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Mélenchon entra na corrida às presidenciais francesas de 2027

Homem a discursar em púlpito em campanha eleitoral com público atento e cartazes na parede.

A confirmação formal de Jean-Luc Mélenchon como candidato às presidenciais francesas de 2027 acrescenta mais um elemento - desta vez vindo da esquerda radical - a um tabuleiro eleitoral que continua por fechar. Ainda assim, a liderança nas sondagens permanece do lado da extrema-direita, que poderá apresentar Marine Le Pen (se conseguir contornar a inabilitação judicial, decisão aguardada até ao verão) ou Jordan Bardella. Atrás surgem o conservador Bruno Retailleau, eventuais nomes do centro-direita como Gabriel Attal e Édouard Philippe, e figuras da esquerda moderada, entre as quais Raphaël Glucksmann e até o antigo Presidente François Hollande.

“Estamos ameaçados por uma guerra generalizada, estamos ameaçados por uma mudança climática dramática e, além disso, temos uma crise económica e social que se aproxima.” Foi com este registo que Mélenchon, líder da França Insubmissa, comunicou a intenção de chegar ao Eliseu. Aos 74 anos, o veterano avança pela quarta vez, depois de em 2022 ter terminado em terceiro, com 22% dos votos. Naquela ocasião, deixou um recado seco aos seus aliados - “Façam melhor” -, abrindo espaço à hipótese de outra figura do seu partido assumir a candidatura.

Desta vez, porém, o caminho parece mais íngreme do que há cinco anos. As sondagens pintam Mélenchon como uma das personalidades políticas com maior nível de rejeição: 72% dos franceses dizem ter uma opinião desfavorável sobre ele, de acordo com um inquérito do instituto Odoxa para o canal Public Sénat.

O líder da esquerda radical tem-se tornado, cada vez mais, um foco de clivagem e de polémica. Em fevereiro, aparentou enganar-se de propósito no nome de Glucksmann, eurodeputado francês de centro-esquerda e de origem judaica, e ironizou com a forma como se pronunciam outros apelidos igualmente de origem judaica. Glucksmann afirmou ao canal France Info que Mélenchon se transformou no “Jean-Marie Le Pen dos nossos tempos” - numa alusão ao pai de Marine Le Pen, conhecido por defender a xenofobia contra judeus e por negar o Holocausto - e acusou-o de “brincar com os piores códigos da extrema-direita francesa e do antissemitismo”.

Philippe Moreau Chevrolet, especialista em comunicação política no Instituto de Estudos Políticos de Paris, diz ao Expresso que Mélenchon, “um dos primeiros candidatos declarados da esquerda, tem como objetivo angariar o voto útil”. Na entrevista ao canal TF1, no domingo, o candidato tentou “recentrar a sua imagem”, aparecendo “conciliador” e “moderado nas suas respostas”, acrescenta o perito. “Tratou-se, na verdade, de uma manobra de sedução destinada a recuperar a sua imagem pessoal, que está bastante deteriorada,” sublinha Moreau Chevrolet.

Extrema-direita: a incógnita Le Pen

Em 2017, concorreram onze candidatos ao Eliseu. Em 2022, foram doze, mas a fotografia da segunda volta repetiu-se: Emmanuel Macron contra Marine Le Pen, com vitória do primeiro. Os estudos mais recentes sugerem que 2027 poderá voltar a ter um desfecho semelhante, com a extrema-direita - encabeçada por Le Pen ou pelo seu protegido Bardella - a destacar-se de forma nítida.

Le Pen seria, à partida, o nome natural deste campo político e prepara-se para tentar pela quarta vez chegar ao Eliseu. No entanto, os problemas judiciais podem barrar-lhe a candidatura. Em primeira instância, foi condenada a cinco anos de inelegibilidade e quatro de prisão, no âmbito do caso dos assistentes parlamentares, estando o recurso marcado para 7 de julho. Se a condenação for confirmada, Bardella, atual presidente do Reagrupamento Nacional (RN, sucessor da Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen), será o candidato presidencial do partido. Para já, reúne 34% das intenções de voto, segundo o instituto Toluna Harris.

O politólogo Pascal Perrineau, especialista em extrema-direita, considera que a presença deste campo na segunda volta é “quase inevitável”. O RN, que descreve como “novo partido dominante da Quinta República”, foi o mais votado tanto nas legislativas como nas europeias de 2024. “Não devem cantar vitória tão cedo, porque continua a ser um partido à margem do sistema, que tem de provar a sua capacidade de governar”, avisa. Perrineau acrescenta ainda que Bardella é “demasiado jovem” e segue uma orientação “mais liberal”, distinta da linha “social” de Marine Le Pen.

