Quem procura um carro usado em 2025 tem de contar com um problema antigo que a tecnologia moderna ainda não eliminou: a manipulação do conta-quilómetros. Uma análise recente da carVertical mostra que modelos, em França - e, em alguns casos, em toda a Europa - aparecem mais vezes com quilometragens adulteradas e quantos quilómetros, em média, são “retirados” ao mostrador.
Como funciona a manipulação do conta-quilómetros e porque é tão perigosa
A manipulação do conta-quilómetros consiste em reduzir artificialmente a quilometragem registada num veículo. Normalmente, isso é feito através da electrónica de bordo, recorrendo a equipamentos e software específicos.
- O automóvel parece mais recente e mais bem estimado.
- O vendedor consegue pedir um preço significativamente mais alto.
- O estado de manutenção e o desgaste deixam de corresponder aos quilómetros apresentados.
Para quem compra, o impacto é directo: paga mais do que deveria e arrisca-se a reparações inesperadas, porque a viatura tem, na realidade, mais componentes desgastados do que o painel indica.
A fraude do conta-quilómetros não é um fenómeno residual, mas um factor de perturbação permanente no mercado de usados - sobretudo em modelos populares de longas distâncias e veículos comerciais.
Estudo em França 2025: os modelos mais afectados
A carVertical, empresa especializada em dados de veículos, analisou pelo sexto ano consecutivo quais os modelos em França com maior incidência de manipulação de quilometragem. Os dados dizem respeito a viaturas verificadas em 2025.
SUV da Audi no topo: o Q7 como “rei da manipulação”
Com a maior proporção de quilometragens adulteradas, o Audi Q7 surge no primeiro lugar. Em 6,6 por cento dos Q7 avaliados, o conta-quilómetros apresentava um valor “melhorado”.
O mais preocupante é a escala do corte:
- Redução média no Audi Q7: cerca de 88.400 quilómetros.
Isto significa que, quem pensa estar a comprar um Q7 com 160.000 quilómetros, pode na verdade estar mais perto de 250.000 quilómetros - uma diferença enorme para motor, caixa, suspensão e futuras necessidades de manutenção.
Audi A6 e Opel Vivaro: também com incidência elevada
Logo a seguir aparecem dois outros candidatos típicos de muitos quilómetros: a berlina Audi A6 e o furgão Opel Vivaro. Ambos atingem, no estudo, uma taxa de 6,3 por cento de veículos manipulados.
Também aqui a quilometragem é reduzida de forma expressiva:
- Audi A6: em média, cerca de 65.600 quilómetros a menos no conta-quilómetros
- Opel Vivaro: em média, cerca de 64.600 quilómetros a menos
No caso do Vivaro, o contexto torna-se ainda mais crítico: veículos comerciais costumam acumular muitos quilómetros por ano. Um furgão artificialmente “rejuvenescido” pode parecer um grande negócio - até surgirem as primeiras avarias dispendiosas.
Modelos com menor, mas ainda relevante, taxa de fraude
O estudo refere ainda automóveis em que a manipulação é menos frequente, mas que continuam a merecer atenção.
Entre eles estão, por exemplo:
- Opel Insignia: 4,38 por cento com quilometragem manipulada
- Mercedes-Benz Sprinter: 4,41 por cento
- Opel Astra: 4,43 por cento
Apesar de estes valores ficarem abaixo dos registados no Q7 ou no A6, representam, ainda assim, milhares de viaturas no mercado. Para quem compra, a conclusão prática é clara: mesmo em modelos com uma percentagem aparentemente mais baixa, vale a pena verificar tudo ao detalhe.
Veículos comerciais com manipulações recorde
A análise torna-se especialmente sensível quando se olha para a redução média de quilómetros em determinados modelos. Aqui, destacam-se sobretudo veículos comerciais, muitas vezes usados de forma intensiva em contexto profissional.
| Modelo | Quilómetros “retirados” em média |
|---|---|
| Fiat Ducato | ca. 144.300 km |
| Volkswagen T5 | ca. 122.900 km |
| Mercedes-Benz Sprinter | ca. 120.300 km |
No Fiat Ducato, em média, são “apagados” mais de 140.000 quilómetros. Tendo em conta quilometragens anuais típicas, isto corresponde rapidamente a uma diferença de cinco a sete anos de utilização.
Precisamente carrinhas, furgões e veículos de caixa fechada são um paraíso para burlões do conta-quilómetros, porque percorrem enormes distâncias em pouco tempo e, mais tarde, chegam em grande número ao uso particular.
Em alguns casos, o conta-quilómetros é ajustado várias vezes ao longo dos anos, à medida que o veículo muda de dono. O resultado é um histórico de manutenção completamente enganador, que o comprador dificilmente consegue reconstruir.
