Ao entrar na primeira classe do Alfa Pendular, Ricardo Araújo Pereira encontra a carruagem 1 já completa. Caminha até aos lugares assinalados, instala-se no assento do corredor e deixa a mulher junto à janela. À esquerda, o sol quente do fim de tarde atravessa a persiana aberta, pousa nos estofos pretos e devolve brilho à mesa de madeira clara à frente dos dois. Vão no sentido da marcha e seguirão de frente até Campanhã, sem atrasos previstos. O Alfa Pendular prossegue depois para Braga, mas o destino do humorista é o Porto. Até à estação, aproveita para voltar ao texto do espetáculo “Verificando se Você É Humano”.
Sobre a mesa, um iPad com capa escura e folhas A4 sem uma marca. As páginas foram impressas numa fonte serifada, a lembrar máquina de escrever - provavelmente compostas no Pages, o “Word” de quem prefere manter-se dentro do ecossistema Apple. Já mexeu nelas durante a manhã, mas o texto ainda não está totalmente fechado. Veste t-shirt preta, calças de ganga, ténis Asics azuis com sola verde e óculos de leitura. Tem o ar de quem se levantou cedo e já atravessou um dia inteiro antes de se estrear na Super Bock Arena Pavilhão Rosa Mota. E atravessou mesmo: acordou às cinco da manhã, sem despertador, com o texto a correr-lhe na cabeça. Antes de apanhar o comboio em Lisboa, por volta da hora de almoço, passou por Oeiras, na SIC, para gravar o “Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer” para a SIC Notícias.
Abre o iPad - fundo negro, letras brancas - e começa a escrever na aplicação Notas. A meio, o dispositivo muda de função. Encosta-o à mesa com um ângulo improvisado e apoia-lhe por cima o iPhone, transformando-o num suporte de ocasião para uma videochamada FaceTime. Do outro lado surge um rosto conhecido. Trocam poucas palavras e, quando a ligação termina, o iPad regressa ao lugar de trabalho: negro, branco, um texto ainda por fechar e apontamentos espalhados por toda a parte.
Em Portugal, para quem o identifica de algum sítio - e quase toda a gente o identifica de algum sítio - ele é simplesmente o Ricardo. Ou o RAP, a sigla que ele próprio usa e que o país acabou por adoptar. Esta noite sobe a palco para um solo de hora e meia, diante de milhares de pessoas. É a primeira vez que o faz nesta escala e neste formato, mas o estatuto de maior humorista do país não lhe altera o chão. Até a escolha do comboio carrega uma ideia: ao contrário da maioria dos artistas que faz este percurso em carrinha, Ricardo acha o comboio mais simples. O avião também podia ser opção, mas a burocracia do registo e do embarque tende a afastar quem quer deslocar-se depressa entre as duas maiores cidades.
Com a paisagem a correr lá fora e o relógio a aproximar Campanhã, ele continua no iPad. Quanto tempo levou a escrever o espetáculo? A resposta pede um segundo. “Não consigo definir quanto tempo demorou. É uma atividade diária.” O texto foi ganhando corpo à medida que foi sendo dito - primeiro em atuações para empresas, depois como abertura num espetáculo de Guilherme Fonseca em Cem Soldos. “em Tomar eram quatro páginas para 13 minutos. Agora são cinco vezes mais”, diz - diante de plateias pequenas onde era possível falhar sem grande ruído. Com tantos anos de carreira, “o que é estranho é nunca ter feito isto assim”, comenta, quando se pergunta “porquê agora?” E acrescenta, com a neutralidade com que poderia referir que não come antes dos espetáculos - coisa que também é verdade, mas só explica se lhe perguntarem -: “Não nasci para isto”, garante o humorista nascido três dias depois da Revolução, que se celebrava por aqueles dias.
Nascer para quê?
Ricardo Araújo Pereira nasceu em Lisboa, em 1974. Passou por escolas de freiras vicentinas, por franciscanos, por jesuítas e pela Católica. Diz-se ateu, mas guarda uma colecção de Bíblias. E, então, nasceu para quê? Para a comédia de sketches, para a televisão, para as crónicas semanais no Expresso e na “Folha de S. Paulo”? Para comentar política num programa de rádio e televisão? Para tudo isso - e ainda para escrever livros. O mais recente, “Mundo, Pára Quieto” (Tinta-da-China, 2025), junta crónicas escritas entre 2020 e 2025 para o jornal brasileiro e dificilmente podia ter um título mais alinhado com o espetáculo desta noite. E, no seu caso, quase tudo pode tornar-se matéria-prima para uma próxima piada: a visita ao Vaticano, a convite do Papa Francisco, não demoraria horas a regressar sob a forma de texto - também entra em “Verificando se Você É Humano”.
A Zé - Maria José, a mulher - segue no lugar da janela, num mundo paralelo ao dele. Alterna entre olhar lá para fora e olhar para ele. Não interrompe enquanto Ricardo conversa pela primeira vez com o Expresso nessa viagem. Quando o assunto chega a Cem Soldos, é ela quem sorri antes, como quem reconhece o ponto de partida. Foi ali que o espetáculo começou a ganhar dimensão, numa entrada surpresa no “Amigável”, de Guilherme Fonseca. O material estava ainda em estado embrionário, havia poucas pessoas na sala e a segurança de não ser a figura principal - a condição perfeita para falhar sem que o falhanço fique com nome e data. “Foi ótimo”, diz. Pausa. “E foi péssimo.” Não explica logo: tem o hábito de deixar uma frase no ar por um instante, como se a conclusão só devesse chegar quando estiver pronta. O lado ótimo foi ter um lugar onde dizer o texto em voz alta, perante pessoas reais, e perceber o que resultava. O lado péssimo foi medir, nesse mesmo processo, o tamanho do intervalo entre o que tinha e o que precisava de ter. Cem Soldos terá sido o momento em que o trabalho pela frente se tornou impossível de ignorar.
Ricardo Araújo Pereira nasceu em Lisboa, em 1974. Passou por escolas de freiras vicentinas, por franciscanos, por jesuítas e pela Católica. Diz-se ateu, mas guarda uma colecção de Bíblias.
“Na comédia de sketches há contracena. O stand-up é um microfone contra um bicho maior”, compara. O bicho maior é a sala - um bicho com cinco mil pessoas lá dentro. Do outro lado está um homem sozinho, com um microfone e um texto. “A confiança é algo simulada”, diz. Nas semanas que antecederam a estreia no Porto, a única pausa que fez foi na escrita da crónica semanal para a revista do Expresso. Televisão, podcast, o resto continuou; e ele acha que devia ter parado. Por isso elogia a decisão de Joana Marques, que “parou com o ‘Extremamente Desagradável’ enquanto percorre o país com o espetáculo ‘Em Sede Própria’”.
Sobre o percurso que construiu, insiste que não planeou nada. Terá sido “uma sequência de coisas que foram acontecendo”, cada passo a empurrar o seguinte, sem desenho prévio. O espetáculo desta noite segue a mesma lógica: apareceu, cresceu e acabou por se impor. Mas há um medo específico que lhe ocupa espaço: o risco de o material perder sentido para quem só tiver bilhete para o fim da temporada. O texto está colado ao presente - ao que é estar vivo agora, em 2026, ao que acontece à nossa volta - e, daqui a seis meses, algumas dessas coisas já terão mudado. O texto terá de correr com o tempo, o que obriga a mexidas e afinações. É um método que não deixa o conforto entrar: o espetáculo nunca fica fechado, permanece em progresso, sempre dependente da noite anterior e da manhã seguinte. As folhas A4 debaixo do iPad são a versão palpável dessa instabilidade.
“o espetáculo parte da verificação de humanidade”, diz, “e da ideia de que não estou preparado para o tempo que virá.” Os testes CAPTCHA - essa “pequena humilhação quotidiana em que uma máquina pede a um humano para provar que não é uma máquina” - servem de porta de entrada. Por baixo, porém, está uma pergunta mais antiga e mais dura: o que nos separa, o que nos segura humanos, o que se perde quando entregamos cada vez mais da nossa vida a instrumentos que nos imitam e que nós voltamos a imitar. “A internet é o sítio onde já li algumas das coisas mais desumanas que me foram dadas a ler”, afirma. “Ser esse mesmo meio a propor-se verificar se eu sou humano é uma coisa que me dá vontade de rir.”
Homem fora de época
Quando fala de humor, é seco na defesa de que “o humor não serve para nada”. Diz isto sem ironia, recusando atribuir-lhe uma missão redentora ou social que não reconhece. Para Ricardo, o humor existe, faz rir, e isso basta para justificar que exista. Sobre o tempo presente, cita Campos de Carvalho. O livro é “O Púcaro Búlgaro” e a frase é: “Não sou eu que estou fora da época, é a época.” Repete-a com a naturalidade de quem já a disse muitas vezes - e que continua a achar que se mantém verdadeira; também a tinha usado noutras entrevistas. “Há muitos momentos em que acho que isso acontece”, diz ao Expresso. “A gente diz: espera, não sou eu que estou a reagir mal. Estou a assinalar que há coisas no nosso quotidiano que são, às vezes, desumanas.”
Em Campanhã, a primeira classe do Alfa Pendular despeja passageiros na plataforma com a indiferença típica das chegadas. Ricardo Araújo Pereira sai no meio dos outros, mochila às costas, sem qualquer cerimónia. As folhas vão guardadas, o iPad também, e a viagem termina com a mesma discrição com que começou. À porta do comboio, há turistas que ficam logo parados à frente, naquela hesitação universal de quem não sabe para onde ir e resolve ficando exactamente onde está. Ele desvia-se, desce para o corredor inferior e ainda se engana no caminho para o largo da estação. É nesse trajecto curto que um homem o reconhece e o aborda pela primeira vez no Porto: diz-lhe que ele tem duas grandes qualidades - ser benfiquista e ser comunista. Ricardo sorri, agradece, tira uma fotografia, depois outra. Há simpatia, mas sem excesso; não tem o rosto de uma estrela que vive da atenção. É um escritor que, esta noite, tem um espetáculo.
No exterior, espera-o uma carrinha. Uma Mercedes preta, com letras grandes na lateral. A discrição ficou no comboio. “Verificando se Você É Humano”, com o mesmo grafismo dos cartazes e da publicidade, aparece agora estampado na viatura estacionada à saída de Campanhã, numa sexta-feira ao fim da tarde. Entre Campanhã e o Rosa Mota, o trajecto deveria durar poucos minutos, mas é sexta, é fim de tarde, e o Porto tem o trânsito que tem. A Mercedes avança devagar, semáforo a semáforo. Lá dentro, domina o silêncio. Ricardo vai à frente, no lugar do passageiro, e responde de forma breve ao que lhe perguntam. A equipa parece saber o compasso: não há conversa inventada nem tentativa de “animar” o ambiente.
A certa altura, a carrinha trava sozinha, sem que o condutor faça nada. O sistema reage por conta própria, prevê o que o condutor ainda não viu. E Ricardo limita-se a comentar: “estes sistemas de travagem…” Não completa - e nem precisa. Daqui a umas horas estará a falar em palco sobre a linha que separa humanos e máquinas, e a carrinha que o leva acaba de travar sem que ninguém carregasse no travão. Quando lhe perguntam se a temperatura está bem, ele responde que é catarro de fumador e que está boa. Pouco depois, a Zé pergunta-lhe se não tem fome. “Não como antes dos espetáculos”, diz. “Só se fosse uma salada de fruta.” Pausa. “Se corresse mal, sempre era colorido.” A frase sai com leveza de piada, mas também com a consciência de que a hipótese de correr mal existe.
É algures no meio deste trânsito de sexta-feira que, pela primeira vez, se ouve um “que estupidez”. Não parece dirigido a ninguém em particular. Fica no ar, dentro da carrinha, como se uma voz interior se tivesse escapado. Ou como se a ideia de ter construído este espetáculo, de ter chegado a este ponto e de estar agora a caminho de um pavilhão com cinco mil lugares vendidos continuasse a pedir uma explicação que ainda não encontrou por completo. O Pavilhão Rosa Mota aparece e a Mercedes entra pelo acesso dos jardins, separado da cidade por uma cancela.
O ensaio antes do espetáculo
No piso inferior da Super Bock Arena, a lógica é a dos bastidores de qualquer grande recinto: corredores, portas de serviço, um espaço fechado e quase vazio. É num corredor mais afastado que fica o camarim. Quando chegam, a produção aponta-lho. Ricardo Araújo Pereira agradece, mas pede para ir directamente para o ensaio. Lá em cima, a sala está vazia, mas longe de estar quieta: técnicos de som e luz, equipa de produção e Anabela Ventura - agente e maestrina de todo o espetáculo. Guilherme Fonseca e Manuel Cardoso, que nessa noite abrem o espetáculo, também aparecem. E Manuel faz 32 anos nesse mesmo dia. Enquanto a equipa criativa fecha pormenores, alguém cola autocolantes numerados nas cadeiras móveis da plateia. Um a um, com a paciência metódica de quem tem uma tarefa concreta para terminar antes das oito. As portas abrem às 20h30. Nos bilhetes, os lugares são sentados e estão marcados.
