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Glovo aposta em entregas de tudo em Portugal em 30 minutos

Entrega de compras ao domicílio, mulher com sacola de supermercado e entregador com mochila amarela.

Nas maiores cidades portuguesas, tornou-se comum encomendar refeições ou fazer compras de supermercado e tê-las à porta em cerca de meia hora, atraídos sobretudo pela conveniência e pela velocidade. E as empresas de entregas estão a preparar-se para um futuro em que encomendar tudo, desde refeições a produtos de beleza e de vestuário, será a norma.

Depois de uma década em que as entregas de comida dispararam - “e o que aconteceu na indústria da restauração na última década irá acontecer no retalho”, afirma Sacha Michaud, cofundador da Glovo - o empresário defende que a mesma transformação está prestes a acelerar noutras categorias. Michaud falava ao Expresso à margem da SIM Conference, realizada no Porto a 14 e 15 de maio.

“Creio que os hábitos de consumo irão mudar, e irão mudar porque é conveniente. Poupa-nos tempo”, sintetiza. Ao mesmo tempo, admite que a expansão deste modelo exigirá mais estafetas num período em que a falta de mão-de-obra é generalizada em praticamente todos os sectores. “Iremos sempre ter a nossa visão em relação à flexibilidade. O que os estafetas pedem regularmente é flexibilidade e bom acesso a bons rendimentos”, diz. Mas, perante decisões judiciais em vários países que, em diferentes instâncias, concluíram que trabalhadores destas plataformas eram “falsos recibos verdes”, Michaud sublinha que não há alternativa: “O nosso trabalho é adaptar-nos à regulação e fazer com que as coisas funcionem”.

Em Portugal, a Glovo opera em cerca de 140 localidades e trabalha com “mais de 12 mil parceiros locais”, ou seja, restaurantes e retalhistas. Quanto ao total de estafetas que recorrem à plataforma, a empresa evita quantificar: “dada a sua natureza flexível, o número de estafetas que se ligam à app é altamente variável, pelo que não é possível ter um número exato”, indica a equipa de comunicação da empresa de Barcelona.

Entregas de tudo

Para a próxima década, a ambição da Glovo passa por se posicionar como o “aliado digital favorito” dos parceiros do retalho, quer pela presença na sua plataforma, quer através da Glovo B2B, que fornece às empresas uma solução de entregas em regime de “marca branca”. Na visão de Michaud, a fasquia logística vai baixar rapidamente: “As empresas em Portugal, hoje, entregam em dois dias. Amanhã irão entregar em um dia. E em três anos, irão fazer entregas em 30 minutos”.

Glovo B2B e entregas em “marca branca”

A via B2B é apresentada como uma forma de as marcas manterem a sua própria relação com o cliente, mas com tecnologia e operação de entregas integradas. Assim, a Glovo procura apoiar o retalho tanto no canal da plataforma como em soluções feitas para empresas que querem operar com identidade própria.

Categorias com compra frequente e crescimento acelerado

Segundo o cofundador, a adoção mais rápida deverá ocorrer nos bens de consumo comprados com maior regularidade. “A primeira fase acontecerá nos bens de consumo de compra frequente, coisas que geralmente compramos mais do que uma vez por semana ou mês”, abrangendo mercearia e também produtos de saúde e beleza. Nesta última área, refere um crescimento “que ronda os 40% anuais, bem acima do dobro do crescimento do negócio dos restaurantes”.

Apesar do aumento do custo de vida e da estagnação dos rendimentos nas economias desenvolvidas, Michaud entende que isso não travará o modelo, porque a falta de tempo pesa nas decisões diárias: “Nós hoje temos menos tempo. Fazemos 20 ou 30 coisas mais todos os dias do que os nossos pais”.

Empregados ou independentes

A empresa enfrenta pressão regulatória em várias geografias, incluindo Espanha, o seu mercado de origem, onde em 2021 as plataformas foram obrigadas a reconhecer os estafetas como trabalhadores com a entrada em vigor da chamada “ley rider”. Esta lei apoiou-se em jurisprudência de anos anteriores em tribunais espanhóis, que qualificaram muitos estafetas como falsos trabalhadores independentes. As plataformas contestaram essas leituras em tribunal e, mesmo com multas, os principais operadores resistiram a abandonar modelos assentes em independentes.

Espanha, “ley rider” e mudança de modelo

De acordo com o El País, o ponto decisivo foi a alteração legislativa que passou a prever responsabilidade criminal para gestores de empresas que impusessem condições laborais ilegais aos seus trabalhadores. Desde 1 de julho do ano passado a Glovo espanhola passou a operar com um modelo de distribuidores contratados, integrando cerca de 12 mil trabalhadores na sua operação.

Ainda assim, o universo total de trabalhadores da Glovo em Espanha é superior, porque a empresa também recorre à subcontratação. A concorrente Uber Eats viu-se igualmente forçada a trabalhar apenas com pessoal contratado para evitar litígios, embora o seu modelo assente exclusivamente em serviços prestados por empresas terceiras.

Já este ano, a Glovo chegou a acordo com sindicatos espanhóis para despedir 400 trabalhadores em 60 cidades, invocando “complicações operacionais” em localidades de média e pequena dimensão. Em Itália, também este ano, uma decisão judicial instou a Glovo a regularizar a situação laboral dos seus estafetas.

Delivery Hero, pressão de acionistas e multa europeia

A casa-mãe da Glovo, a alemã Delivery Hero, também lida com dificuldades. O presidente executivo, Niklas Östberg, anunciou no início de maio que iria deixar o cargo, pressionado por um grupo de acionistas que discorda da estratégia seguida e exige a saída de vários mercados considerados dispendiosos e pouco rentáveis.

Outro impacto significativo foi a multa de €329 milhões aplicada pela Comissão Europeia à Glovo e à Delivery Hero, relacionada com um acordo de não concorrência entre as duas empresas entre 2018 e 2022 - ano em que a empresa alemã adquiriu a maioria do capital da Glovo.

A Glovo está atualmente presente em 23 países na Europa, Ásia e África. O plano passa por crescer em novos mercados e, em paralelo, aprofundar o negócio nos países onde já opera. Michaud diz não ter dúvidas de que, apesar da pressão dos acionistas para reestruturar operações, a Delivery Hero continuará disponível para financiar a expansão: “A Delivery Hero está muito contente com as nossas métricas”.

É em África que a plataforma diz estar a registar os maiores ritmos de crescimento. “É a região que cresce mais depressa e acreditamos que será uma região fantástica para investir”, afirma Sacha Michaud.

O Expresso marcou presença na SIM Conference a convite da Startup Portugal

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