Perspectiva europeia: híbridos, topo de gama e carrinhas em destaque
A carVertical também avaliou os dados a nível europeu. Neste recorte, surgem no topo outros modelos, igualmente associados a muitos quilómetros:
- Toyota Prius: 14,3 por cento de quilometragens manipuladas
- Audi A8: 12,2 por cento
- Volvo V70: 9,3 por cento
O Toyota Prius é frequentemente utilizado como táxi ou viatura de empresa, acumulando, por isso, grandes distâncias. O Audi A8 é um clássico do segmento de topo, com muitas viagens em auto-estrada, e o Volvo V70 é uma carrinha muito procurada por condutores de longas distâncias e famílias. Estes perfis tornam-nos atractivos para a fraude: quilometragem real elevada, mas um mercado que paga bem por “poucos quilómetros”.
Porque a tecnologia moderna não travou a fraude do conta-quilómetros
Muitos compradores assumem que, com a electrónica actual, manipular a quilometragem é praticamente impossível. Na prática, não é assim. Embora os sistemas sejam mais complexos, existem também serviços especializados e dispositivos concebidos precisamente para contornar essas barreiras.
Vulnerabilidades típicas incluem:
- painéis de instrumentos digitais que podem ser acedidos via portas de diagnóstico
- unidades de controlo onde a quilometragem não fica guardada com redundância suficiente
- fiscalização insuficiente em algumas cadeias de importação e exportação
No comércio transfronteiriço de usados, é comum perderem-se registos importantes, o que torna as manipulações muito mais difíceis de detectar.
Como os compradores se podem proteger de conta-quilómetros adulterados
Ao comprar um veículo usado, não basta confiar no número mostrado no ecrã. Há várias medidas que ajudam a reduzir substancialmente o risco:
- Pedir o histórico do veículo: livro de revisões, facturas, relatórios de inspecção periódica, anúncios anteriores - reunir tudo e avaliar se faz sentido.
- Cruzar as quilometragens: os quilómetros em facturas de oficina e documentos de inspecção batem certo com o valor no painel?
- Verificar sinais de desgaste: volante muito polido, pedais gastos ou bancos “cansados” não combinam com uma quilometragem supostamente baixa.
- Fazer um test-drive: ruídos na suspensão, na caixa ou no motor podem denunciar muitos quilómetros.
- Usar um serviço de histórico: fornecedores como a carVertical, ou outras bases de dados, podem trazer pistas adicionais.
- Levar um profissional: um perito independente ou uma oficina consegue identificar melhor indícios menos óbvios.
Quanto mais alto for o preço e quanto mais procurado for o modelo, mais compensa ter um olhar profissional antes de assinar - sobretudo em SUV, segmento de luxo e veículos comerciais.
Enquadramento legal e riscos financeiros
Em muitos países, a manipulação do conta-quilómetros constitui crime, incluindo no espaço de língua alemã. O mais problemático, muitas vezes, não é apenas a alteração em si, mas a fraude deliberada associada à venda.
Para o comprador, o prejuízo costuma ser duplo:
- Paga um valor que não corresponde ao verdadeiro estado e valor do automóvel.
- É forçado a investir mais cedo do que esperado em reparações caras.
Mesmo que seja possível provar a manipulação e existam hipóteses de anulação do negócio ou indemnização, na prática o processo pode ser difícil, demorado e sem garantia de sucesso - sobretudo quando o vendedor é apenas um intermediário e se declara “alheio” ao problema.
A que devem estar especialmente atentos os modelos de muitos quilómetros
Em veículos que, por natureza, percorrem longas distâncias - viaturas de serviço, táxis, veículos de entregas, autocaravanas - a verificação deve ser ainda mais exigente. Nesta lista entram:
- SUV grandes como o Audi Q7
- berlinas diesel de segmentos médio e superior como o Audi A6 ou o A8
- furgões e carrinhas de carga como Opel Vivaro, Sprinter, Ducato, VW T5
- híbridos usados em frotas como o Toyota Prius
Uma quilometragem elevada e realista não tem de ser, por si só, motivo para desistir. Um automóvel com 250.000 quilómetros honestos de auto-estrada, bem mantido e com histórico comprovável pode ser uma escolha melhor do que um suposto “carro de garagem” com 120.000 quilómetros, mas com sinais de que algo não encaixa.
A regra essencial na compra de um usado é, por isso, simples: desconfie de histórias perfeitas, faça tudo com tempo e só dê credibilidade ao número do conta-quilómetros quando todas as restantes peças do puzzle coincidirem.
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