O último elefante que ainda permanecia associado a um circo em Portugal vai ser levado, em junho, para o santuário da Pangea, no distrito de Évora, na sequência de um entendimento entre a Pangea Trust e o Circo Victor Hugo Cardinali.
Acordo para a transferência de Julie
Num comunicado emitido em conjunto, as duas organizações indicam que "o acordo foi alcançado de forma voluntária, num espírito de compromisso partilhado pelo bem-estar" da elefanta, uma fêmea chamada Julie.
Segundo as entidades, "Julie chegou a Portugal vinda do sul de África, ainda cria, e juntou-se ao Circo Victor Hugo Cardinali em 1988. Foi retirada de atividade em 2024, ano em que entrou plenamente em vigor a legislação portuguesa que proíbe animais selvagens em circos" e quando "faleceu a sua última companheira".
Ainda de acordo com o comunicado, "enquanto o Circo Victor Hugo Cardinali ponderava o futuro de Julie, a Pangea reuniu condições para lhe oferecer um lar definitivo", num santuário criado de propósito para elefantes no Alentejo.
Santuário da Pangea no Alentejo (Évora)
O espaço está a ser desenvolvido num terreno localizado nos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal, no distrito de Évora, e "dedica-se a proporcionar a elefantes como Julie o espaço, o ambiente e a companhia necessários ao bem-estar da espécie".
A Pangea Trust assegura ainda que "os elefantes residentes contarão ainda com o acompanhamento de uma equipa especializada, dotada da experiência necessária para apoiar a sua saúde e bem-estar nos seus últimos anos de vida".
Kariba será companhia de Julie
Em declarações à agência Lusa, uma fonte da organização referiu que se mantém a previsão de inaugurar o santuário com a chegada de Kariba, uma fêmea que veio do Zimbabué para a Europa e que passou os "últimos 40 anos em cativeiro" em diferentes jardins zoológicos, estando atualmente num zoo na Bélgica.
A mesma fonte adiantou que, sendo Kariba de idade próxima da de Julie, "está previsto chegar no final deste mês e, em junho, virá a Julie".
No comunicado, as entidades frisaram que "se ambas as transferências decorrerem conforme o previsto", Kariba e Julie "poderão finalmente desenvolver a companhia que é tão essencial à sua espécie".
Entretanto, pode ler-se, a equipa veterinária da Pangea "trabalha já em colaboração com o Circo Victor Hugo Cardinali nas avaliações de saúde necessárias, garantindo que Julie reúne todas as condições para a viagem até ao santuário".
Membro da família
Citado no comunicado, Victor Hugo Cardinali reconheceu que "esta não foi uma decisão fácil", uma vez que Julie "é um membro profundamente querido da família há mais de 30 anos".
"Mas acreditamos que esta é a decisão certa para ela. Poder trabalhar em estreita colaboração com a Pangea na transição para a sua nova casa foi determinante para a nossa decisão", sublinhou.
Por sua vez, a diretora-geral da Pangea, Kate Moore, recordou que, "por toda a Europa, circos e jardins zoológicos estão a chegar a um ponto em que manter elefantes deixou de ser possível ou adequado, seja por alterações legislativas, pela perda de um companheiro ou pela decisão de seguir um novo rumo".
"Trabalhar em parceria com os proprietários para encontrar a solução certa é central à forma como operamos e foi assim que aconteceu com o Circo Victor Hugo Cardinali. As transferências de elefantes são complexas e o seu envolvimento contínuo é inestimável", acrescentou.
De acordo com o comunicado, "com a realocação de Julie, Portugal aplicou com sucesso a legislação que proíbe o uso de animais selvagens em circos", legislação que foi aprovada em 2018 e que está em vigor desde 2024.
A organização salientou também: "No início deste ano, a Pangea também ajudou a facilitar a realocação de Sona, o último tigre de circo do país, e Julie não será apenas o último elefante fêmea de circo de Portugal, mas o último animal selvagem em qualquer circo do país".
Em 6 de novembro do ano passado, em Vila Viçosa, durante a apresentação do projeto do santuário para elefantes e numa visita à propriedade onde o mesmo está a ser implementado, Kate Moore afirmou que, ao longo de cerca de dez anos, a Pangea pretende "investir 15 milhões de euros" nesta iniciativa.
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