A ideia de que “O país não acaba” caso não exista reforma laboral foi atirada por Luís Montenegro. Ainda bem: seria um desastre se um país com quase 900 anos - e com provas dadas a resistir a muito mais - se esfumasse por tão pouco. O ponto, porém, não é a extinção. O problema é outro: é o país ficar parado, sem dar o salto.
O incómodo e os desencontros na direita
Partilho com os leitores uma suspeita: na São Caetano à Lapa há quem se irrite quando cronistas e comentadores de direita não se colocam, automaticamente, em defesa do Governo. Para mim, isso não faz sentido. Se a direita preza a liberdade, então um cronista de direita (como um de esquerda, aliás) deve responder apenas à sua consciência.
E o mais curioso - embora até tenha algo de enternecedor que o Governo se considere de direita - é o desencontro. Precisamente agora, quando eu próprio estou a defender o Governo a propósito da legislação laboral - honra a Maria Rosário Palma Ramalho -, o primeiro-ministro escolhe uma frase curta e trapalhona que me deixa mal?
Reforma laboral de Luís Montenegro: imperfeita, mas no rumo certo
A verdade é que o pacote apresentado tem falhas e não está completo, mas aponta na direcção correcta. Não vem com a promessa de resolver tudo: produtividade, competitividade, investimento, escala empresarial, justiça e fiscalidade não cabem numa lei laboral.
Talvez, se a tal “ambição reformista” - que os chefes garantem possuir, mas que o povo não vê - tivesse significado mais iniciativa, a conversa fosse outra. Seja como for, não se muda coisa nenhuma mantendo intocadas regras que perpetuam uma economia pequena, rígida e sem ambição.
Portugal: uma velha num mundo novo (os números)
Portugal habita um mundo novo com hábitos de velha. Em 2024, cada trabalhador português gerava cerca de 47,7 mil euros de PIB, o que nos colocava no 19º lugar da União Europeia. No ranking de competitividade do IMD de 2025, Portugal aparecia em 37.º entre 69 economias.
O investimento em inovação e desenvolvimento fica em 1,7% do PIB, quando a média europeia é 2,24% e os Estados Unidos chegam a 3,45%.
Nas empresas, a fotografia é “doméstica”: em 2024, 1,6 milhões de empresas empregaram 4,7 milhões de trabalhadores (“é fazer as contas”, como dizia o outro); sem escala para inovar, pagar melhor ou disputar mercados externos. E, na fiscalidade, o Estado intromete-se como amante na relação entre empresa e trabalhador: em 2025, o tax wedge português era de 39,3%, acima da média da OCDE, de 35,1%.
O debate político e a hesitação do Governo
Com este pano de fundo, tratar a reforma laboral como uma conspiração contra o trabalhador é absurdo. E é perigoso. O trabalhador português não se defende com uma economia pobre. Nem haverá empregos para proteger se não existir uma economia onde esses empregos possam viver.
A esquerda chama protecção ao imobilismo e à intervenção do Estado. O Chega pega numa conversa sobre produtividade e transforma-a numa raspadinha sobre a idade da reforma: prémio imediato, conta calada.
E o Governo? O Governo devia berrar isto como o William Wallace, mas vacila na sua própria razão. O país não acaba? Evidentemente que não. Vai-se adiando, acomodando, desistindo. Esse é o drama do país: não o fim, mas a persistência do seu marasmo.
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