O VII Congresso dos Enfermeiros, a decorrer entre 14 e 16 de maio, em Gondomar, arrancou esta sexta‑feira com uma intervenção marcante do bastonário, Luís Filipe Barreira, que voltou a colocar a enfermagem no centro da discussão sobre o futuro da saúde em Portugal. Perante um auditório com cerca de sete mil enfermeiros e mais de mil estudantes, o responsável defendeu que a profissão está “mais consciente da sua força” e pronta para pesar nas escolhas de um sistema sob pressão do envelhecimento, do aumento da doença crónica e da falta de profissionais.
Ao longo da abertura, ganharam destaque a valorização económica, a autonomia clínica e a proposta de garantir um enfermeiro de família a todos os utentes - apresentada como uma peça determinante para reorganizar cuidados, cortar custos evitáveis e reforçar a eficiência do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
A sessão contou também com a presença do Primeiro‑Ministro, que recebeu a medalha de ouro da Ordem e sinalizou disponibilidade do Governo para aprofundar o diálogo com os profissionais. Luís Montenegro sustentou que a valorização das carreiras “não é um favor, é interesse público porque precisamos dos enfermeiros portugueses a trabalhar em Portugal”, recordando que o primeiro acordo alcançado pelo Executivo no sector da saúde foi, precisamente, com os enfermeiros.
O chefe do Governo salientou ainda que, desde o início da legislatura, entraram mais 2.126 enfermeiros no SNS, e enumerou a evolução de medidas como a integração de enfermeiros na gestão do INEM, o reforço do papel na vigilância da gravidez de baixo risco e a integração das escolas de enfermagem nas universidades.
Sem avançar com grandes anúncios, Montenegro mostrou convergência com uma maior presença dos enfermeiros nos cuidados de saúde primários, referindo que as consultas de enfermagem aumentaram 21% no primeiro trimestre de 2026 - um indicador que, afirmou, traduz a confiança dos utentes.
No conjunto, a abertura ficou marcada por mobilização profissional, exigência técnica e expectativa política. A Ordem insiste que a sustentabilidade do sistema exige uma enfermagem reconhecida e plenamente envolvida nas decisões. Do lado do Governo, a mensagem procurou sublinhar abertura e continuidade num sector onde a estabilidade tem sido rara e onde as reformas pedem consenso e execução prolongada.
Pressão sobre o SNS reforça urgência de reter talento em enfermagem
A falta de enfermeiros regressou ao centro do debate político e económico num painel que juntou decisores e especialistas para discutir o futuro desta força de trabalho na saúde. Ricardo Rosado, da Administração Central do Serviço de Saúde (ACSS), apontou que o país enfrenta “uma transição demográfica e epidemiológica que não pode ser dissociada das políticas de retenção”, lembrando que Portugal continua entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) com um dos rácios de enfermeiros mais baixos.
O responsável alertou também para a “fragmentação institucional” que trava um planeamento eficaz e defendeu que este “não pode continuar a ser encarado apenas como um exercício técnico, mas como uma obrigação de política pública”.
A enfermeira e deputada Cláudia Estevão reforçou que a escassez “não é inevitável nem pode ser tratada como fatalidade”, argumentando que são necessárias políticas que assegurem condições reais de retenção ao longo de toda a carreira. Chamou ainda a atenção para a saída persistente de talento para o estrangeiro e criticou o desfasamento entre o que se define e o que se concretiza: “Somos exímios a fazer planos, o problema é a execução”.
Também a deputada Isabel Fernandes sublinhou que os enfermeiros têm conseguido “colmatar faltas e fazer milagres”, o que acaba por esconder a verdadeira dimensão do problema. Para a parlamentar, o reconhecimento profissional e a autonomia são determinantes para reter: “Se as pessoas não se sentem valorizadas, porque quererão ficar?”.
Num sector que representa uma parcela cada vez maior da despesa pública, os intervenientes convergiram numa ideia: sem uma estratégia integrada de planeamento e retenção, Portugal arrisca um sistema mais caro, mais desigual e menos capaz de responder às necessidades futuras.
IA deve trazer eficiência com ética
No segundo debate da tarde, os participantes olharam para a introdução da inteligência artificial (IA) na saúde como uma oportunidade estratégica, mas condicionada a capacitação, ética e validação científica. Luís Goes Pinheiro defendeu que a adopção tecnológica exige espírito crítico e domínio técnico por parte dos profissionais: “Não podem ser apenas utilizadores acríticos. É preciso compreensão destes algoritmos”, alertou o presidente do Conselho de Administração da SPMS (Serviços Partilhados do Ministério da Saúde). Segundo o responsável, a IA tenderá a reforçar - e não a substituir - o papel dos enfermeiros na relação terapêutica.
Sofia Nunes, da Universidade Católica do Porto, trouxe para o debate a dimensão ética associada à IA. A docente recordou que a tecnologia deve promover autonomia e justiça, prevenindo enviesamentos e dependências. "A tecnologia não substitui as relações”, afirmou, defendendo que a supervisão humana e a literacia digital dos profissionais são indispensáveis para assegurar segurança e equidade no acesso aos cuidados.
Pedro Parreira apresentou a vertente operacional e económica da transformação digital, destacando o potencial da telemonitorização para baixar custos e melhorar resultados clínicos. "Os dados por si, se não forem trabalhados, não produzem cuidados”, afirmou o professor da Nursing School de Coimbra, defendendo modelos híbridos capazes de chegar mais cedo aos doentes e evitar descompensações, sobretudo em patologias crónicas.
Em síntese, os oradores sustentaram que a IA pode acelerar a criação de valor no SNS, desde que seja acompanhada por investimento em formação, qualidade dos dados e liderança estratégica. A tecnologia não substitui o cuidado, mas pode ampliá‑lo quando aplicada com critério.
Outras conclusões:
- O planeamento de recursos humanos implica uma mudança estrutural, e não apenas correcções pontuais. Como resumiu Ricardo Rosado, "sem dados robustos e modelos articulados, é muito pouco provável que consigamos planear com eficiência”.
- A retenção exige condições efectivas ao longo da carreira e não se resolve apenas com medidas de entrada no sistema. Cláudia Estevão salientou que "não podemos continuar a encurtar integrações porque precisamos rapidamente de mais mãos”.
- A autonomia profissional tem uma dimensão económica e não apenas corporativa, com efeitos directos na eficiência do SNS. Isabel Fernandes lembrou que "a discussão dos atos próprios tem de ser aberta a todas as profissões de saúde”, defendendo modelos colaborativos que maximizem competências e reduzam desperdício de recursos.
- A transformação digital pede envolvimento activo dos profissionais e não mera adaptação passiva. Como assinalou Luís Goes Pinheiro, "é preciso que os enfermeiros entrem nela, e que tirem partido das ferramentas”, porque a inovação só cria valor quando é analisada de forma crítica por quem a utiliza.
- A literacia digital interna passou a ser um requisito estrutural nas organizações de saúde, e não um extra. Sofia Nunes alertou que "eles [os profissionais] têm de saber os dados que estão em determinado sistema”, defendendo que a capacitação técnica é condição para segurança, equidade e qualidade.
- A tecnologia só gera ganhos económicos quando é integrada em modelos de cuidado consistentes, com métricas e evidência. Pedro Parreira lembrou que "se não monitorizarmos estas variáveis, não vamos ter resultados de qualidade”, uma vez que a eficiência depende de processos e não apenas de dispositivos.
Este projecto é apoiado por patrocinadores, sendo todo o conteúdo criado, editado e produzido pelo Expresso (ver Código de Conduta), sem interferência externa.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário