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Tempestade Kristin no Tryp Leiria: relato de 72 horas sem luz e a solidariedade

Homem a servir café quente num café acolhedor, com várias pessoas sentadas a aguardar.

A noite da tempestade Kristin no Tryp Leiria

A passagem da tempestade Kristin, na noite de 27 para 28 de janeiro, ficou gravada na equipa do Tryp Leiria como uma cena saída de um filme de terror. “O hotel ficou todo a abanar, os vidros das paredes estremeceram, os hóspedes vieram a correr para a receção e ajudaram a pôr sofás junto às portas, para evitar que os vidros partissem e houvesse uma tragédia”, descreve João Pacheco, diretor do hotel. “Foi uma hora assustadora, houve clientes a rezar, ouviu-se uma roda de gritos e de choros”, recorda Micaela Francisco, rececionista.

Nessa mesma noite, o quatro estrelas do grupo português Hoti estava “praticamente cheio”. A clientela era maioritariamente empresarial, numa altura em que, como sublinha o diretor, “pois temos muitas indústrias à volta, em Leiria praticamente não se sente a época baixa”.

Sem luz, água e comunicações durante 72 horas

O impacto foi imediato na zona: “Esta zona ficou logo sem comunicações, sem luz e sem água. Estivemos 72 horas sem eletricidade e sem parar o serviço, e dez dias com gerador. Mesmo às escuras, os clientes não arredaram pé”, adianta João Pacheco.

O diretor não estava no hotel nessa noite e, ao tentar chegar na manhã seguinte, deparou-se com um percurso que descreve como uma verdadeira prova de resistência. O carro ficou preso entre árvores caídas, obrigando-o a aceitar boleia de uma vizinha; apesar de ser um trajeto curto, o trânsito fazia-se com grande dificuldade. “A cada 100 metros tinhamos de saír do carro e arredar destroços da estrada”. Sem forma de contactar a equipa, preparou-se mentalmente para o pior. “Estava convencido que ia chegar e ver o hotel sem fachada”.

Pequeno-almoço e refeições improvisadas

Com três dias sem eletricidade e sem abastecimento de água, os colaboradores organizaram-se para assegurar o essencial aos hóspedes, incluindo o pequeno-almoço, num contexto em que os fornecimentos falhavam. “Nem tinhamos pão, a nossa fornecedora ficou com a fábrica destruída e nem sequer conseguiu chegar”, conta o diretor.

A solução passou por recorrer ao que existia nas câmaras frigoríficas e à comida que não exigia confeção elaborada. “Fomos utilizando tudo o que estava no frigorífico, tinhamos frutas e outros alimentos, nessa altura, sem eletricidade, tudo o que não ia ao fogo”.

Ainda no primeiro dia, as refeições foram sendo montadas com o que estava disponível. “No primeiro dia fizemos saladas de atum, mas chegou um ponto em que os stocks entraram em ruptura, e já não havia grande coisa”. Quanto aos banhos, a equipa manteve o serviço enquanto foi possível. Em relação à higiene, “aguentámos enquanto havia água nos depósitos”.

Um café no meio do caos

Mesmo nos momentos mais difíceis, houve espaço para pequenas vitórias que animaram hóspedes e funcionários. “A chefe de receção trouxe um camping gaz de casa e conseguimos fazer café. Tanto os clientes como os funcionários estavam a desesperar por café”.

Gerador, contingências e a “rede” do Leroy Merlin

Sem comunicações operacionais, João Pacheco deslocava-se várias vezes por dia ao Leroy Merlin, um dos raros locais na cidade onde ainda existia rede. Era ali que conseguia dar notícias a Lisboa e, no regresso, atualizar também os hóspedes.

Foi igualmente nesse local que conseguiu desbloquear uma solução para repor a energia no hotel. “Foi num corredor do Leroy Merlin, onde podia fazer chamadas, que consegui alugar um gerador, à pressa, e assim pôr o hotel a funcionar”, conta João Pacheco. A 29 de janeiro, pouco antes da meia-noite, o hotel voltou a ter eletricidade através do gerador.

Daí em diante, o funcionamento aproximou-se do normal, embora com várias limitações. “A partir daí, funcionámos quase na normalidade”, refere o diretor, lembrando as adaptações necessárias. ”Não tinhamos pão fresco, mas havia outras opções de fornecedores. Desligámos tudo o que não era essencial, como minibares, elevadores ou ar condicionado. A louça ia-se acumulando e só era lavada quando o tabuleiro estava cheio".

O Tryp Leiria manteve-se com gerador próprio durante dez dias, ligando-se depois à rede pública. O custo do combustível foi expressivo: “Consumimos três mil litros de gasóleo, o que pagámos em combustível nestes dias não pagaríamos num mês inteiro”.

Se a obtenção do gerador foi, por si só, uma conquista, garantir gasóleo para o manter operacional tornou-se outro obstáculo. Também aí a entreajuda foi determinante. “A solução foi a lavandaria que contratamos para tratar das roupas, e estava fora da zona de impacto, trazer-nos jericans de gasóleo, foram muito simpáticos”, reconhece o diretor do Tryp Leiria.

“Os vizinhos vinham cá, tomavam banho, bebiam o seu café”

Os estragos não se limitaram ao hotel: a tempestade atingiu as casas de todos os trabalhadores. “Acho que não houve um telhado em Leiria que não tivesse danos”, observa João Pacheco. Ainda assim, por viverem perto e por conseguirem manter condições mínimas, os 23 colaboradores conseguiram resolver a situação sem necessidade de pernoitar no hotel.

Segundo o diretor, a disponibilidade para ajudar foi constante, embora não tenha sido preciso alojar membros da equipa. “Tivémos sempre a porta aberta para ajudar as pessoas no que fosse preciso, mas acabou por não ser necessário alojar trabalhadores. E a equipa conseguiu vir trabalhar todos os dias”, nota.

O hotel acabou por assumir, também, um papel de apoio ao bairro. “Também tivémos solidariedade com as pessoas do quarteirão, fomos o primeiro edifício do bairro a ter luz, os vizinhos vinham cá, tomavam banho, traziam as crianças, tomavam o seu café e pequeno-almoço, disponibilizámos isso à comunidade”.

Entre os casos mais graves esteve o de Micaela Francisco, que sofreu danos significativos em casa, no Casal da Quinta, freguesia de Milagres. “Vivo numa zona de pinhal e caíram muitas árvores, nas aldeias tivémos esse tipo de destroços. Tive danos no telhado, e além disso um carro da casa ao lado numa zona alta destrancou-se e veio por aí abaixo, partiu-me as paredes”, conta.

A rececionista descreve prejuízos elevados, suportados pela própria família, enquanto aguarda a avaliação do seguro. Ficou mais de um mês sem eletricidade e só recentemente voltou a ter internet. Ainda assim, destaca a mobilização local. Na aldeia, diz, há sempre quem tenha tratores e motosserras, e as reparações foram avançando com apoio entre vizinhos. Apesar de ter sido dispensada para tratar dos estragos em casa e na família, Micaela Francisco continuou a apresentar-se ao serviço no hotel.

Desalojados no hotel iam às suas casas fazer reparações

Embora não tenha sido necessário acolher funcionários, a ocupação do hotel foi preenchida com hóspedes menos habituais: pessoas temporariamente deslocadas, por terem ficado com as casas sem condições. O Tryp Leiria disponibilizou-se para as receber.

“Tivémos aqui pessoas desalojadas a partir de seguradoras, da câmara, e também através do próprio projeto Reerguer Leiria”, refere João Pacheco. “Estas pessoas ficaram em regime de pensão completa, mas era um mundo diferente: vinham cá almoçar e jantar, mas durante o dia iam às suas casas fazer reparações".

O diretor recorda que, nessa fase, o hotel ficou cheio devido ao apoio prestado às operações no terreno. “O hotel encheu nessa altura em que demos apoio à Proteção Civil, bombeiros, tivémos aqui especialistas nacionais e estrangeiros (como irlandeses, espanhóis, mexicanos ou franceses), além de peritos de seguradoras”, narra. “As seguradoras fizeram um campo de operações em Leiria e ficaram cá no hotel”.

Entretanto, as empresas de telecomunicações continuaram a recorrer ao alojamento, como a MEO, enviando equipas em regime prolongado. “Estas equipas estão em estadia longa, ficam durante a semana e vão a casa ao fim-de-semana. Passados três meses, ainda estão a fazer reparações".

Ao contrário de outros espaços de alojamento, o Tryp Leiria conseguiu atravessar a intempérie sem danos estruturais que comprometessem a operação. “Os danos na cobertura foram dispendiosos, tivémos de substituir os painéis fotovoltaicos, mas felizmente não houve danos no edifício que afetassem a parte operacional”.

Para João Pacheco, o trabalho de recuperação na região ainda será longo, embora veja sinais positivos para a época alta e para o resto do ano. “A reconstrução vai ainda demorar muito tempo”, nota. “Já aconteceu tanta coisa depois da tempestade, e está tudo a entrar no normal. O efeito de solidariedade pode ajudar à visita de muitos portugueses, e Leiria está sempre pronta a receber”.

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