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PCP, Carlos Brito e a dissidência

Homem idoso com lenço vermelho e documentos na mão, grupo de pessoas atrás em edifício com cartazes políticos.

Camaradagem e pertença no PCP

Luiz Pacheco contou, em mais do que uma entrevista, que decidiu filiar-se no PCP depois de ter ido ao funeral de Ary dos Santos. O que o puxou foi a inveja daquela união, daquele sentimento de fraternidade e entreajuda. Naturalmente, a ele não lhe foi reservado tratamento semelhante: ter o cartão não é, por si só, garantia de integrar a tribo.*

No meu caso, quase posso afirmar que cresci dentro do PCP. Em casa, a militância era regra: grande parte da família era muito activa. Entrei na JCP com 12 ou 13 anos, ainda num período marcado pela politização que se seguiu à Revolução. Escrevi sobre esse vínculo afectivo - que continua a alimentar entusiasmos e irritações até hoje - no texto “Sarja e Liberdade”. Conheço bem o lado confortável e o lado desconfortável dessa camaradagem: as alegrias, a força que empresta e o preço que se paga pela carga emocional que transporta. É simples: quanto mais o colectivo nos sustenta, mais nos cobra.

Daí que faça sentido arrefecer um pouco a paixão, para que o indivíduo não se dissolva no colectivo - tal como também precisamos de travões para o individualismo que, sem pertença e sem dever, nos empurra para um egoísmo estéril.

A saída do Partido e a relação com a dissidência

Afastei-me do Partido Comunista ainda novo, por volta dos 20 anos. Houve motivos políticos: a distância crescente em relação ao modelo soviético e a percepção de bloqueios internos à democracia. Mas houve, sem qualquer ressentimento, uma razão mais funda, que chocava com a personalidade que eu estava a formar: a forma passional como se lida com a dissidência.

Dentro, a regra é a camaradagem. Fora, para quem sai - quase sempre acusado de fraqueza, oportunismo, falta de princípios ou cobardia -, costuma ficar reservado o desprezo que acompanha a ideia de traição; uma ingratidão que parece não terminar. O partido não deve nada; tudo lhe é devido.

Não falo de mim, que ganhei disciplina sem ter de entregar muito mais do que o tempo sobrante que a juventude permite. Falo do que vi acontecer à minha volta, com pessoas que deram a vida inteira à causa e ao partido.

Carlos Brito: percurso, sacrifícios e ruptura

Aos 17 anos, Carlos Brito juntou-se ao MUD Juvenil e, poucos anos depois, já estava nas fileiras do PCP. Com 20, foi preso pela PIDE pela primeira vez. Seria detido mais duas vezes, somando um total de oito anos de cadeia. Foi sujeito à tortura do sono, ao isolamento e a espancamentos.

Em 1957, escapou do Aljube, deslizando por um algeroz e correndo depois pelos telhados de Lisboa. Já em 1966, na clandestinidade, assumiu responsabilidades em várias acções de propaganda contra o regime. No ano seguinte, 1967, chegou à direcção do partido e teve um papel determinante na mobilização do PCP para o 25 de Abril.

Foi eleito deputado à Assembleia Constituinte e cumpriu mandato como deputado entre 1976 e 1991, liderando a bancada parlamentar durante 15 anos. Em 1980, foi candidato à Presidência da República (preparando a desistência para Ramalho Eanes) e dirigiu o “Avante!” de 1992 a 1998. Mais tarde, após divergências claras, acabou suspenso do partido em 2002. Não regressou.

Quem quiser perceber o lugar central que ocupou pode ler Álvaro Cunhal - Sete Fôlegos de um Combatente, escrito por Carlos Brito. Não é um livro de vingança nem uma tentativa de reescrever a história. Não é um arrependimento, mas também não é uma estátua ao líder. É um texto lúcido e exigente, útil para compreender uma parte do nosso passado e a centralidade de Brito ao longo de quase meio século de militância no PCP. Talvez por isso não tenha sido transformado num ex-comunista de serviço: não entregava à direita o guião simples e pré-fabricado que ela tantas vezes procura.

O comunicado do PCP e o preço de não voltar

No dia em que morreu, o PCP enviou uma nota às redacções cujo título é, por si só, revelador: “A pedido de vários Órgãos de Comunicação Social, sobre o falecimento de Carlos Brito.” Em letra grande, num tom quase pueril, sublinha-se que, sem a solicitação da imprensa, o silêncio seria a escolha.

Depois, para sintetizar décadas de militância e responsabilidades pesadas, surge apenas uma frase: “Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar."

Um homem que passou oito anos nas prisões do regime, que fugiu do Aljube pelos telhados, que coordenou a organização clandestina do PCP em Lisboa no próprio 25 de Abril, que foi durante décadas braço direito de Cunhal, que chefiou a bancada parlamentar por quinze anos e que escreveu sobre o líder histórico com seriedade e uma isenção pouco comum, merece mais do que uma frase antecedida por um aviso de que foi “a pedido”. Quem redigiu aquela nota não terá abdicado de um décimo do que Carlos Brito abdicou. E, assim, não se respeita a história do PCP - que também inclui os que partiram.

Depois de deixar de ser militante, Brito não renegou os seus valores. Até ao fim foi democrata, homem de esquerda, combatente e antifascista; crítico do capitalismo selvagem e defensor dos direitos do povo e dos trabalhadores. Deixou o PCP, mas não deixou de ser quem era. Seguiu outra rota sem trocar de lado na luta.

Mesmo que tivesse feito esse caminho - como no caso de Zita Seabra, para pegar num exemplo extremo - a sua biografia não desapareceria. Mas, aqui, nem isso serve de desculpa para a frieza do comunicado. Quem sai, não volta e não aceita o silêncio passa a ser tratado como traidor.

A política não vive apenas de lealdade; vive também de gratidão. E, se abandonar a tribo é sempre traição, então a tribo nunca nos conduzirá a liberdade, autodeterminação e realização pessoal. Se a dissidência é crime, a militância não liberta.

Depois de algumas críticas, que chamaram à atenção para a homenagem que o PCP fez ao escritor Luiz Pacheco na hora da sua morte, esclareço que, neste texto, não nego essa homenagem. Ela não teve a dimensão e a emotividade da acontecida com Ary dos Santos. Nem fazia nenhum sentido que tivesse. Não é aqui, obviamente, que reside a minha crítica ao PCP.

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