Saltar para o conteúdo

Jochen Kopelke, presidente da EU.Pol, no Porto: confiança e condições dos polícias

Polícia em uniforme azul a falar numa sala de reuniões iluminada, com vista para rio e cidade ao fundo.

O alemão Jochen Kopelke, presidente da Federação Europeia de Sindicatos de Polícia (EU.Pol), esteve nos últimos dias no Porto, cidade que recebeu a conferência anual desta estrutura sindical. Em declarações ao JN, reconhece que a detenção de mais de 20 polícias suspeitos de torturar pessoas vulneráveis abala a confiança que a sociedade precisa de depositar nas forças de segurança, sublinhando, contudo, que não se trata de um fenómeno exclusivo de Portugal. Ainda assim, deixa um aviso: sem melhores condições para os polícias portugueses, o risco de situações semelhantes aumenta.

Qual a razão para a Eu.Pol ter escolhido Portugal para realizar o seu congresso?

A decisão de vir para Portugal - e, em particular, para o Porto - surgiu porque os nossos colegas portugueses nos transmitiram que, sobretudo em períodos difíceis como os atuais, faz falta uma voz policial forte. O Porto é uma cidade extraordinária e, para continuar a ser um lugar seguro, é indispensável escutar quem está no terreno: os polícias.

Mais de vinte polícias foram recentemente detidos em Portugal. Conhece o caso?

Sim. Antes de viajar para Portugal, já tinha visto notícias sobre o assunto.

O que pensa sobre isso?

A atividade policial vive da confiança pública: é a própria sociedade que nos contacta quando deteta algo suspeito ou perigoso, e episódios deste tipo corroem essa confiança. Por isso, todos os casos devem ser investigados. Alguns dos mais de 20 processos noticiados parecem, de facto, muito graves e, caso se confirme a culpa, essas pessoas não podem manter-se na polícia.

Dito isto, estamos ainda numa fase de investigação e é necessário aguardar. A sociedade, muitas vezes, não tem paciência e exige respostas rápidas, mas nós, enquanto polícias, confiamos no sistema de justiça: o que conta é a decisão judicial. Só a partir daí se pode afirmar que um polícia deve ser expulso ou, se ficar provada a inocência, que deve ser reintegrado.

Até existir uma decisão judicial, a situação torna-se especialmente dura para os agentes envolvidos, porque quase sempre há um julgamento público antecipado - e alguns acabam por abandonar a profissão.

Há casos semelhantes noutros países europeus?

Sim, claro. E também existem, noutras polícias, estruturas semelhantes que abrem espaço para que estes crimes contra grupos vulneráveis aconteçam. Enquanto federação sindical, não toleramos estruturas que facilitem este tipo de criminalidade.

Se, porém, estivermos perante um problema estrutural, então já não estamos a falar apenas de um conjunto de episódios isolados: passamos a ter um problema permitido pelo sistema - e isso tem de ser enfrentado.

Quais são as principais razões para estes casos acontecerem?

Sabemos que, muitas vezes, é uma combinação de fatores: excesso de trabalho, ambientes demasiado fechados, falta de renovação de pessoal que questione práticas instaladas e supervisão insuficiente.

Ainda assim, importa lembrar que, na maioria das situações, são os próprios polícias que denunciam problemas internos; é o próprio sistema policial que deteta falhas e tenta corrigi-las, impedindo que determinadas estruturas se perpetuem.

"Na Alemanha, ser polícia é uma profissão bem paga"

As condições das forças de segurança portuguesas são piores do que as de outros países?

Como presidente da maior federação europeia de polícia, observo diferenças claras entre países ao nível do modelo de policiamento, dos recursos humanos e dos meios técnicos. Também há variações nos riscos e nas ameaças.

Em Portugal, encontro várias forças, com necessidades distintas. Depois de conversar com muitos colegas e de comparar Portugal com outros países europeus, percebo igualmente que Portugal está a investir mais na Polícia e que existe um processo de reforço das forças.

O novo ministro da Administração Interna foi polícia, e será interessante ver se alguém com esse percurso consegue agir de forma diferente e afirmar-se como um líder forte para todos os polícias.

São necessários mais meios?

Portugal lida com desafios semelhantes aos do resto da Europa: ameaças com drones, tráfico de droga a chegar por via marítima, a entrada não organizada de refugiados e outras formas de criminalidade organizada que alimentam um sentimento de insegurança - com o qual a Polícia tem de lidar todos os dias.

Ao mesmo tempo, o que ouvimos dos nossos colegas é que existe excesso de trabalho, condições exigentes e falta de evolução tecnológica. Querem mais equipamento moderno, mais cooperação entre forças e menos divisões quanto às competências de cada uma. Em suma, querem conseguir trabalhar melhor em conjunto.

Em Portugal, há a dificuldade em atrair novos agentes. Isto também acontece noutros países?

Não. A profissão policial é, na minha perspetiva, uma das melhores que alguém pode ter. Ser polícia é uma experiência extraordinária e, normalmente, quem entra fica para toda a vida.

Então, porque é que os jovens não querem ingressar? Será por causa das condições de trabalho? Do salário? Porque a profissão perdeu reconhecimento? Ou por ser um trabalho demasiado duro? Isso pode ser um sinal de problemas na própria sociedade.

Existe o mesmo problema na Alemanha?

Não. Na Alemanha, ser polícia é uma profissão bem paga e muito reconhecida pela sociedade. Nos estudos que realizámos, a Polícia continua a estar entre as profissões em que as pessoas mais confiam. Temos milhares de candidatos.

E qual é o cenário no resto da União Europeia?

Nos próximos dez anos, todas as polícias europeias vão perder muitos profissionais experientes. Em Portugal, no entanto, parece haver uma dificuldade particular em captar jovens.

