Sessão na Assembleia da República para assinalar a Nakba
A embaixadora da Palestina em Lisboa afirmou esta sexta-feira que a 'Nakba' - palavra árabe para “catástrofe” - permanece, nos dias de hoje, como uma “realidade contínua e injusta”, apesar de remeter para o período de 1947 a 1949, quando mais de 750.000 palestinianos foram forçados ao êxodo.
Rawan Sulaiman falava na Sala do Senado da Assembleia da República, numa sessão destinada a “assinalar e lembrar” os 78 anos da expulsão em massa de cerca de 750.000 palestinianos no contexto da guerra que conduziu à criação do Estado de Israel.
"A 'Nakba' não é somente um evento histórico, confinado ao passado. É uma realidade contínua e injusta. Ela vive em ocupações, 'checkpoints', confiscações de terras, colonatos, deslocamento forçado da população e na renúncia diária imposta à liberdade e dignidade dos palestinianos", sublinhou Sulaiman.
A sessão foi promovida pelo Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Palestina, liderado pelo deputado do Livre Jorge Pinto, e incluiu também a apresentação do documentário "Aida Returns", da realizadora palestiniana Carol Mansour. Nesse âmbito, a diplomata alertou que os seus concidadãos atravessam “outro capítulo devastador desta catástrofe”.
Gaza e o “outro capítulo devastador” referido pela diplomata
"Em Gaza, após quase dois anos de genocídio, estamos a testemunhar destruição numa escala que chocou a consciência da humanidade. Famílias inteiras mortas, bairros destruídos, tal como hospitais e escolas destruídos. E há ainda as crianças, com traumas inimagináveis", explicou a embaixadora, cuja família foi vítima da Nakba.
"Nesta ocasião solene, a assinalar a 'Nakba', eu trago comigo a memória, a dor e a resiliência de uma população que sofreram gerações de exílio e indisposição, mas a dignidade, a identidade e a esperança permanecem inabaláveis".
Sulaiman frisou ainda que, para si, marcar a data no parlamento português ultrapassa o plano protocolar: trata-se de uma intervenção de alguém que se considera uma “refugiada palestiniana de uma cidade histórica, Jaffa, e filha de uma família que foi tratada como animais durante a 'Nakba'.
"Para mim, isso é profundamente pessoal. A minha família, como mais de 750.000 palestinianos em 1948, foi violentamente mal tratada durante a 'Nakba', a catástrofe que destruiu mais de 400 cidades e vizinhos palestinianas e transformou uma inteira nação em refugiados da noitre para o dia", relatou.
"Não partimos por escolha própria, fomos expulsos à força, levando connosco apenas fragmentos de nossas vidas, as chaves das nossas casas, memórias de Jaffa e a persistente esperança de que um dia a justiça prevaleceria. Enquanto crescia, Jaffa nunca foi simplesmente uma história do passado", acrescentou.
Reconhecimento da Nakba e apelo a uma solução política
Na sua intervenção, a embaixadora sustentou que negar a 'Nakba' “não é apenas imoral, é um obstáculo à própria paz”.
"Nenhuma reconciliação pode surgir do apagamento da história de um povo. Reconhecer a 'Nakba' não significa reabrir feridas. Significa reconhecer a verdade como fundamento da justiça, da responsabilização e da paz genuína. Quando a justiça é negada, não desaparece. Ela intensifica o sofrimento e leva-nos para mais longe de uma paz justa e duradoura. Se me perguntarem qual é a solução, a minha resposta é clara: não há solução militar para esta realidade injusta", argumentou.
"E essa realidade são décadas de guerra, ocupação, assalto e violência ou dominação, pelo que se torna necessária uma solução política justa, baseada em leis internacionais e a realização dos direitos legítimos da população palestiniana, incluindo o direito de determinação e solidariedade", prosseguiu.
"Para Sulaiman, o que é necessário "não são mais armas ou mais sofrimento, mas o coragem e o desejo político de escolher justiça, diálogo e humanidade sobre força e dominação".
A diplomata destacou igualmente a “reconciliação histórica de Portugal com o Estado de Palestina”, bem como o apoio de Portugal ao direito internacional e aos direitos legítimos do povo palestiniano, considerando que estes gestos “enviam uma mensagem importante num momento em que a credibilidade do sistema internacional está a ser testada”.
Ao abrir a sessão, Jorge Pinto evocou a “data trágica”, sublinhando também que se trata de um momento “iniciador de uma luta que perdura até hoje”, apesar do “genocídio” que, disse, se verifica actualmente na Palestina, tanto na Faixa de Gaza como na Cisjordânia ocupada. Referiu ainda “ataques cada vez mais violentos de colonos, que contam com o apoio de Israel, e a aprovação do regresso da pena de morte”.
"O Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Palestina estará sempre disponível para ajudar na defesa da dignidade, da vida humana e de uma Palestina livre, para que nunca mais um palestiniano seja obrigado a abandonar a sua terra", afirmou.
Além de representantes do corpo diplomático acreditado em Lisboa, estiveram presentes os deputados Almiro Moreira (PSD), Isabel Moreira (PS), Rui Tavares (Livre), Paula Santos (PCP) e Fabian de Figueiredo (BE), que também intervieram na sessão.
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