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Serviço militar voluntário: recrutar, reter, reinserir em Portugal

Militar e homem de negócios apertam as mãos numa sala, com grupo de militares em formação ao fundo.

Há cerca de 25 anos, na sequência da mudança de paradigma na prestação do serviço militar e da revisão das respetivas leis estruturantes iniciada no final da década de 1990, as políticas de “profissionalização” assentes no serviço militar voluntário passaram a organizar-se, de forma consistente, em torno do tríptico conceptual dos três “RR”: recrutar, reter, reinserir.

Estas três dimensões não funcionam em compartimentos estanques: cruzam-se, articulam-se e, em muitos aspetos, dependem umas das outras.

O tríptico dos três “RR”: recrutar, reter, reinserir

A opção por ingressar nas fileiras resulta de motivações diversas. Importa, desde logo, separar quem procura uma carreira permanente de quem encara o serviço como uma etapa temporária e transitória - seja por estar no início do percurso profissional, seja por constituir uma alternativa de recurso para ocupação laboral.

Ainda assim, o ingresso pode não depender apenas da vontade individual, caso existam necessidades de preenchimento de efetivos e/ou um contexto de pré-conflito, cfr. o que, de forma genérica, se prevê no artigo 34.º da Lei do Serviço Militar.

Recrutar: voluntariado, convocação e reservas na era digital

Por isso, em rigor, o tema técnico do recrutamento não se esgota na simples ponderação da vontade dos interessados. Como o sistema de prestação de serviço mantém uma reminiscência conscricional - que não figura na lei por acaso - torna-se necessário que o Estado garanta a operacionalidade dessa “máquina”. E essa importância cresce tanto mais quanto mais instáveis forem os tempos atravessados pelas sociedades.

Neste quadro, consideramos decisiva a gestão e operacionalização das reservas em contexto digital, o que pressupõe saber, em tempo real, “quem”, “onde” e “quando”, bem como dispor de estruturas preparadas para suportar o serviço prestado em regime de convocação.

Mais urgente, ainda, é verificar se o sistema funciona de facto, o que nos remete para a necessidade de realizar exercícios especificamente orientados para esta matéria.

Se a salvaguarda dos interesses da Defesa Nacional nos levar a reconsiderar um aumento de efetivos, esse esforço deve ser, do ponto de vista sociológico, tão equilibrado quanto possível. Tal é válido quer para a forma como o esforço é distribuído pelos cidadãos, quer para a apreciação do impacto orçamental das medidas.

Caso um cenário de conflito na Europa se agravasse, o recurso à convocação seria inevitável. Coloca-se, então, a questão: temos noção do custo para o Estado português? E, na prática, o sistema responderia?

Reter: fatores que influenciam a permanência no serviço militar

Regressemos, porém, à “normalidade” do serviço militar de base voluntária, cujos motivos de adesão são múltiplos e convergentes.

A partir de estudos realizados com base em dados recolhidos junto de militares em regime de contrato e de jovens que comparecem ao Dia da Defesa Nacional, conseguem apurar-se as principais razões para o ingresso. Do mesmo modo, é possível identificar causas e condicionantes que interferem diretamente com a política de retenção. Entre elas, com base empírica, destacam-se três:

  • Condições de prestação de serviço (remuneração, infraestruturas, fardamento, apoio social);
  • Atratividade dos meios e das missões;
  • Aproveitamento de competências e formação obtidas nas fileiras, capazes de valorizar o perfil profissional associado.

Reinserir: reempregabilidade e ponte entre Defesa Nacional e economia civil

Chegamos, assim, ao terceiro “R”, que é central para a nossa análise, e onde parece existir uma tensão entre “contrários”: a estabilidade socioeconómica proporcionada pela condição militar face ao desafio da reempregabilidade após a saída das fileiras. Daqui resulta uma relação clara: quanto maior for a reempregabilidade, maior tende a ser a atratividade do serviço militar voluntário.

O ensino e a formação militar têm, progressivamente, aproximado a sua oferta das exigências do mercado de trabalho. Neste domínio, são particularmente relevantes o reconhecimento das licenciaturas e mestrados obtidos nos diversos estabelecimentos de ensino militar, bem como o aprofundamento do sistema de validação e reconhecimento de competências adquiridas no exercício da função militar.

Contudo, a função militar incorpora valores e práticas que o país económico parece ter descurado. O sentido do dever, a experiência, a disciplina e a coesão, e o espírito de missão - quando conjugados com a preparação obtida - constituem ativos que podem e devem ser aproveitados pela economia real.

É por isso que defendemos a criação de um verdadeiro sistema de interface que aproxime a Defesa Nacional dos empregadores, públicos e privados, funcionando como uma espécie de agência de promoção e de ligação ao universo da economia civil.

Quantas empresas ou organismos públicos em Portugal não teriam interesse em integrar, “chave na mão”, profissionais formados pela instituição militar?

Impõe-se, portanto, maior inteligência na forma como o sistema de prestação de serviço militar é desenhado e executado, favorecendo uma abordagem holística e enquadrada no contexto social em que as Forças Armadas (FFAA) se inserem.

A resposta tem passado por reforçar remunerações e suplementos, alargar regimes de contrato especial de duração acrescida e abrir novos quadros de pessoal, agravando os encargos sociais e orçamentais no médio/longo prazo - e, nalguns casos, repetindo erros do passado. Não pode, nem deve, ficar por aí.

O aumento de benefícios diretos precisa de ser equilibrado com benefícios indiretos que, de forma inteligente, recompensem o “esforço-cidadão” de prestar serviço militar. E que evidenciem, perante os cidadãos que hoje servem como militares, que existe vontade e estrutura para pensar o desenvolvimento da sua carreira profissional ao longo da vida, ao serviço do país e não apenas das FFAA.

Num momento em que o Parlamento se prepara para discutir várias iniciativas ligadas a esta temática, fica este contributo para o debate, apresentado por quem, por sinal, também percorreu o honroso e digno caminho da prestação de serviço militar.

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