Dois cidadãos portugueses estão detidos pelas forças israelitas após a interceção, em águas próximas de Chipre, de várias embarcações de uma flotilha humanitária que seguia rumo à Faixa de Gaza. A operação militar, desencadeada esta segunda-feira para travar barcos que tinham partido da Turquia, levou também à detenção de um britânico e de dois espanhóis que se encontravam a bordo.
Interceção perto de Chipre e detenção em águas internacionais
A indicação foi divulgada pela organização Gaza Freedom Flotilla. O Expresso falou com familiares de Beatriz Bartilotti e de Gonçalo Reis Dias - os dois portugueses em causa - que confirmaram que os ativistas foram detidos em águas internacionais.
Entretanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) referiu estar a acompanhar a situação, acrescentando que as embaixadas portuguesas em Telavive, Nicósia e Ancara estão em condições de assegurar todo o apoio consular aos cidadãos nacionais.
Ordem dos Médicos pede respeito pelo direito internacional
Num comunicado enviado aos órgãos de comunicação social, a Ordem dos Médicos afirma acompanhar com “bastante preocupação” a detenção dos dois médicos portugueses, ocorrida no âmbito da missão “Sumud Global Flotilla”. No mesmo texto, é explicado que o bastonário contactou o Ministério dos Negócios Estrangeiros, “tendo sido informado de que os dois médicos se encontram sob custódia das autoridades israelitas, devendo posteriormente ser repatriados para Portugal”.
A Ordem dos Médicos acrescenta que está a seguir o caso de forma contínua, em coordenação com o MNE e com o Ministério da Saúde, a quem “solicitou a devida observância da legislação internacional, ao abrigo da Convenção de Genebra e das normas da Associação Médica Mundial, no sentido de acionar todos os mecanismos diplomáticos necessários ao regresso seguro dos dois cidadãos, assim como da garantia plena da integridade física e psicológica dos dois portugueses”.
“Os médicos devem ser protegidos e respeitados em todas as circunstâncias; nunca podem ser alvo de violência, intimidação ou qualquer forma de condicionamento, independentemente do contexto político ou militar”, sublinha o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes.
O que se sabe sobre a flotilha e o destino dos ativistas
Francisca Bartilotti, irmã de Beatriz - médica de 30 anos - relata que os dois portugueses estão há várias semanas no Mar Mediterrâneo e que, neste momento, o seu paradeiro é desconhecido. “Foram raptados hoje em águas cipriotas, por um barco do Exército israelita, em conjunto com outras dezenas de cidadãos de outros países: Espanha, Reino Unido, França, Austrália, Canadá, Estados Unidos…”
Na semana passada, mais de 50 embarcações largaram do porto turco de Marmaris, na etapa final de uma viagem pensada para desafiar o bloqueio israelita a Gaza. A estação “Al Jazeera” noticiou que as forças israelitas intercetaram cerca de 20 barcos perto de Chipre e que cerca de 100 ativistas terão sido detidos. A mesma fonte referiu que os ativistas foram conduzidos ao porto israelita de Ashdod, onde seriam interrogados pelos serviços secretos israelitas. Para já, nem o MNE - questionado pelo Expresso - nem os familiares dos médicos portugueses confirmam esta informação.
Beatriz seguiu de Barcelona e Gonçalo juntou-se ao grupo em Itália, nas imediações de Nápoles. Fazem parte da Coalizão da Flotilha da Liberdade, que, através da Global Sumud, procurava pôr de pé a maior flotilha de sempre com destino a Gaza, com o objetivo de furar o bloqueio ao enclave. “Eram cerca de 50 os barcos que resistiram, os que ficaram após a primeira interceção, perto da Grécia; agora, a maioria terá sido intercetada”, descreve Francisca Bartilotti.
Francisca diz que falou com a irmã e com Gonçalo ao início da manhã, mas que deixou de obter respostas por volta das 9h (hora de Portugal Continental). “Já tinham avistado os barcos, que estavam muito perto deles, e já se previa que fossem intercetados. Entretanto, estão incontactáctaveis.”
Viagem atribulada
A travessia tem sido marcada por dificuldades, e a detenção é, até agora, o obstáculo mais grave. Segundo Francisca Bartilotti, a flotilha foi obrigada a fazer várias paragens devido a falhas técnicas ou a tempestades. “Na altura da primeira interceção, reuniram-se para definir os próximos passos e para se juntarem aos barcos que ainda estavam a caminho”, recorda a irmã da médica de família e trabalhadora humanitária, que já tinha participado em missões na Sérvia e em campos de refugiados na Grécia.
