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Raça, QI e ‘mercado livre’: de Silicon Valley a Donald Trump, com Quinn Slobodian e Friedrich Hayek

Balança dourada com cérebro e moedas, livro aberto, papel e computador num escritório com vista urbana.

A falsa “ciência” da raça e o ‘mercado livre’

Entre as tentativas lançadas nas últimas décadas para legitimar os atuais patamares de desigualdade económica nas sociedades ocidentais, poucas são tão nauseantes como as que colam uma suposta ciência racial a argumentos em defesa do ‘mercado livre’. A premissa é simples e conveniente: haveria raças naturalmente mais inteligentes do que outras e, por isso, seria “justo” que ganhassem mais.

E de onde retiram esses autores a certeza de que certas raças seriam menos inteligentes - com a deles, claro, no topo? Invocam as mais recentes técnicas de análise genética e os testes de QI como se fossem provas finais. Nessa operação, varrem-se para debaixo do tapete os fatores culturais e históricos (apesar de, por exemplo, ter existido legislação que proibia ensinar negros a ler). Entre os divulgadores mais visíveis desta ideologia da discriminação-por-natureza há mesmo quem sustente que determinadas raças não deveriam ter direito de voto, ou que se lhes devia pagar para se esterilizarem. Que muitos adeptos sejam figuras conhecidas do mundo das novas tecnologias não é, propriamente, inesperado.

O culto do QI, Silicon Valley e Donald Trump

A inteligência tende a ser um valor particularmente exaltado em universos como o de Silicon Valley. Ainda assim, foi com Donald Trump que o recurso ao QI como insulto e instrumento de desvalorização passou a ser usado às claras na arena política. Esse ambiente, porém, não nasceu do nada: vinha a ser montado há bastante tempo.

Quinn Slobodian, a deriva antidemocrática e Friedrich Hayek

Nos anos 90, neoliberais e aliados - apreensivos com a possibilidade de o fim da guerra fria abrir espaço ao avanço da democracia económica e ao fortalecimento de causas como o ambientalismo - decidiram mobilizar a nova ciência genética para ressuscitar falácias que fazem lembrar as décadas de 1920 e 30 do século passado. Num livro marcante, o historiador canadiano Quinn Slobodian reconstrói o percurso recente desse lixo intelectual e explica como vários dos seus expoentes, ao investirem contra a democracia, acabaram por desembocar na direita populista e, pelo caminho, trair o pensador que afirmam tomar como referência: o economista austríaco Friedrich Hayek.

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