O cenário de grande instabilidade geopolítica - e o impacto que daí pode resultar no preço dos combustíveis - poderá “ser fator determinante na escolha dos franceses”. Essa dinâmica pode, ao mesmo tempo, constituir uma das “limitações” do RN, que é próximo do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump.

Na direita tradicional, o nome em avanço é Bruno Retailleau, presidente do partido conservador Os Republicanos. O antigo ministro do Interior anunciou a candidatura em fevereiro, afirmando que será o “Presidente da ordem, da justiça e do orgulho francês”.

Centro: a herança do macronismo

Emmanuel Macron estará, nessa altura, no fim do limite constitucional de dois mandatos consecutivos de cinco anos, o que abre espaço à escolha de um sucessor. No centro liberal, dois ex-primeiros-ministros deram sinais de querer entrar na corrida. Gabriel Attal, que ocupou o cargo por pouco tempo em 2024, ainda não oficializou a candidatura, mas declarou numa entrevista que fez capa do semanário “Le Point”: “ Acho que sei como se deve presidir a França”.

Já Édouard Philippe, chefe do Governo entre 2017 e 2020 e líder do partido centrista Horizontes, formalizou a candidatura em setembro de 2024. Na altura, colocou como condição a reeleição para a presidência da Câmara de Le Havre, eleição que venceu com mais de 47% dos votos.

O investigador Bruno Cautrès, do Instituto de Estudos Políticos de Paris e especialista em comportamentos eleitorais, salienta que a impossibilidade de Macron voltar a concorrer “liberta espaço para a esquerda e para a direita”. E, com a saída do atual Presidente, regressa a “polarização” entre os dois blocos. “É aí que reside toda a dificuldade de um candidato como Attal, que pretende revitalizar o macronismo de uma forma diferente e continuar a encarnar uma aliança de centro, centro-direita e, talvez, centro-esquerda,” conclui.

Esquerda volta a dividir-se depois de um parêntesis

No verão de 2024, a esquerda apresentou-se unida sob a Nova Frente Popular (NFP), tornando-se a principal força na Assembleia Nacional ao juntar insubmissos (LFI), socialistas, ecologistas e comunistas. Mas a coligação não se manteve. As eleições municipais de março marcaram o fim dessa união, com o Partido Socialista a rejeitar qualquer entendimento nacional com a LFI para a segunda volta, como ficou patente em cidades como Paris e Marselha.

Dentro do campo moderado, algumas figuras - como a dirigente ecologista Marine Tondelier ou os ex-LFI François Ruffin e Clémentine Autain - não acompanham a linha socialista e mostram-se disponíveis para participar em primárias com vista a escolher um candidato único de esquerda, que incluiria a LFI. Pelo contrário, outras personalidades com boa posição, como Glucksmann ou François Hollande (Presidente entre 2012 e 2017), dizem-se prontas para avançar nas presidenciais, mas recusam qualquer acordo com a LFI. Depois do anúncio de Mélenchon, a possibilidade de surgir um candidato único à esquerda parece, assim, mais distante.

Para Perrineau, a NFP não foi mais do que “um parêntesis” entre “uma esquerda que se diz revolucionária e uma esquerda que se diz reformista”. Na leitura do especialista, “estas duas forças de esquerda não concordam praticamente em nada, não concordam em relação à política europeia, não concordam em relação à política internacional e não concordam quanto ao grau de rutura com a lógica do mercado”.

O politólogo antecipa que “a campanha vai ser muito dura”. E sustenta que, para os antigos partidos de governo - tanto à esquerda como no centro-direita -, “chegará um momento em que serão obrigados a restringir a concorrência entre eles”, recorrendo a “desistências ou acordos”.

Moreau Chevrolet, também politólogo, considera que a eleição será “verdadeiramente emocionante”. Na sua perspetiva, os franceses serão confrontados com “alternativas populistas e democratas moderados”. Vê como “provável” uma segunda volta entre o RN e a LFI. “Existe o risco de polarização muito forte, em que o centro seja esmagado entre os dois extremos populistas; na verdade, a polarização é a estratégia dos populistas.” E defende ainda a necessidade de uma “aliança dos moderados”, sob pena de “correm o risco de desaparecer”.

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