A doença crónica está a aumentar em Portugal, aparece em idades cada vez mais baixas e tende a tornar-se mais complexa, segundo uma investigação divulgada esta terça-feira, que identifica um "impacto desproporcional" nas pessoas em situação mais desfavorecida.
Estudo da Nova SBE sobre doença crónica em Portugal
A análise foi conduzida pelos investigadores da Nova SBE Carolina Santos e Pedro Pita Barros, detentor da Cátedra BPI | Fundação "la Caixa" em Economia da Saúde. Com base em dados de um inquérito a mais de 8600 pessoas, o trabalho conclui que, entre 2017 e 2025, a prevalência de doença crónica passou de 28% para 36%.
No mesmo período, a multimorbilidade (duas ou mais doenças crónicas) atingiu os 19%, depois de uma subida de 10 pontos percentuais.
Os resultados apontam para uma "expansão da morbilidade ao longo de todo o ciclo de vida adulto".
Evolução por idades e factores que explicam o aumento
A subida da doença crónica é explicada sobretudo (71%) pelo agravamento da carga de doença dentro dos próprios grupos etários, e não apenas pelo envelhecimento da população, que justifica 29% do aumento da prevalência de doentes crónicos.
Embora a prevalência seja mais elevada entre os mais velhos - com uma subida de 14 pontos percentuais no grupo dos 65-79 anos -, os investigadores assinalam um "crescimento significativo" também nos mais jovens: mais oito pontos percentuais nos grupos 15-29 anos e 45-64 anos.
Multimorbilidade e "perfis clínicos progressivamente mais complexos"
Para os investigadores, esta trajectória sugere que a doença crónica não só surge mais cedo, como também "evolui para formas mais complexas e que se acumulam ao longo da vida", o que implica "respostas mais integradas e continuadas" por parte do sistema de saúde.
Este aumento ao longo do ciclo de vida adulto, a par de um "aumento acentuado da multimorbilidade", traduz-se em "perfis clínicos progressivamente mais complexos", com mais condições crónicas acumuladas e uma necessidade acrescida de acompanhamento contínuo, integrado e centrado no doente.
Desigualdades económicas e acesso aos cuidados
Tendo em conta a situação económica, a análise indica que a probabilidade de uma pessoa com maiores dificuldades económicas vir a sofrer de doença crónica quase duplicou em oito anos: de 26% (2017) para 49% (2025).
Em comparação com os escalões socioeconómicos mais favorecidos, quem vivia com maiores privações económicas apresentava, em 2025, uma probabilidade 23,5 pontos percentuais superior de ser doente crónico.
O agravamento é ainda mais marcado quando se observa a multimorbilidade: a diferença entre grupos socioeconómicos aumentou de quatro pontos percentuais (2017) para 27 pontos percentuais (2025), levando os autores a alertar para "um risco crescente de desigualdade cumulativa".
"Os grupos com maior carga de doença são também os que enfrentam maiores dificuldades no acesso a cuidados de saúde", referem.
Prioridades de políticas públicas e resposta do sistema de saúde
Os investigadores defendem o reforço de políticas públicas que não se limitem a responder aos desafios do envelhecimento, mas que também previnam o agravamento das desigualdades em saúde.
Entre as prioridades apontadas, destacam:
- o reforço da prevenção, com maior alcance junto das populações mais vulneráveis;
- o desenvolvimento de modelos integrados de gestão da doença, acompanhando o doente nos diferentes níveis de cuidados;
- a redução de barreiras no acesso aos cuidados, nomeadamente no que diz respeito à medicação e aos Cuidados de Saúde Primários.
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