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Francesca Bria no 35.º Digital Business Congress da APDC: a soberania digital é condição para a Europa

Mulher a dar apresentação sobre energia e tecnologia na Europa, com mapa digital e público usando computadores.

A Europa está a entrar numa década determinante para o seu lugar no mundo, tanto na economia como na tecnologia. Foi este o alerta deixado por Francesca Bria - professora na University College London (UCL) e consultora da Comissão Europeia - perante a audiência do 35.º Digital Business Congress da APDC (Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações), em Lisboa. “A soberania digital não é um luxo, mas sim a condição para a competitividade europeia”.

Dependência externa e fragilidade da cadeia de valor digital

Economista com trabalho centrado na inovação e antiga Chief Technology and Digital Innovation Officer da cidade de Barcelona, Bria descreveu uma Europa profundamente dependente de infraestruturas críticas fora do continente. “A Europa construiu quase nada da cadeia de valor digital”, afirmou, sublinhando que 80% da tecnologia digital usada na Europa é importada.

Segundo a oradora, a vulnerabilidade é particularmente evidente na computação em nuvem: 70% da cloud europeia está nas mãos de três hyperscalers norte‑americanos (grandes empresas de tecnologia que oferecem serviços de nuvem - cloud computing - e armazenamento em larga escala). A mesma dependência, acrescentou, estende‑se aos chips, às terras raras e aos minerais críticos para a indústria tecnológica, bem como à energia e aos modelos de inteligência artificial (IA).

Dois blocos tecnológicos e o risco de a Europa ficar “entre impérios”

Bria enquadrou esta exposição num cenário geopolítico em que se consolidam dois grandes blocos tecnológicos: de um lado, a ‘Pax Silica’ liderada pelos EUA; do outro, a ‘Rota da Seda Digital’, impulsionada pela China. “A Europa não pode permanecer uma ponte entre dois impérios”, avisou.

Para a economista, o facto de a União Europeia (UE) estar ausente de alianças estratégicas que condicionam o acesso a chips avançados é um sinal de perda de margem de manobra num sector central para o poder económico, militar e político do ‘velho continente’.

IA e energia: soberania digital também é soberania energética

Na sua análise, a inteligência artificial está no centro da mudança em curso - não só pelo potencial económico, mas também por ser uma tecnologia de uso dual. “Tudo o que tem a ver com IA hoje é uso duplo”, afirmou, lembrando que a infraestrutura digital funciona igualmente como infraestrutura de defesa.

A concentração de poder nas grandes tecnológicas dos EUA, disse, intensifica os riscos para as empresas europeias. “A infraestrutura de que dependem as empresas europeias está controlada por atores dentro de um loop fechado de ideologia, capital e influência política”.

A pressão sobre a energia surge como outro ponto crítico. Bria referiu a projeção de que, até 2030, os centros de dados globais irão consumir mais eletricidade do que o Japão, agravando a pressão sobre redes já saturadas. “A IA é poder literal. Gigawatts de poder”, afirmou, defendendo que não há soberania digital sem soberania energética.

“Autonomia Digital” como necessidade e o caminho proposto por Francesca Bria

Depois da intervenção, e numa conversa com o anfitrião da Talk, Pedro Faustino - managing director da Axians Portugal - Francesca Bria manteve um tom confiante quanto ao futuro europeu e, apesar do diagnóstico exigente, traçou um rumo possível. Na sua leitura, a Europa dispõe de ativos estratégicos, desde a identidade digital europeia ao Euro Digital, passando pelos espaços de dados industriais e pelas fábricas de IA, mas continua a faltar escala, coordenação e ambição. “As peças já existem. O que falta é capital em escala e vontade política”, frisou.

A posição de Bria surge alinhada com outras reflexões trazidas por Faustino em edições anteriores dos congressos da APDC. Na abertura dos trabalhos desta manhã, o responsável recuperou cinco anos de debates sobre as forças que estão a transformar a economia e a política global, destacando que as empresas são hoje “agentes económicos”, mas também “agentes políticos, pela influência que podem e devem ter na sociedade”. Ao revisitar conversas com Paul Collier, Ricardo Reis, Francis Fukuyama e Anne Applebaum, descreveu a trajetória de um mundo marcado pela crise do capitalismo, pela fragmentação geoeconómica, pelo desgaste da democracia liberal e pela ascensão de novas formas de poder autoritário sustentadas pela tecnologia. Foi essa leitura, afirmou, que conduz ao tema central de 2026 - a soberania digital - numa altura em que economia, tecnologia e política deixaram de poder ser pensadas em separado.

Quando desafiada a deixar recomendações para empresas, investidores e decisores políticos, Bria apontou três prioridades imediatas: criar um modelo de procurement europeu que assegure que 50% do gasto público digital, até 2030, seja europeu; reforçar o financiamento com a criação de um fundo de tecnologia soberana de 100 mil milhões de euros; e apostar nas capacidades internas da UE, acelerando a adoção de IA, apoiando as pequenas e médias empresas europeias e desenvolvendo computação verde soberana.

No final, reforçou ainda que o talento é decisivo para o sucesso europeu, defendendo políticas urgentes para atrair e reter investigadores e engenheiros que hoje alimentam o ecossistema de Silicon Valley.

Bria rejeitou também a ideia de que a Europa esteja condenada ao atraso. “Eu acredito na Europa e na próxima geração. Temos de construir o futuro onde queremos viver”, afirmou, apelando a uma ação coletiva entre governos, indústria e investidores, porque “a década que agora começa será o teste definitivo à capacidade da Europa se afirmar como potência tecnológica e o tempo para decidir está a esgotar‑se”.

Conheça outras conclusões

  • A UE criou o quadro regulatório mais avançado do mundo, mas isso, por si só, não chega para competir. EUA e China progridem porque investem em grande escala. A oradora defende uma viragem de paradigma: passar da primazia da regulação para a capacidade produtiva.
  • A falta de coesão entre Estados‑membros trava a competitividade europeia face a blocos altamente coordenados. Francesca Bria insiste que “a Europa tem de se mover mais rápido” e que as decisões estratégicas devem ser tomadas à escala continental.
  • A disputa tecnológica é, simultaneamente, um confronto militar e de segurança. Para a economista, a Europa enfrenta “uma das decisões mais importantes desde a Segunda Guerra Mundial”: construir uma defesa tecnológica própria, evitando depender de infraestruturas controladas por potências externas.

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