Um sistema de saúde sustentável para lá dos ciclos políticos
Construir um sistema de saúde que se mantenha sustentável implica pensar a longo prazo, com uma orientação que não fique refém dos ciclos políticos e que consiga atravessar diferentes correntes ideológicas.
É certo que existirão sempre problemas mais circunscritos e operacionais no sistema de saúde que cada governo terá de resolver. No entanto, há igualmente desafios estruturais que só se enfrentam com compromissos duradouros e consensos apoiados no conhecimento científico.
É precisamente nesta lógica estrutural e articulada - envolvendo saúde humana, animal e ambiental - que a perspetiva One Health se afirma. E é também por isso que o Pacto Estratégico para a Saúde se enquadra, de forma natural, na visão do PAN.
É neste quadro que acompanho o processo de construção deste pacto, na qualidade de interlocutora do PAN junto do coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde, Professor Adalberto Campos Fernandes.
Envelhecimento e sustentabilidade futura dos sistemas de saúde
Karl Lauterbach, médico, académico e ex-ministro da Saúde alemão, sustenta num artigo científico publicado no European Journal of Epidemiology que fatores como o envelhecimento da população, as alterações climáticas e a saúde ambiental serão decisivos para a sustentabilidade futura dos sistemas de saúde.
Se, na Alemanha, onde 22,4% da população tem 65 anos ou mais, o envelhecimento já representa um desafio muito significativo, em Portugal a realidade é ainda mais exigente: 24,1% da população encontra-se nessa faixa etária, de acordo com a Eurostat.
O envelhecimento demográfico irá, inevitavelmente, intensificar a pressão sobre cuidados de saúde, cuidados continuados e mecanismos de proteção social. A geração baby boomer, que hoje permanece maioritariamente ativa, passará gradualmente a ser a principal utilizadora dos sistemas de saúde e da segurança social.
Em paralelo, o cancro, a demência e o declínio cognitivo tenderão a tornar-se mais comuns, mais complexos e mais dispendiosos. Perante este cenário, torna-se essencial reforçar a prevenção e o envelhecimento saudável, apostando no fortalecimento dos cuidados primários, continuados e domiciliários, bem como no diagnóstico precoce.
A tecnologia terá aqui um papel determinante, através de inteligência artificial, telemedicina, monitorização remota e integração de dados em saúde, possibilitando cuidados mais antecipados, personalizados, prestados no domicílio e com maior eficiência.
A estes desafios demográficos soma-se a fragilidade crescente dos recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde. Por isso, é fundamental construir consensos em torno da valorização efetiva das carreiras, da melhoria das condições de trabalho, da estabilidade organizacional e de incentivos à dedicação exclusiva - sob pena de, nas próximas décadas, ficar comprometida a capacidade de resposta do sistema público de saúde.
Alterações climáticas, saúde ambiental e a abordagem One Health
Os impactos das alterações climáticas na saúde traduzem-se, entre outros aspetos, no aumento de fenómenos climáticos extremos, na mortalidade associada ao calor e no agravamento da saúde mental.
No domínio da saúde ambiental, a evidência científica tem demonstrado, por exemplo, que a poluição do ar se associa a doenças cardiovasculares, diabetes, cancro e demência. Do mesmo modo, a perda de biodiversidade favorece o surgimento de zoonoses (doenças de animais transmissíveis a humanos) e de doenças transmitidas por vetores.
Em simultâneo, a acumulação crescente de microplásticos nos oceanos e na cadeia alimentar humana já constitui uma preocupação relevante em saúde pública.
Neste contexto, faz sentido que o Pacto Estratégico para a Saúde promova um consenso alargado quanto ao reforço da vigilância epidemiológica, à promoção de hospitais e cidades mais sustentáveis, ao incentivo a modelos alimentares sustentáveis e ao fortalecimento da investigação em saúde ambiental e zoonoses - sempre numa perspetiva que reconheça a profunda interligação entre saúde humana, animal e ambiental.
Resistência aos antibióticos: um exemplo claro de interligação
A resistência aos antibióticos é um caso particularmente evidente dessa interdependência. Em muitos sistemas intensivos de produção animal, os animais são mantidos em condições de elevada densidade e fragilidade, o que conduz ao uso recorrente de antibióticos para prevenir infeções e sustentar a produtividade.
Esses antibióticos acabam por entrar na cadeia alimentar humana e chegam também ao ambiente através de resíduos e descargas da indústria agropecuária, contaminando solos e cursos de água. Este processo facilita o aparecimento de bactérias resistentes aos antibióticos, alimentando um fenómeno que hoje é uma das maiores ameaças à saúde das pessoas.
Para o PAN, um verdadeiro Pacto Estratégico para a Saúde é plenamente pertinente, colocando no centro das políticas públicas a prevenção, a sustentabilidade, a ciência e a visão integrada da saúde humana, animal e ambiental.
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