Um livro de memórias em gestação
Agora que já está reformado e, portanto, sem as restrições associadas ao Banco de Portugal, Mário Centeno decidiu avançar com a ideia de escrever um livro de memórias. O nome da obra continua reservado, tal como a editora, mas o recorte temporal está estabelecido: os quase cinco anos em que integrou o Governo de António Costa, como ministro das Finanças, período em que viveu crises bancárias como Banif e Caixa Geral de Depósitos (CGD) e, em sentido oposto, etapas mais favoráveis como a estabilização das contas públicas e a sua passagem pela presidência do Eurogrupo.
Confrontado pelo Expresso, Centeno optou por não revelar detalhes sobre o projecto. Limitou-se a dizer que “É uma ideia que está a amadurecer”, sublinhando que ainda levará tempo e que não deverá chegar às livrarias a tempo de ser leitura de praia nas férias de verão. Antes do arranque da época balnear, “será difícil”. E, por agora, fica por aí, mantendo o suspense em torno desta nova iniciativa.
Centeno esteve à frente das Finanças entre novembro de 2015 e junho de 2020, saindo então para o Banco de Portugal num ambiente de forte polémica que, mais tarde, acabaria por lhe custar a renovação do mandato. Entre episódios positivos e negativos, desabafos, intrigas e contrariedades, não lhe faltarão histórias para relatar.
Os primeiros choques no Ministério das Finanças: Banif e Novo Banco
A entrada de Mário Centeno no Ministério das Finanças foi tudo menos tranquila, começando logo pela turbulência no sector financeiro. Apenas um mês depois de assumir funções, viu-se envolvido no processo de venda do Banif ao Santander, solução encontrada para impedir a liquidação do banco. Em paralelo, surgiu também a venda do Novo Banco à Lone Star, acompanhada de um mecanismo de garantia que acabou por representar um custo para o Estado até 2025, num valor significativo: 3,4 mil milhões de euros.
O impasse em torno do Banif, agravado por uma corrida aos depósitos, foi o primeiro teste de stress que Centeno e o governador Carlos Costa tiveram de enfrentar. Foi necessário concentrar esforços num fim de semana para encontrar uma saída que evitasse a liquidação, em dezembro de 2015, num cenário que recordou o que sucedera com o BES/Novo Banco em agosto de 2014, embora com diferenças.
CGD, António Domingues e o conflito com Carlos Costa
Mais à frente, em 2017, outro foco de confronto surgiu com a reestruturação e capitalização do banco público, a CGD, e com a polémica em torno de António Domingues, apresentado como o mentor dessa operação. O antigo administrador do BPI conduziu, junto de Bruxelas, o processo de capitalização da CGD, mas acabaria por não permanecer à frente do banco público por recusar tornar pública a sua declaração de rendimentos e património.
Ao longo desse percurso, António Domingues entrou em choque com Carlos Costa. Num livro do jornalista Luis Rosa, o governador é citado a acusá-lo de ter exercido pressão psicológica com o objectivo de provocar a sua renúncia.
Contas públicas, Ecofin e Eurogrupo: o período de estabilização
A fase de maior estabilidade no mandato surgiria mais tarde, com um reequilíbrio gradual das contas públicas, a economia em crescimento e as famílias a notarem uma subida progressiva do rendimento disponível. À medida que o tempo passava, Mário Centeno foi também consolidando confiança no Parlamento, tornando as suas intervenções mais incisivas, sobretudo no confronto com a oposição.
Esse reforço de posição estendeu-se ao Conselho de Ministros e ao plano europeu. A saída do Procedimento por Défices Excessivos, em 2017, valeu-lhe a etiqueta de “Ronaldo do Ecofin”, expressão atribuída a Wolfgang Schäuble, então ministro das Finanças da Alemanha, e contribuiu para a sua eleição como presidente do Eurogrupo.
Quando, em 2020, deixa o Governo e segue para o Banco de Portugal, leva consigo uma pequena consagração adicional: a obtenção de um superávite orçamental de 0,2% do PIB. Apesar de reduzido e de curta duração por causa da pandemia, foi o primeiro superávite da história da democracia.
Tensão com António Costa e o desfecho no Banco de Portugal
Já na recta final no Ministério das Finanças, Mário Centeno e o primeiro-ministro António Costa viram o clima de entendimento enfraquecer, em particular quando Centeno insistiu em sair do Governo para assumir o cargo de governador do Banco de Portugal. Mais tarde, a proximidade voltaria a aumentar quando António Costa chegou a equacioná-lo como primeiro-ministro substituto, em 2023.
Histórias não faltam e a curiosidade permanece: saber se Centeno saiu do Governo pacificado e com mais amigos do que inimigos, ou se, à semelhança de Álvaro Santos Pereira - que entretanto lhe sucedeu no Banco de Portugal e com quem negociou a saída para a reforma antecipada - também ficou surpreendido com o nível de “intriga política” e com a escassa lealdade que pode existir dentro de um governo.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário