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Maya Wind diz que universidades israelitas pressionaram universidades portuguesas a desmobilizar protestos estudantis contra a guerra na Faixa de Gaza

Jovem com cachecol palestiniano discursa em protesto, rodeado por outros jovens com cartazes sem texto.

Maya Wind e as pressões sobre universidades portuguesas

A antropóloga e investigadora Maya Wind afirmou, em declarações à Lusa, que universidades e diversos académicos israelitas exerceram pressão sobre universidades portuguesas para fazerem recuar os protestos estudantis contra a guerra de Israel na Faixa de Gaza.

"Na sequência dos acampamentos [estudantis] e da ameaça sem precedentes a estas colaborações e à reputação internacional das universidades israelitas, os académicos israelitas, as instituições de ensino superior israelitas e o Estado israelita colaboraram para intervir diretamente e lançar uma ofensiva total e abertamente reconhecida neste domínio, o que incluiu a intervenção direta nos assuntos de outras universidades, incluindo aqui em Portugal", disse à Lusa Maya Wind.

A académica encontra-se em Portugal no âmbito de um ciclo de palestras promovido pela Universidade NOVA de Lisboa, centrado no escolasticídio e no ataque ao conhecimento na Palestina, e sublinhou que estas pressões foram colocadas em prática por diferentes vias.

Como se materializam as intervenções no meio universitário

"Vemos cartas enviadas aos conselhos académicos na Europa, vemos intervenção da embaixada israelita, incluindo aqui em Lisboa, a interferir nos assuntos universitários locais e a monitorizar as atividades do corpo docente e dos estudantes que se mobilizam, lecionam ou organizam eventos académicos sobre a Palestina", explicou.

Na sua perspetiva, este tipo de atuação - que classifica como uma forma de "contra-insurgência" por parte do Estado israelita e que, segundo disse, se observou "nos campus em Portugal" e também noutros países - "precisa de ser discutida". "Isto é uma guerra e as nossas universidades são locais-chave de luta", defendeu a autora, investigadora de pós-doutoramento na Universidade da Califórnia.

Protestos estudantis em Portugal e ligações académicas com Israel

Em Portugal, estudantes montaram acampamentos de protesto contra a guerra no enclave palestiniano na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e na Universidade do Porto. Em Coimbra, o protesto chegou a prolongar-se por mais de um mês, com o acampamento instalado junto à entrada da Faculdade de Letras.

No trabalho que desenvolve, Maya Wind estuda o envolvimento direto das universidades israelitas, no plano militar, nas estruturas de ocupação e de violência. A investigadora recordou ainda que, além da cumplicidade e do envolvimento direto destas instituições de ensino no "genocídio na Faixa de Gaza", as universidades europeias também têm responsabilidades, uma vez que mantêm laços académicos sólidos com universidades israelitas.

UE, "Horizon Europe" e a suspensão de colaborações

A antropóloga referiu que, mesmo antes de a União Europeia (UE) se posicionar quanto a uma eventual revisão do Acordo de Associação UE-Israel - em vigor desde junho de 2000 e que integra o "Horizon Europe", programa de investigação científica que envolve várias instituições académicas -, já existem universidades europeias a interromper programas e parcerias com universidades israelitas.

"No vosso país vizinho, Espanha, há dezenas de universidades que já cortaram relações. Universidades nos Países Baixos, na Bélgica, na Irlanda. Existem já muitas universidades nos Estados-membros da UE que cortaram todas as relações com universidades israelitas e cessaram a colaboração em projetos financiados pelo programa 'Horizon' que incluem universidades israelitas", continuou.

"Portanto, isto já está a acontecer, não é uma questão de tempo, é um facto. Sei que várias universidades em Portugal já estão a dar passos nessa direção", afirmou. Acrescentou que, no seu entender, a prioridade deveria ser a suspensão, pelos Estados-membros da UE, dos acordos comerciais com Telavive e do Acordo de Associação com Israel. "Já devia ter acontecido há muito tempo", concluiu.

Contexto da guerra na Faixa de Gaza

A guerra na Faixa de Gaza provocou mais de 72 mil mortos e cerca de 172 mil feridos, de acordo com o Ministério da Saúde do enclave, números considerados fiáveis pelas Nações Unidas. A ofensiva israelita no enclave - que também destruiu quase todas as infraestruturas do território e provocou a deslocação de centenas de milhares de pessoas - começou após o ataque do movimento islamita palestiniano Hamas no sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, que causou cerca de 1200 mortos e 251 reféns. Um acordo de cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025.

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