Do looksmaxxing ao pânico moral da blackpill
Andei a adiar um texto sobre looksmaxxing - essa prática autocentrada de “melhorar” o aspeto que, em certos casos, descamba para o extremo e já toca a mutilação. Vem, regra geral, de rapazes que importam ideias de comunidades online e que, na versão mais radical (o hardmaxxing), passam do esmagamento de ossos ao alongamento de membros. Pelo caminho, aparecem também escalas de beleza com um travo eugénico, que empurram qualquer dismorfia para fora de cena e recorrem à pseudociência como selo de legitimidade.
Isto foi, e em grande medida continua a ser, matéria de nicho. Só que a imprensa internacional está encantada com o fenómeno e instalou-se um pânico moral em torno dos rapazes e da blackpill - sim, agora a pílula é negra -, como se estivessem a ser moídos por uma economia de insegurança que alguém aprendeu a monetizar.
Nesse pacote entra quase sempre o mewing: a obsessão por “fazer” um queixo mais marcado através de exercícios com a língua no céu da boca e de gadgets de borracha para morder; uma banalidade de internet que, por reflexo, é apresentada como porta de entrada inevitável para discurso de extrema-direita. Isso é um exagero. Já se escreveu, aqui, sobre a ligação entre estes mundos - ligação que existe -, mas há muita coisa que se perde neste catastrofismo cheio de termos esquisitos. Clavicular, o rosto mais luminoso deste ecossistema, já apareceu no “60 Minutes” e, depois disso, já teve uma overdose.
Mewing, hardmaxxing e a “cultura de métricas”
A adolescência masculina - hoje esticada até aos vinte e poucos - sempre foi um período de ansiedade funda, inseguranças dramáticas e idiotices autodestrutivas ligadas ao aspeto e ao corpo em transformação, com efeitos no plano psicológico. Nada disto é novo.
O que parece novo é a forma: uma algoritmização da masculinidade, com verniz ornamental e performático, inserida num mundo em que a pedagogia do existir se aprende pelas redes sociais. O que é que o looksmaxxing acrescenta, afinal, às perturbações e aos sobressaltos próprios de ser jovem e tolo?
Convém explicar esta “obsessão masculina pela perfeição estética que atingiu o seu paroxismo digital”, articulada com uma linguagem incel e fatalista, e com uma hipermasculinidade de internet. Em torno dela, surgem práticas que levam adolescentes a recorrer a anabolizantes ou anfetaminas para manter percentagens de gordura baixas e ganhos de massa muscular - o starvemaxxing.
Tudo isto é administrado por uma infraestrutura simbólica: uma “cultura de métricas”, com uma suposta avaliação facial que funciona como máquina de expulsão, empurrando para fora quantidades de jovens através de uma espécie de governação algorítmica da genética masculina. O looksmaxxing, enquanto ideologia, atribui a cada um o seu “valor de mercado sexual”: um capital convertível em atração e, por extensão, em mulheres. É um programa de correção permanente. Há que ajustar a mandíbula, fabricar os hunter eyes.
Aqui não se trata simplesmente de vaidade. O que está em jogo é a moralização quantificada do rosto e do corpo, como se isso pudesse ser convertido em resultados no mundo - num mundo onde se é medido em termos de atração. Não é o rapaz que só quer “ser bonitinho”; é a pressão para fazer da beleza um requisito de competitividade, para “ter sucesso” no mercado do engate. É grave? É parvo? É apenas mais uma das muitas tretas que atormentam os rapazes e que talvez passe com a idade? Fica ao critério de cada um.
O sufixo -maxxing: de fóruns misóginos ao comentário político
A coisa pegou - e o termo ganhou tração lá fora. A Administração Trump gosta disto. Na guerra do Irão já usou, em meme, o lethalitymaxxing; há o homelandmaxxing para deportações; antes apareceu o tariffmaxxing; e o fantasma é o da Chinamaxxing. O maxxing tornou-se sufixo de uma gramática saída de fóruns misóginos, contaminando o comentário político e até o próprio aparelho de Estado.
E o contágio já saltou para outros domínios: para a economia, com moneymaxxing, ou para a produtividade, com AI-maxxing.
Vaidade, História e duplo standardmaxxing
"Basta um olhar de relance para a História para perceber que esta coisa de os homens se submeterem a atrocidades por causa da beleza não tem nada de inédito"
Basta, de facto, um olhar rápido para perceber que homens a submeterem-se a atrocidades por razões estéticas não é novidade - e sem algoritmo. Luís XIV, com saltos de 10 centímetros, perucas e pós, era um looksmaxxer de topo (sem recuarmos mais de 500 anos). E, na altura, ninguém chamou a isso “masculinidade tóxica”.
Pelo mesmo caminho passam os macaronis ingleses do século XVIII, com saltos, bochechas ruborizadas, taches de varíola e perucas empoadas; e os dândis que apertavam espartilhos ao ponto de quase desmaiarem só para obterem uma cintura fina. A lista podia continuar.
O looksmaxxing masculino não é sinal do fim dos tempos. E tende a ignorar um ponto básico: a vaidade continua a ser, ainda hoje, uma expectativa colocada sobre as mulheres desde o nascimento. Nem é preciso convocar a História - embora ela esteja cheia de exemplos, dos pés amarrados na China ao chumbo e mercúrio nos cosméticos, passando por corpetes e peças de roupa que foram autênticos instrumentos de tortura.
A assimetria moral salta à vista. Rapazes deprimidos a mastigar uma peça de borracha e a definhar em fóruns dão origem a papers académicos. Já o looksmaxxing feminino chama-se, muitas vezes, apenas “existir”. Aquilo a que se chama hardmaxxing quando são homens é o quotidiano normalizado que se exige às mulheres: cirurgias estéticas invasivas, procedimentos regulares dolorosos, depilações atrozes que quase ninguém questiona, uso diário de saltos altos que deforma a coluna - todo um conjunto de práticas dolorosas e lesivas tornadas invisíveis precisamente por serem femininas.
E não é só por “vaidade”. Faz-se porque há penalização quando não se faz: no trabalho e na avaliação de oportunidades. Para as mulheres - muito mais do que para os homens e o seu “olhar de predador” - a beleza não é apenas um tema de desejo; é gestão de risco social e laboral.
Os rapazes podem crescer e isto passar-lhes, ficando a manutenção reduzida a tomar banho, vestir uma camisa lavada e comer bem. A manutenção de uma mulher é muito, mas muito mais do que isso. Duplo standardmaxxing.
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