Na véspera de chegar aos 90 anos, Manuel Alegre revisita, em conversa com o "Jornal de Notícias", os momentos decisivos de um percurso fora do comum.
Falar de "várias vidas" dentro de uma só, no caso de Manuel Alegre, não é exagero: desde cedo esteve ligado a causas, combates e escolhas que atravessam décadas. A cumprir 90 anos amanhã, o poeta da liberdade olha para trás com lucidez - e, ao mesmo tempo, mantém o olhar posto no que ainda quer fazer.
Quantas vidas cabem nestes 90 anos?
Quando uma vida é longa e atravessada por tantos acontecimentos, fica-nos a impressão de termos vivido muitas vidas numa única. E, no fundo, a própria vida organiza-se em etapas: como se fosse feita de várias vidas dentro da mesma vida.
O que trouxeram à sua escrita todas essas vivências?
Só sei uma coisa: se eu não tivesse vivido como vivi, não teria escrito o que escrevi.
Separar a vida da escrita é um erro?
A escrita nunca está desligada da vida. Mesmo quando nasce apenas do imaginário - de muita imaginação e da invenção da própria realidade, o que faz parte da liberdade de criação - ela não deixa de estar ligada ao vivido. Isso varia consoante a linguagem e as escolhas estéticas de cada autor, de cada poeta. No fim, a escrita acaba sempre por espelhar a vida, porque a imaginação, o imaginário e a invenção também pertencem à própria vida.
Sente que "viveu para contá-la", como o célebre livro do García Márquez?
Nunca vivi com a intenção de a vir a narrar. Aconteceu eu ter acabado por escrever um livro memorialístico, mas eu vivi cada etapa como tinha de ser vivida naquele momento, sem estar a recolher notas para futuras biografias. Vivi como achei que devia viver - ou como foi possível viver -, mas não vivi para depois a contar. Vim a contar uma parte, sim, mas foi algo que surgiu quase por acaso.
Mas quando analisa o passado, quando perscruta o passado através da escrita, isso tem-lhe dado novas luzes ou perspetivas sobre o que viveu?
Sim, sem dúvida. Ainda assim, escrever memórias traz sempre um risco. Há risco porque, perante o mesmo acontecimento, nós próprios mudamos de perspetiva consoante a idade e o período da vida em que nos encontramos. E, por isso, existe sempre um risco de fidelidade - de não haver uma fidelidade absoluta ao que realmente se viveu. Acabamos, sem querer, por projetar no passado o olhar do presente.
Um dado interessante na sua escrita - e vimos isso no livro "As Minhas Memórias" - é que, mesmo quando evoca períodos difíceis, como foi o tempo da ditadura, não o faz com raiva, ressentimento ou ajuste de contas. Limita-se a evocar esses períodos. Isso acontece apenas pela distância temporal ou porque não faz parte da sua forma de estar?
Essa é uma questão essencial e tem a ver com a minha maneira de estar. Ou seja: eu não lutei por raiva, nem movido por desejos de vingança. Lutei porque entendi que a opressão não deve ser tolerada e que é preciso combater por mais justiça num mundo cheio de injustiças. Mas não guardo raiva de ninguém.
Aliás, já várias pessoas me disseram isso: que eu acabo por não dizer mal de ninguém, que não mostro raiva em relação a ninguém, nem faço ajustes de contas com ninguém. A vida não é um ajuste de contas. A vida é aquilo que é - e é um erro atravessá-la como se fosse um acerto de contas ou um projeto de vingança. Não foi assim que vivi.
Tal como o homem também foi mudando ao longo dos tempos, sente que a sua escrita também passou transformações ao longo dos anos?
Claro. A escrita ficou mais serena, mais contida - como se vê neste último livro. A pessoa vai mudando... quer dizer, não muda no essencial, mas transforma-se. Há mais maturidade, surge um novo modo de olhar as coisas, ganha-se distância em relação aos factos, aparece outra compreensão... e também uma maior capacidade de compaixão e de ternura, até perante aquilo que se viveu.
Conheceu muitas figuras destacadas, portuguesas e não só, do último século. Em quais delas a aura de grandeza era mais notória?
É difícil escolher. Recordo alguns companheiros de infância e, mais tarde, companheiros de luta. Correndo o risco de ser injusto, nas letras destacaria Sophia de Mello Breyner e Miguel Torga. Influenciaram a minha formação, tanto como cidadão como como escritor.
Na política, é impossível não falar de Mário Soares e Salgado Zenha, pelos combates que travámos e pela marca que deixaram no rumo da nossa própria História.
De certa forma ainda estão em si?
Sim. São pessoas de quem tenho muita saudade e cuja falta ainda hoje sinto.
Ao longo da vida cultivou muitas amizades. Onde fez mais amigos: na literatura ou na política?
Em ambos os lados.
Ter uma vida tão recheada não o impediu de erguer uma obra muito extensa. Sente que algo ficou para trás devido a essas circunstâncias?
Esse balanço é difícil. Como já disse, se eu não tivesse tido a vida que tive, não teria escrito como escrevi, nem teria escrito aquilo que escrevi.
Ao mesmo tempo, é natural que, em certos momentos, as circunstâncias me tivessem tirado um pouco de mim - afastando-me do que, para mim, é fundamental, que é a escrita. Ainda assim, creio que tudo o que fui vivendo deixou marcas naquilo que escrevi.
No seu mais recente livro, "Balada do Corsário das Sete Mares", evidencia uma depuração acentuada. Está cada vez mais convencido de que a poesia aspira ao silêncio?
Não... quer dizer, penso que este último livro revela maior contenção e, ao mesmo tempo, uma autoanálise mais intensa. E aprofunda certos aspetos: a consciência de que tudo é transitório, a aproximação do fim da vida, o que é natural quando se chega a esta idade.
