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Milagres e o pinhal de Leiria após a tempestade “Kristin”: 28-1-2026

Mulher em floresta tira foto com câmera, rodeada de árvores e vegetação ao entardecer.

Por vezes, só ao fixarmos bem a paragem de autocarro percebemos de onde veio o comboio. Em Milagres, para Lígia Sousa, funcionária da Junta de Freguesia, não basta observar: é preciso registar o estrago em fotografia, enviar para a Câmara Municipal e, depois, aguardar. Nada de extraordinário. Três meses depois desse comboio de tempestades que redesenhou a paisagem de Leiria - e muito mais do que isso - esperar passou a ser rotina. Há quem continue à espera de apoio, à espera do seguro, à espera da televisão, do telefone, de uma ligação à internet. Em 28 de janeiro de 2026, o mundo de quem vive dentro do pinhal ficou de pernas para o ar.

Milagres após 28-1-2026: a espera como modo de vida

O café central da vila encosta-se ao que ainda sobra da paragem, de frente para o imponente Santuário do Senhor Jesus dos Milagres. Nesta terça-feira, pelas três da tarde, quase não há movimento. Marta Marques vai tirando um ou dois cafés e comenta a falta de sorte de tantos clientes que, desde janeiro, foram deixando desgraças ao balcão - “alguns perderam tudo o que tinham”.

Numa mesa, duas amigas fazem contas à distância até Lisboa, onde está “quem manda”. “Já ninguém quer saber de nós. As promessas são tão leves que nem asas têm, sabe? Se fosse na Avenida de Roma, pode ter a certeza de que já estava tudo resolvido”, atira Alzira José, a propósito de uma casa na família, a dos cunhados, que diz ter ficado sem teto. Ao lado, Élia Santos fala da oficina da família, em Marrazes, aqui perto, que também levou porrada. “Falta-nos tudo aqui”, diz, olhando pela janela para o largo enorme, onde se vêem dois coretos e um poço antigo.

À entrada do santuário, no topo de 15 degraus, duas placas na parede lembram os filhos da terra que combateram na Grande Guerra, uma de cada lado da porta (lá dentro, junto ao altar, resiste um mistério ainda mais antigo). A placa da esquerda enumera os “mártires”, os três que não regressaram. Na outra, alinham-se 16 nomes: um Francisco, por exemplo, um Amadeu, quatro António, oito Manuel e outros tantos José. Entre eles, um José S. Carpalhoso.

Entre Milagres e Souto da Carpalhosa: o pinhal devastado e o lixo

Sigamos. De Milagres a Souto da Carpalhosa são oito quilómetros: duas estradas municipais, dez minutos de caminho e, com sorte, sem cruzar um único carro. Mesmo assim, o que se vê é o retrato de uma região arrasada. Não é só a sucessão de árvores partidas e tombadas, nem os troncos arrancados do chão, sem copa nem ramos, nem os eucaliptos vergados como se estivessem de costas para o mar, numa vénia de quem espera o sol nascer a leste. Há, sobretudo, um tom castanho estranho numa paisagem que deveria ser verde. E esse castanho repete-se por ali, nas nacionais, e até nas bermas da autoestrada. A monotonia da tragédia é que há mais árvores caídas do que palavras para as descrever.

Ainda assim, nesse trajeto curto, perto da Charneca do Nicho, o parque de merendas, no coração da mata nacional, parece perder outra guerra - desta vez contra o lixo que se vai acumulando na berma. Telhas, telhados, cimento, tijolos, sofás. “Cresce todos os dias”, avisa Horácio Santos, o mais velho de dois irmãos que carregam um camião com madeira cortada, já com Souto da Carpalhosa quase à vista. Alcino, o mais novo, varre a envolvente com os olhos. “Vão ser precisos anos para limpar tudo isto. Anos. Escreva isso. Está tudo destruído, daqui até à Marinha Grande”, afirma.

Segundo a Câmara Municipal de Leiria, a devastação atingiu mais de 10 mil hectares de floresta - o equivalente a cerca de 8 milhões de árvores no chão. Alcino não esconde o receio: “Se vem o fogo, vai ser uma tragédia. Se fosse eu a mandar, proibia o abate de árvores a norte e a sul e trazia todos os madeireiros para aqui. E mesmo assim era pouco”. Horácio acompanha o raciocínio e aponta para as copas: “Está a ver a cor dos eucaliptos? Aquele castanho é da maresia. O ar do mar, que o pinhal segurava, agora vem todo por aí fora e parece que queima as árvores.”

Junto à estrada, meia dúzia de cabras vão pastando, como se o cenário não lhes dissesse respeito. E, mais à frente, a sensação de estranheza mantém-se. Quando os problemas são gigantes, os pequenos encolhem: sinais de trânsito partidos ou torcidos, postes no chão, relva a invadir bermas e passeios.

