As matinés da discoteca de Leça da Palmeira, em Matosinhos, continuam a pôr a vibrar quem tem o rock no sangue. A personalidade do espaço mantém-se intacta e segue a seduzir várias gerações.
"Há músicas que pedem sempre para passar. "Por quem não esqueci", dos Sétima Legião, e "Video Maria", dos GNR, fazem parte dessa lista". A frase é de Abel, o DJ de serviço, veterano destas andanças e admirador assumido do espírito e dos recantos da mítica discoteca de Leça da Palmeira, que dá rock desde 1971 e que, enquanto aguarda decisão do tribunal, ficou limitada às matinés de sábado - embora com o mesmo travo das noites.
Matinés d’"O Batô" em Leça da Palmeira
A sessão decorre das 16 às 20 horas e a adesão tem sido aceitável. O bilhete custa dez euros, convertidos no mesmo valor em bebidas. Bastam cerca de duas centenas de roqueiros para compor uma casa bem composta.
Ainda antes de a pista abrir, o tom melancólico e ao mesmo tempo doce de Peter Murphy vai alinhando corpos e cabeças para a jornada de fim de tarde. Pouco depois, "Call me", na voz de Debbie Harry, dos Blondie, espalha uma onda de positividade e rasga "O Batô". Pelo meio - antes ou depois - surgem clássicos dos Depeche Mode, dos Orchestral Manoeuvres in the Dark e dos Clash; e também temas já do início deste século, dos Arcade Fire, que ajudam o barco a levantar voo ("batô" é uma versão afrancesada). O ambiente aquece rapidamente.
Banda sonora: dos anos 80 e 90 ao início do século
Os clientes, com destaque para as mulheres por chamarem mais a atenção, continuam a aparecer arranjados na medida certa. E vontade de dançar sob as luzes e a bola de cristal não falta a ninguém. O impulso vem, naturalmente, da música - muito marcada pela notável fornada das décadas de 80 e 90. Além de Sétima Legião e GNR, brilham também os Cure, os Smiths e os Joy Division.
Local de culto
É daqueles casos em que apetece dizer: "Quanto mais velhinho, melhor". "O Batô" vai aguentando a erosão dos anos e é encarado como um lugar de culto. Há ali um traço geracional: por lá passaram avós, pais e filhos, cada um no seu tempo.
Cá fora, António Cruz, sócio-gerente, acaba de atender uma chamada: uma mãe escolheu a discoteca de Leça da Palmeira para celebrar a despedida de solteira da filha. Já no interior, Jorge Pereira, com 64 anos, festeja um aniversário acompanhado por um grupo grande, ruidoso e bem-disposto de amigos e familiares.
De Braga chegou um casal jovem, Rui e Isabel. Rui é frequentador antigo e aproveita para matar saudades; Isabel decidiu ver, ao vivo, como é uma matiné. O carinho pelo espaço - um casco envelhecido, mas tratado com brio - é tal que ambos acabam a comprar camisolas dos artigos da casa.
Zé Carlos e Ana Maria Gil vêm de ainda mais longe: viajaram do Algarve e dançam como se não existisse amanhã. Zé Carlos lembra que, quando vivia em Chaves, vinha propositadamente a Leça para sentir esta aura impossível de replicar.
À espera do tribunal e das "noites do baú"
Para todos, a tarde vive-se como se fosse noite. Só quando, de tempos a tempos, uma das portas se abre e deixa entrar a claridade da rua é que a atmosfera mais escura e íntima do interior se interrompe por instantes.
Resta saber se a queixa dos vizinhos vai limitar a diversão às matinés ou se o tribunal devolve a discoteca ao horário habitual, nocturno, trazendo também de volta as muito concorridas "noites do baú", na última quinta-feira de cada mês.
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