Ainda há muito por dizer ao fim de tantos anos e tantos livros?
Olhe, vou fazer 90 anos e continuo a pensar no futuro. Gostava de escrever mais um ou dois livros e gostava de manter em mim a disponibilidade para a cidadania, para o interesse pelo que se passa no mundo e no país.
Embora a minha capacidade de intervenção esteja diminuída por razões de idade e de saúde, há sempre a palavra - que é uma arma -, há sempre a escrita.
E ao cabo de mais de seis décadas de escrita, quanto de mistério encerra ainda para si o ato da criação?
Toda a criação tem algo de mágico. Eu só consigo escrever poesia quando o poema aparece. Ou seja: não sou capaz de me sentar à secretária e começar a escrever por vontade própria. Acho que nem vale a pena tentar; só faz sentido quando o poema começa a surgir, quase como se estivesse a ser ditado.
Nos seus livros, encontramos referências às suas diferentes dimensões: o poeta, o homem de letras, o político, o combatente cívico, o atleta na juventude... Acha que um livro é capaz de abarcar, conter a totalidade da vida, ou é apenas uma pálida aproximação?
Não: o livro procura conter a totalidade da vida; mas depois, naturalmente, em alguns aspetos, fica apenas pela aproximação.
Como é que o poeta que cantou a liberdade vê estes tempos em que ela novamente sofre ameaças várias?
A liberdade não se perde de um dia para o outro. Ela é corroída por dentro. Hoje já não há golpes de Estado com armas, metralhadoras ou tanques. Hoje mina-se por dentro.
A democracia vai sendo desconstruída através da sabotagem das instituições, da mentira, da demagogia e de uma linguagem que contamina toda a linguagem: a linguagem do ódio. É isso que me preocupa.
É preciso estar muito atento, saber lutar e manter a vigilância contra essa desconstrução da democracia e contra essa desconstrução da liberdade. É um processo lento: a liberdade não desaparece de repente - vai desaparecendo.
E vê na sociedade de hoje bolsas de resistência para fazer frente a essas grandes ameaças de que falou?
Os tempos mudaram. Há muitas pessoas zangadas com a vida e muita gente descrente em relação à própria política. E isso é algo de que devemos ter consciência, porque é preciso apresentar um programa democrático alternativo que traga soluções para os problemas concretos das pessoas.
Se os problemas concretos não forem resolvidos, isso abre espaço aos demagogos, aos populistas e à própria extrema-direita.
Mas vimos, ainda há pouco, um exemplo em que a população se exprimiu pelo voto: na eleição do Presidente da República. Quando surgiu a candidatura do Chega, muita gente ficou atemorizada, e a candidatura do António José Seguro acabou por reunir os votos democratas e alcançar a maior votação que um político alguma vez teve em Portugal. Foi uma forma de resistência.
O avanço da extrema-direita em toda a Europa e em Portugal é uma evidência. Ainda acredita que é possível travá-lo?
Acredito, com certeza. Como se viu aqui na eleição do Presidente da República e como se tem observado noutros países, quando a extrema-direita se aproxima demasiado do poder e começa a pôr em risco as próprias instituições, há sempre um sobressalto.
Agora, também acredito que as forças políticas tradicionais têm de se renovar e encontrar, dentro de si, programas alternativos - na economia, no social, na política... programas capazes de mobilizar as pessoas e de trazer soluções para os problemas que as afligem.
Estudos demonstram que a juventude, que tradicionalmente sempre foi de esquerda, vota hoje mais à direita. Se a esquerda quiser voltar ao poder terá que reconquistar essa faixa de eleitorado?
Com certeza que sim. Mas também creio que as coisas não são tão extremas como por vezes se diz. Houve muita gente jovem a votar em António José Seguro como reação à outra candidatura.
O que sente quando vê que as conquistas de Abril, pelas quais tanto lutou, são hoje questionadas por muitos políticos, havendo até quem considere que o país precisava não de um, mas de três Salazares?
Bem, essa é uma expressão lamentável, e revela que quem a profere se sente mais próximo da ditadura salazarista do que do 25 de Abril e da democracia. Essa pessoa disse também que o 25 de Abril era uma revolução miserável.
Portanto, quando afirma essas coisas, está a exaltar a ditadura fascista contra a própria democracia. E não admira que quem pense e fale assim queira pôr em causa algumas das transformações políticas e sociais do 25 de Abril.
Mas também só o tem conseguido graças à cumplicidade de parte do PSD, que tem abdicado muito da sua natureza de partido democrata e, por razões eleitoralistas e oportunistas do poder, tem dado grande cobertura a essa força política.
Crê que o seu forte envolvimento político condicionou uma avaliação literária mais justa do seu trabalho?
Senti isso em algumas circunstâncias, mas penso que é algo já ultrapassado. Não tenho motivos de queixa quanto à forma como a minha escrita tem sido avaliada - seja pelos prémios que recebi, seja porque as figuras mais relevantes da crítica portuguesa se pronunciaram de forma positiva sobre o meu trabalho. Hoje, não tenho razões de queixa.
O que é que a Inteligência Artificial e outros avanços tecnológicos podem provocar na criação humana?
A grande questão da Inteligência Artificial é, acima de tudo, um problema de poder: quem a vai controlar, para quê, e ao serviço de quê. Se para criar mais igualdade no mundo ou, pelo contrário, para despedir trabalhadores e aumentar a desigualdade.
É uma questão de poder e de organização política e social. Ainda assim, acredito no predomínio do homem e da inteligência humana sobre a inteligência do computador. Com o passar do tempo e com as experiências que inevitavelmente serão feitas - com aspetos positivos e negativos -, estou certo de que o humano vai prevalecer.
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