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Portugal e a UE: perdas económicas por fenómenos climáticos extremos (1980-2024)

Mulher em roupa casual junto a videiras e documentos, com estrada alagada e turbinas eólicas ao fundo.

As últimas décadas têm trazido a Portugal episódios repetidos de instabilidade: chuvas persistentes durante semanas, incêndios de dimensão histórica e rajadas de vento que deixaram danos em várias zonas do país. Estes fenómenos climáticos traduzem-se em dificuldades para as populações e em impactos claros na economia. Ainda assim, este cenário não é exclusivo do território nacional - outros países da União Europeia (UE) também têm acumulado prejuízos significativos nos últimos anos.

Perdas económicas na UE (1980-2024)

De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, entre 1980 e 2024, a UE contabilizou aproximadamente €822 mil milhões em perdas económicas associadas a fenómenos climáticos extremos. Do total, 47% dizem respeito a estragos provocados por cheias, 27% a ocorrências meteorológicas (como chuva e vento), 18% a ondas de calor e 8% a secas, incêndios, ondas de frio e geadas.

Entre os sectores mais afetados pelos eventos climáticos extremos estão a agricultura e o turismo

Países mais afetados e posição de Portugal

O maior prejuízo em termos absolutos, no período em análise, foi registado na Alemanha, com quase €187 mil milhões. Seguem-se a Itália (€145.225 milhões), a França (€138.104 milhões) e a Espanha (€119.577 milhões). No entanto, quando o indicador passa a considerar a dimensão do território, o retrato altera-se: países de menor área, como a Eslovénia (€911,556 por km2), a Bélgica (€600,130 por km2) e a Suíça (€550,999 por km2), surgem entre os mais expostos.

Em contraste, houve territórios onde os danos económicos ficaram bastante aquém. No final da lista, olhando para os valores totais, estão o Liechtenstein (€22 milhões), a Islândia (€27 milhões) e Malta (€88 milhões). Tendo também em conta a área territorial, a Islândia destaca-se por registar apenas €267 de danos por km2.

No caso português, as perdas totais no período ascenderam a €17.653 milhões, colocando Portugal na 13ª posição a nível continental. Quando a área do território entra no cálculo, o país desce uma posição na classificação, com uma perda de €191,412 por km2. Estes números, contudo, não incluem o incêndio histórico em Arganil no último ano nem as chuvas intensas que ocorreram no início de 2026.

Agricultura e turismo

Alguns sectores económicos sentem de forma mais intensa a repetição de eventos climáticos extremos. Edson Severnini, professor de economia no Boston College e na Nova SBE, identifica a agricultura e o turismo como áreas particularmente vulneráveis - e ambas são centrais para o desenvolvimento económico em Portugal.

Na agricultura, Severnini chama a atenção para a viticultura: perante alterações de temperatura, cheias e ventos fortes, “pode haver uma realocação dentro do país de onde se produzem as uvas”, uma dinâmica que pode igualmente surgir noutras culturas. “Outros países já têm notado essa mudança”, assinala. “Na França, na região de Bordeaux, há regiões que não estão a produzir as uvas com qualidade suficiente para manter a qualidade do vinho.”

No turismo, o professor considera que as alterações climáticas podem trazer “pontos positivos e negativos”. Por um lado, “Às vezes, ondas de calor levam as pessoas a irem mais à praia”. Por outro, “no interior do país isso torna-se um problema gigantesco”, uma vez que o aumento das temperaturas pode reduzir a atractividade turística dessas zonas. Segundo o IPMA, citado pela SIC Notícias, o verão de 2025 foi o mais quente desde 1931, e a temperatura mais elevada foi registada em Mora, no Alentejo: 46,6°C.

Eletricidade, ar condicionado e energia renovável

Para lá dos impactos directos, a actividade económica pode sofrer por via de “efeitos indiretos”, já que ondas de calor ou inundações podem afectar a saúde e o bem-estar de quem trabalha. “Se as pessoas ficam doentes com mais frequência, podemos ter maior absenteísmo no mercado de trabalho”, alerta o professor do Boston College. “E mesmo se forem ao trabalho, [o fenómeno] pode gerar reduções de produtividade”.

Para limitar os efeitos das ondas de calor em casas e escritórios, Edson Severnini aponta o ar condicionado como uma opção - muito comum nos Estados Unidos, mas com uma presença menor na Europa. Contudo, a generalização destes equipamentos implica também maior necessidade de oferta eléctrica.

A nível europeu, tem havido investimento em energias renováveis e, segundo um levantamento do Eurostat, 47,5% da electricidade do continente foi produzida de forma sustentável em 2025. A fonte mais utilizada foi a eólica, responsável por 37,5% da produção renovável, seguida da solar (27,5%) e da hidroeléctrica (25,9%). Também houve recurso a combustíveis renováveis (8,5%) e a outras fontes de energia (0,5%).

Portugal surge entre os países com melhor desempenho na produção sustentável de electricidade. No último ano, cerca de 83% da electricidade nacional teve origem renovável, com particular destaque para a hidroeléctrica e a eólica. O país fica apenas atrás de dois: Dinamarca (92,4%) e Áustria (83,1%). “Na eletricidade, temo-nos saído bastante bem em termos do recurso à energia renovável”, avaliou Tiago Domingos, professor do Instituto Superior Técnico. “Já tínhamos uma componente grande de hidroeletricidade, depois tivemos a expansão do eólico, e, agora, estamos a ter uma expansão grande do fotovoltaico.” O académico sublinhou ainda as “boas condições” do país para produzir energia solar.

Intermitência e eficiência energética

Apesar deste progresso, Tiago Domingos é prudente quanto à capacidade de a Europa vir a satisfazer as suas necessidades eléctricas apenas com fontes sustentáveis num horizonte próximo. Um dos obstáculos é o “problema da intermitência”: a produção varia consoante a fonte e a época do ano. A energia solar, por exemplo, tende a produzir mais no verão, o que pode traduzir-se numa oferta inferior durante o inverno.

Ainda assim, há formas de mitigar este desafio, incluindo novas tecnologias, redes de distribuição europeias mais robustas, combinação de diferentes fontes e gestão da procura - nomeadamente através de empresas disponíveis para reduzir o consumo em períodos de maior escassez.

Estas medidas, porém, devem ser acompanhadas por opções de “eficiência energética”, defendeu Domingos. Interrogado sobre a necessidade de aumentar a oferta de electricidade num contexto de temperaturas mais elevadas, o professor do Técnico reforçou que “a transição não se faz só através da alteração da fonte de energia. Faz-se precisando de menos energia para a mesma função”. Em contexto doméstico e nos locais de trabalho, destacou que melhores práticas de construção e de isolamento térmico permitem enfrentar melhor as mudanças climáticas, mantendo temperaturas mais estáveis no inverno e no verão e reduzindo a dependência de aquecedores e ares condicionados. Ainda assim, Domingos ressalva que “as nossas capacidades de produção de eletricidade vão ter de aumentar muito”.

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