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Eleições locais no Reino Unido abalam o bipartidarismo e projetam Reform UK de Nigel Farage

Homem comemora vitória eleitoral junto a outras pessoas numa mesa de votação interior com gráfico no ecrã ao fundo.

O rombo vivido pelo Partido Trabalhista, as perdas do Partido Conservador, a vitória do populismo nacionalista e a afirmação do partido ecologista vieram abanar o bipartidarismo tradicional do Reino Unido. Para Isabel Estrada Carvalhais, docente de Ciência Política na Universidade do Minho, a combinação entre dificuldades económicas e um crescente "mal-estar com a diversidade cultural e étnica" tem criado terreno fértil para que o discurso de Nigel Farage ganhe expressão. A académica antevê ainda obstáculos relevantes no futuro do trabalhismo.

As eleições locais britânicas deixaram de ser apenas um teste a meio do mandato para o Governo de Keir Starmer e passaram a espelhar, de forma dura, a fragmentação política de um país cada vez mais afastado do modelo clássico de dois grandes partidos. O sufrágio acabou por gerar um dos piores desfechos de sempre para as duas forças tradicionais - Trabalhista e Conservadora - e o habitual mapa vermelho e azul passou a incluir novas cores, com partidos mais pequenos a aproveitarem o descontentamento dos eleitores e a pressionarem o equilíbrio habitual em Westminster.

O grande vencedor da noite eleitoral de dia 7 foi o Reform UK, liderado por Nigel Farage, a figura mais influente da campanha pelo Brexit, que, dez anos depois, regressa ao centro da política britânica para ocupar um espaço que, durante décadas, foi alternando entre trabalhistas e conservadores. Isabel Estrada Carvalhais descreve ao JN alguém "que não criou riqueza alguma para os ingleses, que apenas lhes apontou a porta para um processo que se tem revelado desastroso a todos os níveis, o Brexit; e que sempre viveu num universo social e económico que representa os antípodas dos problemas reais das classes trabalhadoras", atribuindo à "velha retórica nacionalista" de Farage um papel determinante "pelo fim de um sistema de governação que funcionava em torno de dois grandes partidos tradicionais".

Ao ultrapassar os conservadores pela direita, o nacionalismo populista de Farage alimentou-se da insatisfação generalizada perante "o aumento do custo de vida, a uma economia estagnada, a grandes dificuldades de acesso a habitação acessível e digna, e a uma crescente perceção de insegurança (mesmo não sendo corroborada por dados oficiais)", explica a docente, acrescentando que também pesa "uma crescente aversão à presença de imigrantes".

"Há uma espécie de mal-estar com a diversidade cultural e étnica que, em boa verdade, revela não apenas que as políticas públicas nem sempre foram capazes de atender aos desafios da integração, mas também que os traços nativistas, imperialistas, de superioridade branca colonial, nunca chegaram as ser expurgados da identidade britânica"

O crescimento do Reform UK - que saltou de dois lugares autárquicos para mais de 1400 - destacou-se sobretudo em zonas de perfil operário e em regiões que, em 2016, votaram de forma massiva pela saída da União Europeia. Em vários desses territórios, o Partido Trabalhista viu eleitores passarem para quem se apresentava como rosto da mudança e da rutura; já nos grandes centros urbanos, uma parte do eleitorado progressista optou pelos Verdes, que tiveram um dos melhores resultados em Londres e celebram vitória, à semelhança dos Liberais Democratas. "Nesse sentido, estamos perante uma mudança histórica e estamos perante uma óbvia fragmentação", sublinha a investigadora da Universidade do Minho.

Colapso trabalhista

A principal derrota foi a do Labour, que saiu destas eleições com perdas equivalentes ao número de mandatos municipais conquistados pelo Reform e que viu cair redutos históricos, como o País de Gales, onde perdeu pela primeira vez em 104 anos, para o Plaid Cymru (independentista). Para Keir Starmer, o embate chega menos de dois anos depois de ter alcançado um poder que não admite largar, apesar das pressões.

"A leitura mais simples é dizermos que estes resultados revelam descontentamento com as respostas políticas atuais, e com o Governo de Starmer. Mas creio que são mais do que isso. São o reflexo de uma penetração eficaz da retórica ultranacionalista, anti-imigração e anti-Europa que o Reform UK apresenta", avalia a antiga eurodeputada, avisando para o risco de o Partido Trabalhista seguir um "caminho de quase extinção" ou de se colar "às agendas extremistas como forma de sobrevivência".

"O Reform UK apresenta uma retórica tóxica, apoiada em milhões de euros, não apenas em propaganda direta e eleitoral, nem sequer em propaganda indireta e desinformação nas redes sociais, mas em financiamento para a produção e publicação de opinião e de pensamento muito na linha MAGA, que explora o descontentamento das pessoas e sentimentos de medo"

Quem se mantém em pé são os conservadores: apesar de terem reconquistado a Câmara de Westminster e de terem conseguido segurar alguns municípios, enfrentaram quebras relevantes de norte a sul. Ainda assim, o partido liderado por Kemi Badenoch - depois de um passado recente marcado por derrotas - interpreta os resultados locais com confiança. "Estamos a voltar ao jogo", afirmou a líder, por agora sem contestação interna de relevo.

Portugueses vitoriosos nos arredores de Londres

De acordo com uma análise da Lusa, pelo menos dez portugueses foram eleitos nas autárquicas do dia 7. Contra a tendência nacional de recuo, os trabalhistas Hedson Farinha de Castro, Diogo Costa, Lucia das Neves e Tiago Corais garantiram a reeleição em Hillingdon, Lambeth, Haringey e Oxford, respetivamente. Já Isabel Araújo (Sutton), Nick da Costa (Haringey) e a estreante Sandra Mano (Watford) venceram pelos Liberais Democratas. Pelo Partido Conservador, foram eleitos Floyd Dias (Brent) e Salvador Pereira (Hounslow). Entre os Verdes, Elmedina Baptista-Mendes assegurou um lugar em Islington.

Números

136 câmaras
Para além dos parlamentos autónomos da Escócia e do País de Gales, realizaram-se eleições em 136 autarquias em Inglaterra e em 32 municípios de Londres (com uma estrutura independente).

1453 lugares
O Reform UK, de Nigel Farage, conquistou 1453 deputados municipais em Inglaterra e ficou em segundo lugar nas eleições para o Parlamento galês.

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