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Porque é que as empresas escolhem CEO cada vez mais velhos - e o papel da inteligência artificial

Reunião de trabalho com cinco pessoas numa sala moderna com janelas grandes e laptops sobre a mesa.

Em 2000, a idade média de um CEO na Europa ou nos EUA situava-se nos 47 anos. Em 2024, esse valor já tinha escalado para 55. No entanto, a população, no mesmo período, envelheceu apenas entre um e três anos (consoante o país). Como se explica que as empresas estejam a seleccionar líderes progressivamente mais velhos do que a própria população - e, por inerência, do que a força de trabalho?

O que mostram os dados sobre a idade dos CEO

Os economistas Kecht, Lizzeri e Saidi publicaram recentemente um estudo que documenta este “envelhecimento no topo” com base em informação sobre CEO de milhares de empresas. A amostra não se limita a grandes multinacionais cotadas; inclui igualmente empresas médias e grandes distribuídas por vários países.

Para perceberem a origem do fenómeno, os autores começam por excluir uma hipótese comum: a de que os CEO estão a ficar mais velhos por permanecerem mais tempo no cargo, devido ao adiamento da reforma. Pelo contrário, quando se observa o tempo médio durante o qual um CEO se mantém na mesma função, esse período até encolheu ligeiramente ao longo destes 25 anos.

O aumento está, sobretudo, no momento da primeira nomeação. Se olharmos apenas para a idade a que alguém é designado CEO pela primeira vez, a subida média foi também de oito anos. Em suma, os dados apontam para CEO que chegam ao lugar com mais anos de experiência do que no passado.

Promoções internas, experiência externa e carreiras mais variadas

Kecht e os coautores mostram depois que, no caso de quem é promovido dentro da própria organização, o número de anos até alcançar a posição de CEO praticamente não se alterou. Isto significa que a mudança não vem de “subir mais devagar” internamente; vem, isso sim, de acumular mais experiência fora da empresa.

Essa leitura é reforçada por outro padrão: entre as pessoas nomeadas CEO pela primeira vez, o número de funções anteriores aumentou de forma marcada, ao mesmo tempo que o tempo passado em cada cargo diminuiu. Juntando as peças, o retrato é claro: quando um CEO é contratado, tende a trazer um currículo com mais anos de experiência e um percurso feito de mais cargos, em mais empresas.

Porque é que as empresas preferem CEO mais velhos e generalistas

O que leva, então, as empresas a favorecerem CEO mais velhos e com trajectos mais diversificados? A literatura recente tem vindo a descrever um papel de CEO mais exigente do que era há algumas décadas. Em média, as grandes empresas operam hoje com portefólios mais amplos de produtos, presença em mais regiões e relações comerciais com clientes em mais países.

Na condução das organizações, ganhou peso a globalização, a necessidade de responder a preferências mais variadas e o tempo consumido por regras e exigências regulatórias em diferentes jurisdições. Neste contexto, faz sentido que aumente a procura por líderes mais generalistas, com experiência em vários sectores e ambientes, em detrimento de gestores que fizeram toda a carreira na mesma casa.

Esta ideia foi avançada pelos economistas portugueses da Nova SBE Cláudia Custódio, Miguel Ferreira e Pedro Matos num artigo publicado em 2013: segundo esse trabalho, CEO com um perfil mais generalista - em vez de mais especializado - tendem a receber remunerações superiores.

"A inteligência artificial reforça esta tendência, porque reduz o valor da especialização técnica"

Efeitos no mercado de trabalho: procura e oferta de executivos

Se o topo está a envelhecer, as implicações fazem-se sentir nos dois lados do mercado.

Do lado da procura, empresas que não atingem grande escala oferecem menos oportunidades para que os seus executivos construam, internamente, a variedade de experiências hoje associada ao cargo de CEO. Daí observar-se uma maior contratação de CEO vindos do exterior. E, embora Apple, Microsoft e outros gigantes frequentemente promovam quadros internos quando substituem o CEO, nas empresas de menor dimensão nota-se, nas últimas duas décadas, uma inclinação para recrutar como CEO profissionais cuja carreira passou pela consultoria de estratégia.

Do lado da oferta, o estudo identifica um mecanismo interessante: quando um executivo é nomeado CEO noutra empresa, os seus colegas que trabalhavam na mesma organização e na mesma área geográfica passam a ter maior probabilidade de mudar também de empregador, procurando acumular a experiência necessária para replicar o trajecto do ex-colega. Nos dados, estes executivos tornam-se mais móveis, trocando com maior frequência de empresa e, por vezes, aceitando posições pior pagas noutros sectores - um comportamento coerente com a procura de credenciais e diversidade de funções que os aproximem de uma futura nomeação para CEO.

O que pode significar para a economia e para a inovação

As consequências macroeconómicas são mais difíceis de fechar, mas há evidência de que importa quem ocupa a liderança: a identidade do CEO influencia as escolhas das empresas e o seu desempenho. Um resultado relativamente robusto é que CEO mais velhos tendem a mostrar maior aversão ao risco. Nos dados, quando se compara empresas semelhantes, a que tem um CEO mais velho, em média, produz menos patentes e apresenta menor intensidade de inovação do que uma equivalente liderada por um CEO mais novo.

É possível que a maior idade nas nomeações se relacione com uma mudança profunda na economia americana das últimas três décadas: uma queda acentuada na criação de emprego por empresas novas e, em paralelo, uma destruição de postos de trabalho associada ao desaparecimento de empresas. Apesar da atenção mediática dedicada às startups, os dados agregados sugerem que são as empresas já estabelecidas que pesam mais nos fluxos do mercado de trabalho, tornando as economias menos dinâmicas.

Talvez o ambiente seja hoje mais complexo e incerto, o que empurra as empresas para CEO mais velhos e com perfis generalistas - e, por sua vez, isso se traduza em menos inovação. A inteligência artificial tenderá a intensificar este movimento: por um lado, reduz o prémio da especialização técnica; por outro, aumenta o valor de competências transversais, aplicáveis a tarefas muito diferentes, em que as máquinas executam mas o humano supervisiona e define a direcção. O que se observa no mercado de CEO pode ser um sinal do que se tornará mais frequente noutras trajectórias profissionais: percursos mais diversos e uma progressão de carreira mais longa ao longo da vida.

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