“Estamos, em suma, a ter menos incêndios, mas cada vez mais devastadores.” A leitura é de João Lé, administrador executivo da The Navigator Company, e serve de ponto de partida para o encontro “Incêndios florestais: O fogo está a mudar – e nós? Ciência, território e gestão na construção de novas paisagens”, marcado para 21 de maio, na Figueira da Foz. A sessão, organizada pela empresa, junta investigadores, especialistas, decisores públicos e profissionais do sector florestal.
Incêndios florestais: da rotina ao fenómeno extremo
Na perspetiva de João Lé, Portugal entrou num novo ciclo de incêndios após o que aconteceu em Pedrógão Grande, em 2017. Esse episódio foi o primeiro fogo na Europa reconhecido formalmente como sendo de sexta geração. “São fenómenos que libertam energia em quantidade suficiente para alterar as condições meteorológicas ao seu redor, gerando tempestades de fogo com as suas próprias nuvens convectivas, relâmpagos, ventos erráticos e novas ignições”, explica. Em cenários desta natureza, sublinha, “o ataque direto é ineficaz”, o que torna o combate substancialmente mais difícil.
O que mudou no território e porque arde com mais violência
A escalada do risco não se explica apenas pelo tipo de fogo: também resulta de décadas de mudança no mundo rural e da perda de práticas tradicionais de gestão do território. “O que antes era recolhido passou a acumular-se”, sintetiza, apontando três elementos-chave para o agravamento do problema em Portugal: o abandono da gestão rural e florestal, a falta de recursos humanos qualificados para o combate e a inexistência de políticas públicas consistentes e duradouras. “O desordenamento florestal, o abandono da propriedade rústica e a acumulação de combustível vegetal transformaram vastas áreas em autênticos barris de pólvora”, num quadro em que os verões são, cada vez mais, longos e quentes.
26,7%
é a percentagem da área florestal portuguesa que está sob gestão, fazendo de Portugal o segundo país da União Europeia com menor área florestal gerida
A este conjunto de fatores soma-se um risco adicional: o avanço urbano para zonas de floresta. Quando habitações e parques industriais se encostam às áreas florestais, cresce a probabilidade de ignição e de propagação, ao mesmo tempo que se complica a operacionalização do combate e se coloca maior pressão sobre a segurança das populações.
Entretanto, a redução de capacidade dos serviços florestais ao longo das últimas décadas aumentou a fragilidade do território. Para João Lé, uma das respostas passa por assumir a floresta como uma atividade económica que se sustenta no tempo: “Sem rentabilidade, ninguém terá interesse em investir nestes territórios.”
“O conhecimento técnico- científico é claro: o fogo não escolhe espécies, escolhe paisagens”, João Lé
O debate das espécies e a necessidade de uma abordagem mais técnica
Segundo o administrador executivo, a discussão pública continua demasiado centrada nas espécies, o que tende a afastar a atenção de questões estruturais ligadas à gestão do território. Defende que o comportamento dos grandes incêndios depende sobretudo do modo como a floresta é gerida, da continuidade do combustível vegetal e das condições meteorológicas.
Embora o eucalipto continue frequentemente no centro do debate, refere que os números apontam noutra direção: matos, pastagens e pinhal bravo representam, em média, 51% da área ardida nas últimas três décadas, enquanto o eucalipto gerido corresponde a cerca de 1,7%. Daí a insistência: a discussão, diz, “deve ser mais técnica e menos emocional”.
Prevenção: do financiamento ao trabalho permanente no terreno
Para João Lé, a prevenção continua a não ter o peso devido nas políticas florestais, em parte porque o financiamento público favorece, acima de tudo, os meios de combate e a reparação dos prejuízos. Apesar de terem sido anunciados sucessivos planos e estratégias, considera que a execução no terreno permanece limitada, com apoios tardios, intermitentes e pouco alinhados com a realidade da floresta. “A dimensão e a frequência dos incêndios em Portugal exigem mais do que reforçar o combate: impõem uma mudança de paradigma na prevenção”, defende.
Entre as prioridades, destaca a profissionalização de uma força nacional de sapadores florestais, com equipas permanentes a intervir ao longo de todo o ano - em especial no inverno - através da limpeza de mato, da gestão de combustível e da criação de zonas de contenção.
O responsável considera igualmente urgente rever a estrutura de comando e coordenação do combate e avançar com mudanças na propriedade rural, enfrentando entraves como a fragmentação dos terrenos, as heranças indivisas e a inexistência de cadastro. A tecnologia pode, também, ter um papel relevante, com a utilização de drones, robôs florestais e sistemas inteligentes de vigilância. Mais do que produzir novos planos, sustenta, é decisivo concretizar no terreno medidas já previstas no Plano Nacional de Gestão Integrada dos Fogos Rurais.
Tempestade Kristin: um contexto agravado na região Centro
O encontro acontece num momento especialmente exigente, marcado pelos efeitos da tempestade Kristin nas áreas florestais do Centro. Entre os principais riscos identificados contam-se o aumento da carga de combustível por via do material lenhoso derrubado, a maior vulnerabilidade das árvores remanescentes e as dificuldades associadas à limpeza e à recuperação dos territórios afetados.
Incêndios Florestais: O fogo está a mudar – e nós?
O que é?
O encontro, promovido pela The Navigator Company, vai juntar investigadores, especialistas e profissionais do sector florestal para discutir o comportamento dos incêndios e os desafios atuais do território, num exercício de reflexão sobre prevenção, combate e adaptação a fenómenos extremos. Em cima da mesa estarão temas como o ordenamento da paisagem, a fragmentação da propriedade, a recuperação de áreas atingidas por eventos extremos e o contributo da inteligência artificial para prever o comportamento do fogo. A relação entre espécies florestais, ausência de gestão e propagação também estará no centro da conversa.
Quando, onde e a que horas?
A iniciativa realiza-se no dia 21 de maio, quinta-feira, entre as 09h15 e as 17h00, no CAE – Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz.
Quem vai participar?
- Pedro Santana Lopes, presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz
- João Lé, administrador executivo da The Navigator Company
- José Ribau Esteves, presidente da CCDR Centro
- José Miguel Cardoso Pereira, do ISA
- Nuno Guiomar, da Universidade de Évora
- Carlos da Câmara, do IDL da Universidade de Lisboa
- João Joanaz de Melo, da NOVA FCT
- Sérgio Gomes, da AFOCELCA
- João Melo Bandeira, da The Navigator Company
- Paulo Mateus, da AGIF
- Akli Benali, do ISA
- Paulo Fernandes, líder da Estrutura de Missão para zonas afetadas pela depressão Kristin
- Pedro Pimpão dos Santos, presidente da Câmara Municipal de Pombal
- Carlos Lobo, da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
- António Sousa Macedo, da Biond
- Sérgio Morgado, vice-presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere
- Marta Casimiro, RAIZ
- Paulo Santos, coordenador do Clube Produtores Florestais Navigator
- António Redondo, CEO da The Navigator Company
- Luís Neves, ministro da Administração Interna
Porque é que este tema é central?
Nos últimos anos, uma nova geração de incêndios tem causado danos catastróficos e trouxe novos desafios à floresta portuguesa. Mais extremos e menos previsíveis, estes fogos obrigam a repensar a forma como o território é gerido, protegido e preparado.
Onde posso assistir?
A participação requer inscrição e está dependente da lotação do espaço. Mais informações através do e-mail: [email protected].
Este projeto é apoiado por patrocinadores, sendo todo o conteúdo criado, editado e produzido pelo Expresso (ver Código de Conduta), sem interferência externa.
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