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Conjunto vasto de 34 sepulturas antigas no sul de Itália revela crianças com grandes cintos de bronze

Jovem arqueólogo escava e limpa ossos num sítio arqueológico ao ar livre durante o dia.

Um vasto conjunto de 34 sepulturas antigas no sul de Itália foi identificado, incluindo enterramentos de crianças acompanhadas por grandes cintos de bronze.

A descoberta obriga a repensar de que forma estatuto, identidade e herança poderão ter sido comunicados muito antes de alguém atingir a idade adulta.

Exumação de um sector funerário oculto

Num cemitério recentemente revelado sob um antigo espaço industrial em Pontecagnano Faiano, as sepulturas surgem muito próximas umas das outras, concentradas num único sector de enterramento.

O local foi registado por arqueólogos da Superintendência de Arqueologia, Belas-Artes e Paisagem (SABAP) das províncias de Salerno e Avellino, no âmbito de escavações em curso.

No total, a equipa reconheceu 34 enterramentos, datados, em conjunto, dos séculos IV e III a.C.

Dessas sepulturas, 15 pertenciam a recém-nascidos e a crianças entre os dois e os dez anos, reunindo indivíduos jovens de um modo raro em sítios comparáveis.

Essa concentração pouco habitual, somada à presença de objectos normalmente associados a adultos, levanta uma questão mais ampla sobre a ligação entre idade e identidade social nesta comunidade.

Repensar a infância perante a morte

A predominância de sepulturas infantis dá outra profundidade ao quadro histórico: para além do tema da guerra, expõe nuances de estrutura familiar, luto e formas de tratamento das crianças.

Em idades tão precoces, os objectos depositados tendem a reflectir o que os adultos pretendiam preservar na memória, já que estas crianças não teriam tido tempo para assumir papéis públicos.

Trabalhos anteriores sobre Pontecagnano - localidade do sul de Itália, perto de Salerno - já demonstraram que as sepulturas de crianças podem assinalar expectativas sociais com a mesma clareza que as de adultos.

Esse percurso ajuda a perceber como uma comunidade antiga interpretava a importância da adolescência.

Cintos que quebram padrões anteriores

Dois enterramentos de crianças, provavelmente entre os cinco e os dez anos, incluíam cintos de bronze de dimensões tão grandes que, inicialmente, foram tomados como equipamento de adultos.

Entre os Samnitas, comunidades itálicas que mais tarde controlaram partes do sul de Itália, incluindo a Campânia, este tipo de cinto costuma ser entendido como sinal de identidade masculina e estatuto guerreiro.

Ainda assim, sepulturas mais antigas do Samnio - região montanhosa do centro-sul de Itália - mostram que os cintos não eram, necessariamente, símbolos directos de sexo ou de posição social.

Esse padrão mais amplo não resolve o enigma e serve de aviso contra a leitura dos cintos como meras insígnias de significado único.

Um cemitério de vizinhos

Nesta zona da Campânia, no sul de Itália, as sepulturas estavam organizadas em grupos familiares muito próximos.

A maioria dos túmulos consistia em fossas simples, cobertas por duas telhas de cobertura emparelhadas, uma solução prática para proteger os corpos e assinalar cada sepultura.

A par destes enterramentos mais básicos, duas câmaras foram construídas com blocos de pedra talhada e uma outra recorreu a pedra local mais macia. As diferenças sugerem que algumas famílias investiram mais nos materiais.

Só pela construção não é possível ordenar todas as casas por nível económico; ainda assim, o contraste aponta para vizinhanças em que os meios não eram iguais.

Marcadores de género nas sepulturas

No mesmo conjunto, a identidade é inferida pelos objectos - não por inscrições - e há diferenças consistentes entre o que foi colocado junto de homens e junto de mulheres.

Nas sepulturas masculinas surgem com frequência pontas de lança ou de dardo. Mesmo quando o restante espólio é escasso, estas armas podem indicar um papel associado ao guerreiro.

Os enterramentos femininos privilegiam anéis e fíbulas, bem como alfinetes usados para prender a roupa - elementos que os arqueólogos tendem a interpretar como marcadores fortes de género.

Estas associações são relevantes aqui, porque os cintos atribuídos a crianças interrompem um padrão que, de resto, parece familiar em sepulturas samnitas.

Uma medida através da cerâmica

A cerâmica aparece em quantidades reduzidas, normalmente um ou dois recipientes por sepultura. Isso orienta a leitura para a função ritual, mais do que para a ostentação.

Entre os exemplares identificados contam-se pratos rasos e copos com asa, associados a oferendas de bebida, gestos ligados a cerimónia e memória social.

Foram também encontrados pequenos lécitos - recipientes estreitos usados para conter óleo ou perfume -, sugerindo rituais em que o corpo ou as oferendas eram tratados com líquidos aromatizados.

Como não existem serviços de mesa completos, a cerâmica parece menos um sinal de riqueza e mais um adeus cuidadosamente delimitado.

A longa vida de Pontecagnano

Pontecagnano revela uma longa continuidade, com evidências de ocupação desde o século IX a.C.

Mais de 10.000 enterramentos provenientes da área integram hoje o museu local, demonstrando há quanto tempo os arqueólogos acompanham mudanças demográficas.

Ao longo dos séculos, comunidades etruscas da Itália central e populações campânias influenciaram o sítio; mais tarde, também grupos samnitas ali sepultaram os seus mortos.

Essa sequência prolongada é decisiva porque um objecto estranho numa sepultura isolada pode ser comparado com séculos de hábitos funerários locais.

Herança expressa na morte

Ainda não se sabe por que razão duas crianças receberam cintos de adulto, muito maiores do que os seus corpos.

Num caso anterior, uma sepultura continha uma criança entre os 10 e os 12 anos, enterrada com um cinto semelhante e duas taças de cerâmica.

“É uma descoberta de grande significado”, afirmou Luigina Tomay, arqueóloga que dirigiu o Museu Arqueológico Nacional de Pontecagnano.

Tanto esse exemplo como os novos achados alimentam dúvidas sobre se a linhagem familiar, a protecção simbólica ou uma adultez esperada moldaram estes funerais.

Equilibrar descoberta e protecção

Em Pontecagnano, muitas escavações continuam ligadas a obras públicas e a construção privada. Os arqueólogos tentam conciliar a descoberta com o risco de sobre-exposição.

Por isso, as autoridades tencionam não divulgar o mapa completo dos achados até estarem concluídos os trabalhos de campo e os estudos laboratoriais.

Os objectos recuperados deverão, muito provavelmente, regressar ao público através de museus regionais quando terminar a fase de investigação.

A demora é frustrante, mas pode ser a única forma de estudar um cemitério frágil sem atrair presenças indesejadas.

Estas sepulturas revelam uma comunidade que recorreu a objectos pequenos e escolhidos com cuidado para indicar quem importava - e o que uma criança poderia herdar.

À medida que novas escavações de salvamento atravessam Pontecagnano, a evidência mais convincente poderá estar, precisamente, nas sepulturas das crianças.

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