conhecida pick-up, pensada especificamente para mercados do sudeste asiático.
O desenho recorre a linhas direitas para facilitar a produção, o interior usa plásticos duros e nem sequer a caixa de carga é incluída de série. Ainda assim, o que mais surpreende é o preço: a partir de 12 mil euros. Naturalmente, para chegar a esse patamar, a marca teve de aceitar compromissos significativos - e segurança e conforto ficam muito abaixo do padrão que se espera na Europa.
Ao contrário do que acontece com a Slate Truck, esta pick-up vendida pela Toyota em mercados como a Índia e a Indonésia enfrenta exigências de segurança bastante inferiores às que existem na Europa e nos EUA - daí que a dotação de equipamentos de segurança seja reduzida. O resultado é claro: este modelo não consegue cumprir a homologação no «velho continente».
Porque é que estes carros baratos não chegam à Europa?
A explicação é simples e, ao mesmo tempo, complexa. Na prática, há três razões principais: regras apertadas de segurança e emissões; consumidores com expectativas elevadas; e custos de homologação. Somar estes três fatores acabaria por destruir a maior vantagem destes modelos - o preço.
No caso da Hilux Champ, é fácil perceber que está longe do que os clientes europeus procuram e exigem. Já a Slate Truck coloca uma questão diferente: cumpre mínimos de segurança e, ao mesmo tempo, dá margem de escolha a quem a compra.
Quem quiser uma opção mais despojada e espartana pode ficar com a configuração de base, com preços muito competitivos. Se, por outro lado, a prioridade for ter mais tecnologia e conforto, também existe essa possibilidade - basta subir de patamar e pagar mais.
As exceções: Dacia, Citroën… e as marcas chinesas
Apesar de tudo, para quem procura um carro novo e barato na Europa, nem tudo é um beco sem saída. A Dacia continua a ser a principal referência em preços baixos e simplicidade. Em 2024, alcançou 3,9% de quota de mercado na Europa e entrou no Top 10 das marcas mais vendidas, impulsionada por modelos como o Sandero (o mais vendido da Europa) e o Duster (o SUV mais vendido a particulares).
A Citroën também tem vindo a aproximar-se deste território e colocou a nova geração do C3 em valores que lhe permitem competir «taco a taco» com a marca romena do Grupo Renault.
O novo ë-C3 100% elétrico terá ainda este ano uma versão abaixo dos 20 mil euros, enquanto o C3 a combustão já se encontra no mercado com preços a partir de 14 490 euros - e foi o modelo mais vendido em Portugal no mês de abril.
O sucesso da Dacia na Europa, bem como a forma como as vendas do novo C3 estão a responder, mostram que os europeus também procuram automóveis acessíveis. Mas, tal como dissemos no início: a Europa parece não gostar deles.
Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana
Razões não faltam, por isso, para ver/ouvir o episódio mais recente do Auto Rádio, que regressa já na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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