Em qualquer freguesia do distrito - da fustigada Vieira de Leiria, à beira-mar, à visigótica Abiul, que se assume como berço da mais antiga praça de touros portuguesa, num vale ao sopé da serra de Sicó, não muito longe de Pombal - há quase sempre alguém de pé no cimo de um telhado. Vêem-se lonas pretas sobre as casas. Vêem-se buracos nos telhados. E há situações em que, passados 100 dias da tempestade chamada “Kristin”, a locomotiva desse comboio meteorológico destruidor, já nem telhado existe.

Souto da Carpalhosa, o santuário e o “Bairro da Tempestade”

Em Souto da Carpalhosa, o caso de Filomena César é ainda mais intricado, e funciona como porta de entrada na terra de José Braz Arroteia (1795-1880), o “Gigante do Souto”, homem enorme e mestre no jogo do pau, de tal maneira que, diz-se, chegou a ensinar o rei D. Miguel I - para uns o Usurpador, para outros o Absolutista. Absoluto, de facto, é o problema de Filomena.

A versão curta soa assim: madrugada de barulho, estrondo e medo; manhã de destruição; casa sem telhado; mais medo; quase duas semanas a dormir no pavilhão municipal. É à porta desse pavilhão que agora está, instalada numa de três casas prefabricadas. “Estamos à espera, mas não sabemos até quando”, diz Filomena, que regressara a Portugal a 11 de novembro, após três décadas na Suíça. O marido comove-se, recua e entra. Um cão pequeno percorre a urbanização improvisada que, à terceira tentativa, Filomena aceita baptizar como Bairro da Tempestade.

A monotonia da tragédia é que há mais árvores caídas do que palavras para as descrever

No pinhal, há quem ainda recorde outra grande tempestade, a de 1941, que, dizem, não ficou atrás da “Kristin”. A maioria, porém, vive com memórias mais recentes, igualmente duras. “O pinhal que sobreviveu aos incêndios de 2017 acabou por ir agora”, lamenta o presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande. “Desta vez foi mais assustador, muito mais, tocou-nos no íntimo, nas nossas casas”, insiste o autarca Paulo Vicente.

Por agora, a prioridade passa por limpar caminhos florestais e preparar as praias. E há ainda o incómodo físico atribuído ao ar que vem do mar. “Não tenha dúvidas de que sentimos no corpo a falta das árvores”, assegura, sem abdicar da palavra-chave: “resiliência”. “Não será fácil, mas não baixamos os braços.”

Lá em cima, junto ao sino do Santuário do Bom Jesus dos Milagres, quem olha em volta imagina a Marinha Grande algures à direita, em frente, na direção do mar. Para abarcar toda a dimensão da tragédia do pinhal, o reitor do santuário, padre Virgílio Francisco, sobe degraus de pedra gastos por séculos de passos, desvia lonas estendidas no chão e passa ao lado de uma estrutura que segura o telhado - um dos vários pináculos arrancados caiu ali em cima; os restantes, tal como o relógio e uma série de telhas, foram parar a meio da rua. E, do alto, descreve o que sente à sua volta: “Sabe, há muita gente que ainda sofre. Sente-se o desespero de quem não tem respostas. Há gente que persiste, que todos os dias luta, mas também há, principalmente os mais velhos, quem já tenha desistido. Gente que perdeu tudo.”

A história conta que, em 1728, um mendigo chamado Manuel Francisco Mayo, paralítico da cintura para baixo, perdeu a peça de cortiça com que se movia e ficou ali, a pedir ajuda ao Senhor Jesus de Aveiro, até adormecer. Quando acordou, estaria curado e entregou-se à construção do santuário naquele lugar, tendo sofrido dois acidentes que, diz-se, só não lhe tiraram a vida “por graça de Deus”. Ainda assim, não largou a obra. Os anos passaram e gente de todo o lado começou a aparecer, atraída pelas curas e pelos milagres do Senhor Jesus. “Estamos já a preparar o tricentenário”, explica o padre Virgílio, aconteça ele quando acontecer.

Eis o enigma do santuário: um painel de azulejos, à direita do altar, assegura que o milagre ocorreu em 1728. Já um documento da época, emoldurado na parede à esquerda, garante que foi em 1729.

Mas há outro número à espera na freguesia. Vai passar o verão e as festas, o Natal e o ano novo, e ainda mais um inverno. Talvez passem cinco anos, talvez dez. Um dia, porém, alguém há de descer a Rua do Brejo, que começa nas traseiras do santuário, e dar com uma árvore partida onde crescem, entre os anéis que denunciam a idade, sete algarismos de ferro dourado. É em Milagres, sim, mas não é milagre: é lembrança. Um dia, um mês e um ano que o cunhado de Alzira, a senhora do café, mandou pregar naquela madeira para nunca mais apagar o dia em que o céu lhe levou o telhado. 28-1-2026.

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