António José Seguro discursou esta terça-feira na Assembleia da República, durante a cerimónia de entrega do Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa 2025, e aproveitou a ocasião para enaltecer as “vozes que se agigantam e estremecem a indiferença”, num contexto em que, disse, existem “países e líderes políticos apostados na tragédia”. No seu discurso, aludiu ainda aos jornalistas mortos pelas forças de Israel.
Cerimónia do Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa 2025
O Prémio Norte-Sul distinguiu o islandês Bragi Guðbrandsson, defensor dos direitos da criança, e o jornalista palestiniano Rami Abou Jamous, repórter de guerra.
Na intervenção, o chefe de Estado começou por sublinhar a ambivalência com que viveu o momento: “É com um prazer dorido que me pronuncio sobre a entrega do Prémio Norte-Sul a Bragi Guðbrandsson e Rami Abou Jamous. Este sentimento estranho deriva, de certa forma, da contradição brutal dos tempos que correm”.
A seguir, contrapôs duas realidades: de um lado, há “países e líderes políticos apostados na tragédia, a propagar o desprezo pelos direitos humanos” e a recusar “uma civilização assente no humanismo”; do outro, salientou, surgem “vozes que se agigantam e estremecem a indiferença”.
E reforçou a ideia nesses termos: “Vozes que nos chamam de volta à essência da nossa condição humana, vozes que cuidam. Premiar este alerta ou este grito é, sem dúvida, mais do que um prazer. É um dever e, ao mesmo tempo, um agradecimento”.
Rami Abou Jamous e os jornalistas mortos no Médio Oriente
Ao referir-se a Rami Abou Jamous, António José Seguro citou números do Comité para a Proteção dos Jornalistas, segundo os quais “no ano passado, dos 129 jornalistas que perderam a vida em todo o mundo enquanto exerciam o seu trabalho, quase metade foram mortos em Gaza”.
Prosseguindo, acrescentou: “Segundo a mesma organização, e cito, as Forças de Defesa de Israel foi a entidade governamental que matou mais jornalistas desde que o Comité começou a documentar os casos em 1992”.
O presidente da República apontou ainda que “já este ano, 16 dos 27 jornalistas mortos foram vítimas de ataques, segundo a organização não-governamental Campanha Emblema de Imprensa” e que “a maioria das mortes ocorreu no Médio Oriente, sobretudo no Líbano e em Gaza”.
“Diário de bordo de Gaza” e a “realidade mortal”
No mesmo contexto, António José Seguro leu passagens do “Diário de bordo de Gaza”, de Rami Abou Jamous, sobre a tentativa de criar “um imaginário protetor para o seu filho de três anos”, Walid.
Depois, condensou assim “a realidade mortal” vivida pelo jornalista palestiniano: “Modo de vida: fugir das bombas; objetivo de vida: sobreviver com a família; estilo de vida: cada dia é um sobressalto; emoção de vida: desespero; espírito de vida: injustiça; testemunho de vida: mortes; partilha de vida: ser ouvido, gritar à consciência da humanidade”.
António José Seguro afirmou também que “Rami Abou Jamous e muitos camaradas de profissão não baixam a voz” e que continuam a tentar “relatar uma realidade distorcida pelas armas e pela propaganda”, dando “notícia da barbárie, da tragédia humana”, ao mesmo tempo que outros, “no conforto veem as imagens da guerra e já não as sentem”.
Bragi Guðbrandsson e a proteção das crianças
Quanto a Bragi Guðbrandsson, o chefe de Estado recordou o entendimento do júri do Prémio Norte-Sul, que considerou que “as suas contribuições reforçaram respostas judiciais multidisciplinares e adaptadas às crianças face à violência e aos abusos sexuais, ao mesmo tempo ajudando a moldar as normas internacionais da proteção infantil através do seu trabalho com o Conselho da Europa e as Nações Unidas”.
Conselho da Europa e Centro Norte-Sul
No final da intervenção, António José Seguro defendeu que o Conselho da Europa e o Centro Norte-Sul podem ser “uma força motriz capaz de estancar a deriva autocrática que se faz sentir, mesmo em regimes que se dizem democráticos”.
De seguida, retomou a ideia central do seu discurso: “E é por isso que a atribuição deste prémio tem um duplo sentido e que me permite regressar ao início da minha intervenção. Distinguir as vozes que se agigantam e estremecem a indiferença mundial, as vozes que nos recordam a nossa condição humana, as vozes que cuidam dos mais frágeis e se insurgem contra a violência, distinguir estas vozes é premiar quem o faz, é premiar o sujeito, a ação e também o verbo amar”.
Por fim, concluiu: “Aos dois premiados, os meus sinceros parabéns e o voto de que nos voltemos a encontrar cumprindo o sonho: amanhã vai ser melhor”.
O Conselho de Europa é uma organização internacional dedicada à promoção dos direitos humanos, criada em 05 de maio de 1949, e integra 47 Estados-membros, entre os quais todos os países da União Europeia.
O Prémio Norte-Sul distingue, todos os anos, duas personalidades ou organizações pelo seu compromisso com os direitos humanos, a democracia e o Estado de direito.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário