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Gaia e a Gaiurb notificam coletividades de Vila d'Este para deixarem lojas

Três pessoas organizam livros em caixas numa sala com bandeira de Portugal e cartazes na parede.

Coletividades de Vila d'Este notificadas para abandonar lojas

"Querem acabar com a nossa associação", ouve-se, num registo de revolta, na sede do Grupo Desportivo Cem Paus, em Vila d'Este, Vilar de Andorinho. No bairro, pelo menos uma mão-cheia de coletividades recebeu cartas do Município de Gaia a solicitar a saída das lojas onde funcionam. Para algumas, a consequência é perderem a sede, colocando em risco a própria continuidade; para outras, significa ficar sem os espaços onde dinamizam modalidades e atividades desportivas para a população.

No fim, quem sai a perder são as "mais de 20 mil pessoas" que, segundo a Associação de Moradores de Vila d'Este, vivem nesta grande urbanização, onde estas coletividades formam uma rede de apoio social que ultrapassa largamente a simples promoção do desporto.

Um exemplo é o Grupo Desportivo de Vila d'Este, onde se sublinha a ironia do momento: "Está aqui a placa, a dizer que o presidente da Câmara [Luís Filipe Menezes] veio cá inaugurar esta sede, em abril de 2000. Agora, vai tirar aquilo que nos deu", protesta Ana Santiago, dirigente da associação. A responsável recorda ainda que, durante a campanha para as autárquicas de outubro, o social-democrata voltou à sede: "Disse, orgulhoso, que deu isto e que estava muito bonito, mas, agora, quer tirar".

Câmara de Gaia, Gaiurb e associações: contactos e versões

Confrontada pelo JN, a autarquia assegura que "a Gaiurb não está a despejar nenhuma associação, nem o vai fazer" (ler caixa). Ainda assim, Abílio Silva relata que o Grupo Desportivo, do qual é presidente, foi contactado pela Gaiurb, na tarde de anteontem, com a indicação de "o dia em que vai entregar as instalações".

A poucos metros, o Grupo Desportivo Cem Paus aguarda uma reunião com a Gaiurb marcada para segunda-feira. Luís Monteiro, membro da direção, diz querer "acreditar que tudo isto se tratou de um equívoco ou de uma análise mal feita por parte da Câmara e da Gaiurb".

Câmara quer reunir com coletividades

Ao JN, a Câmara de Gaia voltou a garantir que "a [empresa municipal] Gaiurb não está a despejar nenhuma associação, nem o vai fazer". O Município acrescentou que "a partir de segunda-feira vão decorrer reuniões entre a administração da Gaiurb e as associações para avaliar as atividades com interesse social para as comunidades em que se inserem". No entanto, não foi explicado por que motivo as cartas foram enviadas antes desses encontros.

"Impacto social"

Também depois de receber a carta de "rescisão do contrato de comodato", a Associação de Moradores de Vila d'Este já desocupou as duas lojas onde promovia iniciativas como dança e kickboxing. O tesoureiro, Casimiro Soares, preparava-se ontem para formalizar a entrega dos espaços, que já se encontram com as grades corridas. A crítica é direta: "A Câmara quer que as associações arranjem atividades, mas, se nos tiram os espaços, como conseguimos tê-las?".

Com documentação na mão, José Ribeiro apressa-se em direção à sede da Associação de Condomínios da Urbanização de Vila d'Este, onde uma placa preta assinala a inauguração realizada por Menezes, em 1999. "Temos a carta de despejo", afirma o elemento da direção, no meio da urgência de "cancelar contratos [de luz e net] e desocupar". E conclui: "O despejo é o fecho; não há o que fazer. Ninguém vai para lado nenhum, porque não temos dinheiro para alugar espaços".

"Se tivermos de entregar a sede, o Cem Paus não tem para onde ir", avisa Luís Monteiro. Ao lado, Pedro Valente, do vizinho Deportivo de Vila d'Este, alerta que um eventual encerramento "vai ter um impacto social tremendo", uma vez que a sede funciona igualmente como lugar de "apoio e convívio para os mais velhos". Na freguesia, o Clube Balteiro Jovem também foi notificado.

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PS questionou
O vereador do PS João Paulo Correia questionou o Executivo na terça-feira, procurando saber se a intenção das rescisões passa por transformar as lojas em habitações, mas não recebeu esclarecimentos. "Não se resolve um problema criando outro", afirma.

Incumprimento
Nas cartas remetidas às associações, a Gaiurb sustenta que se "verificado o desvio dos objetivos previstos" face às "atividades de interesse público local" levadas a cabo pelas coletividades referidas. Todas asseguram que foram "apanhadas de surpresa".

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