Ouço frequentemente referências às condições de trabalho, às deslocações para as esquadras, aos horários prolongados e à ideia de que um polícia não tem vida privada. É um tema que tem de preocupar tanto os políticos como as próprias forças. Por isso digo que Portugal enfrenta problemas muito específicos, que não são diretamente comparáveis aos do resto da Europa.

O salário é o principal problema?

Não é só o salário. Há diferenças de ordenados, horários, condições de trabalho, turnos e flexibilidade entre as várias forças de segurança. A satisfação profissional depende também do local onde se trabalha, da tecnologia disponível, da organização interna e da liderança.

Ainda assim, é verdade que, em toda a Europa, será necessário aumentar salários, porque o custo de vida está a subir muito.

"Vemos um aumento significativo do número de suicídios em toda a Europa"

Em Portugal, nos últimos 25 anos, mais de 190 polícias suicidaram-se. A saúde mental preocupa-o?

Sim, preocupa-me muito. Durante muito tempo, os polícias não falavam sobre aquilo que sofriam em serviço - e, mesmo hoje, não se pode conversar com qualquer pessoa sobre o que se vê no trabalho. A profissão tem um impacto profundo na saúde mental.

Muitos agentes carregam esse peso ao longo de toda a carreira e vemos um aumento significativo do número de suicídios em toda a Europa, porque os polícias lidam diariamente com violência, sofrimento, situações traumáticas e, além disso, têm acesso a armas.

Por outro lado, a sociedade quer polícias fortes e não lhes dá espaço para falar, nem para mostrar sentimentos. É necessária uma mudança na forma como se trata a saúde mental: temos de manter os polícias o máximo de tempo possível nas forças de segurança e garantir-lhes tudo o que precisam, incluindo espaços seguros para falar e acompanhamento especializado.

Como se pode combater o burnout nas forças policiais?

É essencial dar aos polícias aquilo de que precisam desde o início da carreira. Os estudos indicam que, ao fim de 10 anos de serviço, um polícia já viu praticamente tudo - o melhor e o pior da profissão - e é precisamente nessa altura que se torna mais vulnerável.

Por isso, devemos olhar com especial atenção para quem tem 10 ou 15 anos de serviço: perceber se está bem, se mantém motivação ou se pretende mudar de função. Muitos políticos não têm essa perceção, porque olham para os polícias e apenas veem homens fortes.

Essas práticas já existem na Alemanha?

Sim. Na minha força policial, por exemplo, as funções são categorizadas. Quanto mais experiência um agente acumula, mais oportunidades tem de desempenhar tarefas com maior valor, mas com menos stress e menos pressão.

"A Europol nunca será uma polícia operacional"

Qual é o principal problema de segurança na Europa?

É o tráfico de droga. Os cartéis sul-americanos fazem chegar droga diretamente à Europa, o que alimenta criminalidade violenta. Vemos isso na Alemanha, em França, em Espanha, nos Países Baixos e também em Portugal.

A droga gera crime porque os toxicodependentes cometem delitos para sustentar o consumo. Além disso, o dinheiro do tráfico traz consigo o crime enquanto “serviço”. E também estamos a assistir à chegada à Europa de ameaças terroristas e de outras ameaças híbridas que procuram desestabilizar as democracias.

Já existindo a Europol e a Frontex, acredita numa força policial europeia única?

Não. A União Europeia não funciona com uma estrutura totalmente centralizada e, quanto mais forte for o policiamento local e comunitário, melhor resulta a segurança.

Um problema de segurança não se resolve a partir de Bruxelas: é preciso ter pessoas que falem a mesma língua, conheçam a cultura e tenham experiência naquela região. A Europol nunca será uma polícia operacional com poderes próprios dentro dos países - não teria sucesso.

A Frontex é diferente, porque trabalha sobre fronteiras e exige recursos humanos locais, mas também conhecimento e equipamento de outra natureza.

Está satisfeito com a estratégia europeia de segurança, a protect EU?

A ideia de Europa resultou: hoje todos temos mais capacidade para viajar em segurança numa região que viveu décadas de guerras. Para o resto do Mundo, viver na Europa é o melhor que podia acontecer, e os refugiados vêm para a Europa porque sabem que é segura e que não serão perseguidos por ditadores.

A questão é: qual é o próximo passo? Preocupa-me a forma como a Europa vai aguentar os desafios digitais atuais e o que será feito em relação aos gigantes tecnológicos.

Ao mesmo tempo, existem milhares de milhões de euros disponíveis para investir em segurança e em comunidades mais fortes, e estou satisfeito com a estratégia seguida. O meu país, a Alemanha, não consegue gerir drones vindos da Rússia, mas a Finlândia e a Dinamarca conseguem - e não faz sentido dizer que não queremos o seu apoio.

As pessoas querem segurança e não perguntam quem lhes dá essa segurança. Devemos continuar a apostar na cooperação europeia.

É importante que as agressões contra polícias sejam classificadas pela UE como "eurocrime"?

Se conseguimos criar uma proteção legal reforçada para outros grupos vulneráveis, também devemos fazê-lo para os profissionais das forças de segurança.

Na Europa, existem estruturas profissionais de protesto - movimentos treinados que circulam de país em país para enfrentar a Polícia. Nesse contexto, atacar alguém fardado tem de ter a mesma sanção em qualquer lugar onde o crime seja cometido.

Não é aceitável que dar um murro na cara de um polícia em Portugal resulte numa multa de mil euros e que, na Polónia, pelo mesmo ato, a consequência seja prisão. Se a sanção for definida a nível europeu, passamos a ter critérios iguais.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário