Um rito silencioso em torno do Plano Piloto de Brasília
Há, nesta exposição dedicada a Lúcio Costa, um instante quase litúrgico. Na área de maior destaque, consagrada ao Plano Piloto de Brasília, instala-se uma solenidade que roça a ideia de culto: a luz baixa, o ambiente pede silêncio e sente-se um apelo ao recolhimento. Tudo converge para um desenho. Feito pelo arquiteto durante uma travessia de navio, esse traço seria apresentado a concurso.
Como se viesse de um outro plano, escuta-se, a partir de cima, a voz de Lúcio Costa (1902-1998) - é o único ponto da mostra onde isso acontece. O autor descreve o projeto vencedor sem exuberância, num registo quase monocórdico. A cidade imaginada, que se tornou capital do Brasil em 1960, acabaria por ser uma das maiores glórias deste urbanista e professor. E há ainda um acaso biográfico que ajuda a anunciar a sua vocação cosmopolita: por ser filho de um almirante, nasceu em Toulon, França.
O espólio de 11 mil peças na Casa da Arquitetura
Se há traço que define a proposta expositiva, é o seu espírito de expedição: a sensação de partir à descoberta de um universo cultural e arquitetónico guardado pela Casa da Arquitetura desde 2021. O fascínio vem também do que parece impossível abarcar. A família confiou à instituição, sediada em Matosinhos, 11 mil peças. Aquilo que as curadoras dão a ver corresponde a apenas 10% de um acervo cuja análise e investigação prometem ainda múltiplas revelações.
Este encontro com Lúcio Costa traz, além disso, um detalhe singular: talvez pela primeira vez na Casa da Arquitetura surge uma exposição com uma dupla natureza claramente assumida. De um lado, é incontornável a relevância para arquitetos e estudantes de arquitetura, sustentada por um rigor científico implícito. Do outro, existe uma dimensão de divulgação pensada para uma leitura acessível a qualquer visitante.
Por isso, a mostra afasta-se dos formatos habituais das exposições de arquitetura. Como refere Ana Vaz Milheiro, “a história da arquitetura não se faz hoje apenas a partir do testemunho do construído”. Nota-se a intenção de expor a pessoa por detrás de cada projeto - seja a Torre de TV, as Superquadras Económicas, o Eixo Rodoviário ou a Praça dos Três Poderes.
O reflexo dessa mundividência está na massa de materiais reunidos: desenhos e plantas, filmes, fotografias, álbuns de família, correspondência, passaportes, telegramas, recortes de jornais e de revistas.
Seis núcleos e o espaço “Povo Brasileiro”
A exposição organiza-se em seis núcleos temáticos - ‘Família’, ‘Escritos’, ‘Portugal’, ‘Plano Piloto de Brasília’, ‘Brasília’ e ‘Desenho’ - e desemboca no espaço “Povo Brasileiro”. Essa área de pausa foi concebida pelos artistas plásticos brasileiros Ângela Detanico e Rafael Lain. A instalação parte da proposta de Lúcio Costa para a Trienal de Milão de 1964.
O conjunto inclui nove camas de rede; em cada uma há um tablet que permite ver as versões integrais dos filmes apresentados ao longo do percurso. Ali, surge ainda o desafio de decifrar uma frase escrita nas paredes com um alfabeto enigmático. Inspirada num livro do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro, define bem um certo estado de espírito brasileiro: “Essa mesma gente que passa o tempo livre na rede, quando o tempo aperta constrói em três anos, no deserto, uma capital.”
Um percurso que obriga a regressar ao início
Quem chega a este ponto tem, para sair, de voltar ao começo. O gesto funciona como um convite discreto a rever, com um segundo olhar, o trabalho de um arquiteto cujo legado não se esgota naquela “espécie de utopia social” chamada Brasília, como a designa Ana Vaz Milheiro.
Não é por acaso que, logo na entrada, se encontra a maquete do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde Pública (Rio de Janeiro, 1936). Trata-se de uma das suas obras iniciais, realizada com a participação de Le Corbusier, figura de referência absoluta do Movimento Moderno.
Esse regresso ao princípio pode também transformar a forma como se veem os filmes centrados na vivência dos moradores de Brasília, das Quadras Económicas do Guará e da Vila Planalto. São espaços de história oral, com momentos particularmente tocantes - como quando a presidente de uma associação de moradores se emociona e desabafa para um espaço indefinido: “Deu certo, arquiteto.”
A abertura do percurso, com oscilações em tons de azul e uma alternância de materiais, num jogo de cumplicidades entre o público e o privado, oferece um retrato mais íntimo dos laços familiares. É uma zona bem resolvida, apesar do equilíbrio difícil entre a memória afetiva - por exemplo, imagens do funeral de Lúcio - e a exigência do rigor documental.
Contradições, Portugal e um impacto global
Com relações internacionais sólidas, este homem “pensava desenhando”, como diz a neta, Júlia Sobral; ainda assim, não estava livre de contradições. Reaparece, de forma recorrente, a acusação de elitismo no seu trajeto, chegando-se mesmo a falar de uma raiz racista no seu discurso. Confrontada com estes temas, Ana Vaz Milheiro não evita o debate, embora sublinhe que o arquiteto se manteve sempre consciente da realidade brasileira.
A curadora exemplifica com o que ocorreu na Vila Planalto: Lúcio escolhe escutar a população, recua e aceita o processo de autoconstrução que se desencadeou naquela zona de Brasília. Para Ana Vaz Milheiro, cai por terra “a ideia de alguém que estava muito longe do povo e das necessidades das pessoas mais carentes”. E, acrescenta, o arquiteto “era muito atento aos problemas do Brasil”. Perante a vastidão de documentos tornados disponíveis, espera a curadora, o visitante “poderá construir a sua própria narrativa”.
Tendo passado por Portugal em 1926, 1948, 1952-1953 e 1961, Lúcio Costa incorporou a experiência portuguesa no seu pensamento. Nuno Sampaio, diretor-executivo da Casa da Arquitetura, considera-o “uma pessoa muito à frente do seu próprio tempo”. A ponto, segundo ele, de ter conseguido formular duas ideias sobre a arquitetura brasileira: uma patrimonial - fortemente devedora das suas deslocações a Portugal - e outra moderna.
Lúcio Costa deslocou-se apenas uma vez a Brasília durante a construção e não esteve presente na inauguração da cidade. Ainda assim, deixou marcas duradouras e de alcance global. Em tal medida que, sem o seu contributo, se torna impossível explicar a arquitetura internacional em grande parte do século XX - aí terá residido a grande arte de um arquiteto singular.
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