O ensaio começa por som e luz. Não é “passar o texto” como noutros ensaios gerais; é calibrar a relação entre corpo, voz e espaço. Anabela mostra o planeamento, o som de abertura. Ricardo ajuda a ajustar detalhes: segundos, entradas, tom, cor. A decisão fica: “Só projectores de seguimento”, concluem. Ricardo Araújo Pereira sobe ao palco com a roupa do comboio - a mesma t-shirt preta, calças de ganga e ténis Asics. O fato fica para depois, mas o que se vê em palco não é descontracção. É foco e disciplina, com o material incluído. Se o microfone dele é sem fios, não faz sentido ensaiar com outro diferente. Anabela insiste que tem de ser o certo - não é capricho, é afinação de tom e de relação entre elementos. Com cabo, não há mobilidade; sem cabo, há. Mesmo que ele quase não se mexa, a possibilidade tem de estar lá.
“Na comédia de sketches há contracena. O stand-up é um microfone contra um bicho maior”, compara. O bicho maior é a sala - um bicho com cinco mil pessoas lá dentro. Do outro lado está um homem sozinho, com um microfone e um texto. “A confiança é algo simulada”, diz.
Trocam o microfone e, agora, é Ricardo quem faz um pedido: quer um contador crescente, que comece no zero e vá avançando, para saber a cada momento quanto tempo passou desde que entrou em palco. Anabela sugere que o ecrã mostre antes o texto com notas. Ele prefere as notas em papel, com letra grande, legíveis a partir do palco. O ecrã fica para o contador. Anabela terá de imprimir novas folhas - houve alterações. Mais alterações. “Vou ter papéis”, diz. “Podemos colar em cima dos monitores.” E essa decisão acabará por entrar na coreografia do espetáculo: quando Ricardo se baixar para beber um gole de água, vira a página das notas. Com quase tudo preparado, a confiança do humorista ainda não apareceu. O ensaio está a terminar, as cadeiras estão praticamente numeradas e a sala quase limpa quando se volta a ouvir que isto “é uma estupidez”. Anabela deixa esses desabafos passar.
Uma arena de luz para Ricardo Araújo Pereira
Às oito e meia da noite, a Super Bock Arena está esgotada. No exterior, a cúpula verde mantém-se igual a si própria. No interior, milhares de pessoas começam a ocupar lugares que há pouco estavam vazios. Mais tarde, algures no piso inferior, Ricardo Araújo Pereira espera no camarim já com o primeiro fato da noite. Guilherme Fonseca e Manuel Cardoso abrem o espetáculo e a sala recebe-os com entusiasmo. Quando terminam, a sala mergulha no escuro. Não é um escurecer lento de cinema - é uma decisão, um corte. A luz de sala apaga-se e, durante alguns segundos, ouve-se apenas ruído humano na escuridão. As luzes só regressam quando Ricardo já está em palco. Ao perceber que o desenho de som e luz funcionou na abertura com precisão total, Anabela felicita a equipa em silêncio. É uma opção de encenação simples e eficaz: o espetáculo começa com presença, não com anúncio, mas exige exactidão. Quando a luz chega, a cúpula está pintada de um vermelho intenso e os ecrãs laterais duplicam a figura do humorista. Está sozinho em palco, de fato escuro, postura contida, mexe-se pouco. O microfone é sem fios, mas ele não precisa de atravessar o palco para “chegar” às pessoas. A voz chega. Na régie, ao centro e no fundo da sala, Anabela segue o texto rodeada por cinco técnicos.
O arranque faz-se com uma tese provocatória: dizer a alguém que se gosta muito dessa pessoa funciona como sinal de alarme, não como declaração. A sala demora um instante a perceber que ele está a falar a sério. Depois percebe e ri. O que se segue é uma hora e meia com densidade de ensaio e cadência de conversa. Não é comédia a solo no sentido mais clássico: não há uma sequência de piadas independentes que se possam arrancar do contexto e repetir noutro sítio. Há um argumento longo, com digressões que regressam, fios que parecem largados e reaparecem mais tarde, já transformados. A plateia raramente explode numa gargalhada imediata: há momentos em que fica quieta, a digerir uma ideia, e só depois ri. Numa sala desta dimensão, é um tipo de escuta activa pouco comum.
Os temas vão-se acumulando e ligando uns aos outros, mesmo quando Ricardo deixa ver o nervosismo, ao passar os dedos da mão esquerda pela bainha inferior do blazer. As pequenas marcas no tecido não o deixam fingir: é humano. Ainda assim, a capacidade de abstracção empurra-o em frente quase como uma máquina. O amor que se constrói à conversa e o que desaparece quando a conversa é trocada por ecrãs. As crianças a quem se rouba a infância com um telemóvel, com uma eficácia que lembra a do trabalho infantil de outros tempos. Os ovos como cocaína da natureza, numa deriva sobre alimentação e proteína em pó que arranca uma das gargalhadas mais longas da noite. Os CAPTCHA, que pedem a humanos que provem que não são máquinas num sítio onde se lêem algumas das coisas mais desumanas alguma vez escritas. Salomão, cuja sabedoria só funciona se pelo menos uma das mães for idiota. As zebras como erro de desenho de um criador que podia ter resolvido aquilo de outra forma. O futuro que nos prometeram - a USS Enterprise, o Capitão Kirk, outra galáxia - contra o interior da Artemis 2, que parece uma Ford Transit. A visita ao Vaticano, onde esteve ao lado de Chris Rock e Stephen Colbert e onde o Papa Francisco disse aos humoristas presentes que é possível rir de Deus. E ainda um segmento sobre pornografia na internet, sobre a estranha necessidade humana de categorizar e optimizar até a navegação num sítio para adultos.
O espetáculo começa com uma tese provocatória: dizer a uma pessoa que se gosta muito dela é um sinal de alarme, não uma declaração. A sala demora um instante a perceber que ele está a falar a sério. Depois percebe e ri.
No núcleo, a pergunta repete-se: o que nos distingue, o que nos mantém humanos, o que se perde quando entregamos cada vez mais de nós a instrumentos que nos imitam e que nós imitamos de volta. A certa altura, Ricardo chega a simular uma chamada telefónica com um assistente automático de atendimento; mas as luzes não se fecham apenas sobre ele. Guilherme Fonseca e Manuel Cardoso regressam ainda ao palco para um epílogo de perguntas do público - um momento mais leve, com uma dose de improviso que contrasta com a construção rigorosa do que veio antes. Nas respostas, mantém-se o registo de Ricardo Araújo Pereira: lógico, sinuoso, muitas vezes mais interessado em desmontar a pergunta do que em lhe dar resposta.
Encontro com o público ao contrário
Ricardo sai do palco, entra no camarim e troca de fato. É o segundo da noite, deixado ali antes do início para este instante exacto. O espetáculo tem um fato; o encontro com as pessoas tem outro. A sessão de encontro e fotografias foi incluída nos bilhetes mais baratos - não nos mais caros, nos mais baratos -, uma inversão da lógica habitual que ele não explica e que, de certa forma, dispensa explicação. As pessoas entram por uma porta, falam com ele e saem por outra. Há um placard grande com a imagem do espetáculo para as fotografias. Lá fora, a noite está amena, sem frio, e uma brisa leve entra pelas duas portas abertas. Até que, com a corrente de ar no corredor, a estrutura cai. O placard tomba na direcção dele e há um segundo de susto real, com uma armação metálica a cair-lhe para cima. Ninguém se magoa e a sessão prossegue sem o cenário previsto. Mais simples, mais directa: só as pessoas e o homem que, nessa noite, as fez rir.
Cerca de 24 horas depois, já após o segundo espetáculo, ele quebra de novo o jejum que impôs a si próprio com uma maçã. “Entre a primeira e a segunda data, o nervosismo não passou”, garante. Agora há alívio, mas em breve “começa a contagem decrescente” para o próximo “Verificando se Você É Humano”. Acaba a maçã e levanta-se: há outro encontro com o público para cumprir. E depois virá mais um jantar tardio. Não há maior condição humana do que a fome.
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