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Estudo liga ondas de calor marinhas a mais danos de furacões e ciclones tropicais

Pessoa com casaco de chuva utiliza tablet numa doca junto ao mar ao nascer do sol.

WASHINGTON (AP) – As ondas de calor marinhas estão a potenciar, em todo o mundo, os estragos provocados por furacões e ciclones tropicais, conclui um novo estudo.

Ondas de calor marinhas, ciclones tropicais e intensificação rápida

Ao analisar 1,600 ciclones tropicais - a categoria mais abrangente de tempestades que inclui os furacões - que fizeram landfall desde 1981, os investigadores verificaram que os sistemas que atravessaram águas anormalmente quentes tiveram maior probabilidade de sofrer intensificação rápida, um fenómeno que tem vindo a tornar-se mais frequente.

De acordo com o trabalho publicado na sexta-feira na revista Science Advances, isto traduziu-se em mais 60% de desastres com, pelo menos, 1 mil milhões de dólares em prejuízos quando atingiram terra, com valores ajustados à inflação.

Compreender melhor de que forma as ondas de calor marinhas amplificam os furacões poderá ajudar previsores, autoridades de emergência e responsáveis pelo planeamento a longo prazo a preparar-se para tempestades futuras.

No estudo, as ondas de calor marinhas foram definidas como extensas áreas oceânicas persistentes, com temperaturas entre os 10% mais elevados do registo histórico. Segundo os autores, com as alterações climáticas e oceanos cada vez mais quentes, este risco está a aumentar. A água quente é o combustível dos furacões.

"Estas ondas de calor marinhas afetam mais de metade dos ciclones tropicais que fazem landfall", afirmou o coautor Gregory Foltz, oceanógrafo da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA).

"Estão a acontecer mais perto da costa e com maior frequência, por isso penso que as pessoas precisam de prestar atenção e saber que é mais provável que resultem em danos extremos quando fazem landfall."

Foltz acrescentou que, para meteorologistas que projetam a trajetória das tempestades, é importante verificar se os furacões atravessam uma onda de calor marinha, porque a intensificação rápida passa a ser mais provável e isso "pode potencialmente ter um impacto maior no landfall".

Exemplos de 2023: Helene, Milton e o furacão Otis

Para ilustrar o problema, o coautor Hamed Moftakhari, professor de engenharia costeira que estuda riscos compostos na Universidade do Alabama, apontou os furacões destrutivos que atingiram os Estados Unidos em 2023.

"A história de Helene e Milton é que, se tiver um oceano mais quente, tem o combustível para supercarregar os ciclones tropicais até em cascata. Assim, em poucas semanas pode ter dois furacões com intensificação rápida a fazer landfall na costa oeste da Florida", disse Moftakhari.

"Isto é chocante, mas também deveria ser alarmante para as pessoas."

O estudo destaca ainda o furacão Otis, de outubro de 2023, que se intensificou rapidamente de tempestade tropical para um furacão de Categoria 5, o nível máximo, num único dia. Ao fazer landfall perto de Acapulco, México, causou cerca de 16 mil milhões de dólares em prejuízos e 52 mortes, com ventos de 265 km/h (165 mph).

Por que razão os danos aumentam - e o que isto implica para a costa

Segundo os investigadores, o aumento dos prejuízos - quando comparado com tempestades que não atravessaram ondas de calor marinhas - não se explica por uma maior urbanização costeira.

O autor principal, Soheil Radfar, cientista da Universidade de Princeton que trabalha com modelação de perigos associados a furacões, explicou que foram comparadas tempestades que passaram por águas quentes e atingiram costas urbanizadas com outras que impactaram áreas com níveis semelhantes de urbanização, mas sem cruzarem essas águas anormalmente quentes.

Há muito que a ciência reconhece que a água quente alimenta e, muitas vezes, reforça os ciclones tropicais; este estudo acrescenta um elo mais direto na relação de causalidade.

Para Radfar, isto torna o futuro mais arriscado.

"Todas estas peças do puzzle vão ser muito desafiantes para o ambiente costeiro nas próximas quatro décadas quando tiver mais intensificação rápida, mais ondas de calor marinhas", afirmou.

Disse ainda que isto "vai ser muito dispendioso e assustador para o ambiente costeiro, e vai provocar mais desastres de mil milhões de dólares no futuro".

Moftakhari sublinhou que "do ponto de vista da engenharia costeira e da gestão do risco, isto tem implicações importantes para a forma como os governos planeiam, desenham e respondem a estes perigos".

Segundo ele, o planeamento de evacuações deve considerar que tempestades que atravessam pontos quentes no oceano têm maior probabilidade de intensificação rápida e representam ameaças mais elevadas. Poderão ser necessários avisos mais precoces e critérios de ativação para a saída das populações quando houver ondas de calor marinhas.

Moftakhari acrescentou que os projetos de proteção contra cheias, os sistemas de drenagem e os paredões (muros de proteção costeira) têm de ser atualizados face a uma realidade de tempestades cada vez pior.

Avaliação de cientistas externos

Cientistas que não participaram no trabalho referiram que o estudo é consistente com a física já conhecida dos furacões e com o que se espera das alterações climáticas, ao mesmo tempo que quantifica de forma mais concreta a probabilidade de prejuízos extremos quando existem ondas de calor marinhas.

"As alterações climáticas estão a causar ondas de calor marinhas mais fortes e de maior duração. Os ciclones tropicais obtêm a sua energia e produzem chuva intensa através da evaporação a partir de águas oceânicas quentes", afirmou Brian Tang, professor de ciências atmosféricas na Universidade de Albany, que não integrou a equipa.

"É razoável que as ondas de calor marinhas estejam a turbinar os furacões, desde que outras condições ambientais sejam favoráveis à intensificação. Na prática, os dados estão a ser viciados."

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