A nova estátua de Banksy na Praça de Waterloo, em Londres
Na manhã de quarta-feira, 29 de abril, quem passou pela Praça de Waterloo, uma das mais emblemáticas do centro de Londres, deparou-se com uma presença inesperada. Sobre o pedestal, surgiu uma estátua de um homem de fato preto, com um pé já fora da base, como se estivesse prestes a avançar. À frente, ele ergue uma bandeira enorme - igualmente negra - que lhe encobre por completo o rosto.
O impacto veio tanto do cenário como da imagem: um executivo em marcha para o vazio, privado de visão pela própria bandeira que carrega. A peça, pela surpresa, chamou atenções imediatas; a autoria, para quem acompanha a arte de rua contemporânea, acabou por não ser propriamente um mistério: tudo apontava para Banksy.
No dia seguinte, o próprio artista recorreu ao Instagram para confirmar que a obra era sua, publicando o vídeo da montagem do pedestal e da estátua. Entretanto, a Câmara de Westminster - responsável pelo distrito onde a intervenção apareceu - declarou que a obra vai continuar acessível ao público. Num registo de humor, tão característico do seu percurso, Banksy escreveu no Instagram que escolheu aquele local por existir ali um “espaço por preencher” entre estátuas consagradas: a do rei Eduardo VII, a de Florence Nightingale e um Memorial à Guerra da Crimeia.
Quem é Banksy e como se tornou um ícone da arte de rua
Ainda hoje não há confirmação oficial sobre a identidade de Banksy, embora as hipóteses mais repetidas apontem para dois elementos da banda Massive Attack. Seja como for, o percurso público do artista tem marcos relativamente bem conhecidos.
Os primeiros trabalhos com moldes (stencils) surgiram em Bristol, no início da década de 1990, acompanhando a vaga de grafíti que começou a marcar tanto os grandes centros urbanos como as suas periferias. Com a viragem para o novo milénio, Banksy transformou-se num símbolo global da arte de rua.
A partir do Reino Unido, foi espalhando intervenções por vários pontos do mundo. Nova Iorque, Los Angeles, Detroit e Nova Orleães, bem como Itália, Palestina e Ucrânia, Austrália, Canadá e Espanha, receberam obras onde o gesto contestatário se apoia, frequentemente, na metáfora como elemento central. A notoriedade cresceu por dois caminhos: por um lado, pela originalidade formal - murais, esculturas, instalações e trabalhos com moldes que parecem jogar às escondidas com quem passa - e, por outro, pela forma como se posiciona em cenários de conflito ou em territórios marcados por crises humanitárias profundas.
Reacções e leituras políticas da obra
A presença da estátua em Waterloo cria um contraste difícil de ignorar: a memória de glórias passadas e das virtudes associadas a essas figuras históricas confronta-se com um presente pintado de negro. O efeito é, no mínimo, provocador.
Há quem leia, nesta imagem, um espelho do estado da Europa: prisioneira da burocracia, lenta perante sucessivas vagas de imigrantes e presa a uma noção “fofinha” daquilo que entende por politicamente correto. O senador Bernie Sanders resumiu a leitura numa frase: "Quando uma bandeira te cega, cais pelo precipício". A eurodeputada alemã Terry Reintke também reagiu na rede X: "Banksy acerta de novo. Patriotismo sem visão é um passo para o abismo".
A minha interpretação e a citação de Murakami
A minha leitura segue por outra via. Se aquele homem simboliza a Europa - ou, para os britânicos, o Velho Mundo, onde a grandeza da Grã-Bretanha foi decisiva tanto para o seu desenvolvimento como para a sua desagregação -, não consigo reduzir a mensagem à ideia de patriotismo cego.
O que vejo é um mundo capturado por uma nuvem negra: uma força que o cobre de breu, sugerindo uma condenação anunciada do Velho Continente, fraturado pela complacência perante novos invasores. Para enquadrar esta sensação, lembro-me de uma frase de Murakami - a quem eu desejaria ver receber o Prémio Nobel - num dos seus romances mais belos, "Kafka à beira-mar". Nessa obra, a personagem coronel Sanders, curiosamente com o mesmo nome do senador, diz a certa altura, numa conversa: "No fim de contas, o ser humano destrói-se mais vezes por causa das suas virtudes do que por causa dos seus defeitos".
O homem da estátua veste-se como um líder e avança, decidido, para o abismo; é precisamente isso que o torna trágico.
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