Francisca refere que Beatriz saiu de Barcelona com um princípio muito claro: “As nossas vidas são tão importantes quanto as vidas palestinianas.” Considera Beatriz e Gonçalo “cidadãos corajosos”, admitindo que o receio também estava presente. “Todos receberam treino e preparação para o momento em que possivelmente fossem intercetados. Há algum medo, porque estas ações têm sido deixadas impunes, mas há uma união tão grande entre as pessoas, e uma convicção tão forte, que acaba por sobrepor-se ao medo.”
De acordo com Francisca, os participantes receberam “treino psicológico e legal, face a ações de pessoas com armas, potencialmente violentas”, incluindo orientações sobre como reagir “quando lhes pedissem para assinar documentos que não tivessem sido eles a escrever”. A organização terá igualmente explicado que tipo de proteção poderiam solicitar e quais os direitos aplicáveis.
Por agora, a escassez de informação impede Francisca Bartilotti de se sentir tranquila. “Contactámos as autoridades do Governo e responderam-nos que estão a acompanhar a situação, embora ‘acompanhamento’ me pareça um termo um pouco passivo”, critica.
Ao Expresso, o Ministério dos Negócios Estrangeiros respondeu que “tem conhecimento de que dois cidadãos nacionais integravam a flotilha”, mas que, “até ao presente, nenhum dos cidadãos em causa contactou o Estado português”. Ainda assim, acrescenta o MNE, “as famílias já estabeleceram contacto com as autoridades portuguesas a fim de sinalizar a participação dos seus familiares”. O Governo volta a indicar que as embaixadas em Telavive, Nicósia e Ancara “estão preparadas para prestar todo o apoio consular aos cidadãos nacionais”.
“Às vezes fica a dúvida”
Sofia Miranda, companheira de Gonçalo Reis Dias - médico no Centro de Respostas Integradas no Porto Ocidental - descreve o clima de incerteza: “Estou assustada, e gostava que as autoridades competentes, como o Governo, me fizessem sentir mais segura. Percebo que possam estar a tentar resolver a situação, e, se for por isso... mas às vezes fica a dúvida. Eu quero acreditar que sim, porque é uma situação muito óbvia.”
Sofia diz ter poucas informações desde a última conversa com Gonçalo, também por volta das 9h em Portugal Continental. “Nessa altura, fomos avisados de que havia a possibilidade de ocorrer uma interceção pelo Governo e o Exército israelitas enquanto eles se encontravam em águas internacionais, a 250 milhas náuticas [463 quilómetros] do destino final, que seria Gaza.” Sublinha que o propósito era “levar ajuda humanitária, tanto mantimentos quanto equipa médica” e acusa o Governo israelita de agir de forma maliciosa na forma como enquadra estas ações.
“Eles começaram a ver mais drones e barcos militarmente equipados, e começaram a desconfiar disso. O próprio pedido de ajuda está comprometido, porque as comunicações são intercetadas pelo Exército, inclusive os pedidos de ajuda de rádio foram impossibilitados.” A médica - a concluir o internato de psiquiatria no Hospital de Leiria - liga a motivação do companheiro à mesma que o leva a apoiar, na rua, pessoas com dependências no Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD): ajudar.
“Eles são, obviamente, uma equipa não armada de ajuda humanitária. Por muito que o Governo israelita tente pintar estas ações humanitárias como grupos terroristas, são grupos humanitários não armados feitos por cidadãos que não conseguem ver o que está a acontecer em Gaza sem fazer nada e sem se pronunciarem”, afirma.
Sofia diz que Gonçalo seguia movido por um ideal: “Queria chamar a atenção para o perigo de se normalizarem certos comportamentos, como os do Exército, e a falta de pronunciamento de certas autoridades em relação ao que está a acontecer.” E acrescenta, sobre a sensação de impotência: “Já tivemos exemplos na História que nos fazem hoje questionar como é que ninguém fez nada. Este é um momento destes.”
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, confirmou a interceção de uma nova "flotilha para Gaza", alegando que a iniciativa tinha más intenções. Por sua vez, o Exército israelita disse que os participantes seriam “transferidos para um grande navio de carga”. Descreveu-o como “navio-prisão”, a partir do qual seguiriam para o porto israelita de Ashdod. Até ao momento, as autoridades israelitas não divulgaram quantos detidos há nem quantas embarcações foram intercetadas.
Este artigo foi atualizado às 18:20, de 18-05-2026, para incluir o comunicado da Ordem dos Médicos.
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