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Trilema europeu e transição energética: conclusões do estudo Brookings e FFMS

Homem com colete refletor e capacete segura tablet com mapas, perto de turbinas eólicas e painéis solares ao pôr do sol.

"Estamos agora no meio de uma crise energética mundial. Hoje é claro que este conflito com o Irão não está perto de terminar, e isso pode gerar sérias dificuldades". O aviso foi deixado por Constanze Stelzenmüller, diretora do Centro de Estudos sobre EUA e Europa da Brookings Institution. Coautora do estudo sobre o trilema europeu e a transição energética, considera que o risco de bloqueio do estreito de Ormuz, no Médio Oriente, funciona como mais um sinal de que a Europa deve continuar a colocar a descarbonização no topo das prioridades. "Temos de repensar a independência energética da Europa e a resiliência do seu sistema energético", sublinha.

Produzido pela Brookings em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), o documento mapeia obstáculos à transição e defende que a integração do sistema energético europeu é uma resposta para o trilema - segurança do abastecimento, acessibilidade e metas climáticas. Samantha Gross, diretora da Iniciativa sobre Segurança Energética e Clima da organização norte-americana e também coautora, recorda que "o aumento da procura de energia não é um bug da transição energética", mas "uma característica" que tende a manter-se.

Para as especialistas, as renováveis ajudam a responder ao aumento do consumo e, ao mesmo tempo, abrem espaço para diminuir a dependência externa da Europa e reforçar a competitividade do continente, em particular na indústria. "A integração do sistema energético é uma clara vitória para a Europa nas três vertentes de acessibilidade, segurança e clima. E a infraestrutura é a chave para isto tudo", reforça Samantha Gross.

Estas ideias estiveram em destaque na conferência, que contou ainda com Fátima Barros (FFMS), Gonzalo Escribano (Real Instituto Elcano), João Abel Peças Lopes (INESC-TEC), Bruno Cardoso Reis (ISCTE), Isabel Grilo (ECFIN) e Ed Conway (jornalista e autor).

Abaixo, as conclusões principais.

Península Ibérica e a "oportunidade única"

  • Embora seja muitas vezes descrita como uma ilha energética devido à escassez de interligações com o resto da Europa, a Península Ibérica dispõe de recursos naturais relevantes para gerar energia renovável. Para Gonzalo Escribano, isso traduz-se numa vantagem rara: "há uma oportunidade única para liderarmos uma revolução industrial".
  • O potencial aponta para sectores industriais com consumos energéticos elevados, onde a energia verde é cada vez mais sinónimo de menos emissões, maior segurança no abastecimento e custos inferiores. "Se formos capazes, na Ibéria, de fornecer essa energia de fontes renováveis somos muito competitivos porque conseguimos fazê-lo a um preço mais baixo", concorda João Abel Peças Lopes.
  • O especialista entende que ligar melhor o sistema energético ibérico ao resto da Europa pode trazer benefícios e defende que, após o apagão de há um ano, Portugal e Espanha estão hoje mais preparados para eventuais falhas. "Acredito que um problema semelhante não provocaria um apagão como o que aconteceu", afirma.

Incerteza veio para ficar

  • Isabel Grilo considera que a sucessão de crises energéticas confirma que "a direção que definimos [na Europa] está correta e que é desta transição energética que precisamos". Quanto aos apoios da União Europeia a consumidores e empresas, a diretora da Direção-Geral dos Assuntos Económicos e Financeiros da Comissão Europeia sustenta que devem ser "temporários" e "dirigidos" para salvaguardar a economia. "Temos de olhar para os consumidores mais vulneráveis e sectores mais expostos".
  • Sobre a instabilidade, há convergência entre os participantes: tudo indica que será prolongada e que é difícil prever uma inversão na orientação da geopolítica mundial, mesmo num cenário pós-Trump. "Os EUA são um poder revisionista agora. Costumavam ser o defensor de uma ordem global (...), mas claramente essa já não é a realidade com a administração Trump", reconhece Bruno Cardoso Pires.
  • "Temos de continuar com a transição energética", acrescenta Constanze Stelzenmüller, apontando este caminho como forma de reduzir a dependência externa europeia.
  • No fecho do encontro, Ed Conway - autor do livro "Mundo Material" - chamou a atenção para a necessidade de o mundo, e particularmente a Europa, voltar a considerar o impacto dos materiais e da dimensão física, numa época em que a desmaterialização parece dominar. "Temos de pensar na economia como estando assente em pilares fundamentais que são as coisas materiais, físicas", observa.
  • Por isso, entende que as crises energéticas desencadeadas pela guerra na Ucrânia e, mais recentemente, pelo conflito no Médio Oriente são "um alerta importante" para o peso do que é físico - como o petróleo - na economia e na geopolítica. "O sal é a base para muitas coisas no sector químico. Hoje, 90% dos produtos farmacêuticos derivam de químicos que precisam do sal para existir", exemplifica.

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