As unidades públicas de saúde estão a dar resposta a menos utentes - e, quando respondem, fazem-no com mais demora. A atualização oficial de fevereiro indica um agravamento acentuado do estado do Serviço Nacional de Saúde (SNS) face ao mesmo mês do ano anterior: 82% dos hospitais realizaram menos consultas, 87% diminuíram os primeiros atendimentos e 72% fizeram menos cirurgias programadas do que no ano passado, aprofundando a redução de cuidados que já se vinha a sentir desde 2024.
ULS com maiores quebras em consultas e primeiras consultas
No topo das unidades locais de saúde (ULS) com maior diminuição nas consultas de especialidades hospitalares surge Loures-Odivelas. Em termos homólogos, os médicos efetuaram menos 13.329 consultas (menos 30,4%). Nas primeiras consultas hospitalares, o recuo foi de 27,7%.
Ao Expresso, a administração justifica que “os dados atualmente refletidos no Portal da Transparência foram influenciados pela alteração de sistemas de informação hospitalares e das várias aplicações satélite, o que criou dificuldades no registo e contabilização da atividade assistencial”. Acrescenta ainda que, “em vários momentos, foi necessário recorrer a planos de contingência e a registos em papel, pelo que parte da atividade realizada pode não estar ainda totalmente refletida nos dados reportados”.
Cirurgia programada e ambulatório: os hospitais mais penalizados
No que toca à atividade cirúrgica programada, a ULS Médio Ave é a que surge com pior desempenho relativo, ao registar 35,4% abaixo do que tinha feito em 2025. Já em termos absolutos, o maior volume de cirurgias não realizadas concentra-se em Santa Maria, o maior hospital de Lisboa: menos 2846 cirurgias do que no ano anterior, uma redução de 31,6%.
Também no ambulatório Santa Maria aparece entre os resultados mais desfavoráveis, com menos 2033 intervenções (31,2% abaixo), sendo superado em percentagem apenas pelas ULS Médio Tejo, Arco Ribeirinho (Barreiro-Montijo) e Médio Ave, por ordem crescente.
O desempenho fraco de um dos maiores hospitais do país não é novo. Em Santa Maria, de 2024 para 2026, as cirurgias programadas diminuíram 27,5% e as consultas 2,4%. Entre unidades comparáveis - como São José (Lisboa), São João (Porto) e Coimbra - é aquela que assegura menos cuidados, tanto cirúrgicos como em consultas. A administração não prestou esclarecimentos sobre os motivos.
Números do Dashboard do SNS - fevereiro 2026
A leitura global do SNS nos dois primeiros meses do ano, comparando com os dois anos anteriores, é clara: com o atual Governo, o SNS entrou em ‘estado crítico’. Segundo o “Dashboard do SNS - fevereiro 2026”, os cuidados de saúde primários totalizam 5,64 milhões de consultas no acumulado dos dois meses iniciais do ano, menos 6,1% do que em 2025 e menos 5,9% face a 2024 (ver gráficos).
No universo hospitalar, o retrato é apenas ligeiramente menos negativo. Em fevereiro, os especialistas realizaram 2,42 milhões de atendimentos, o que representa menos 3,8% do que no ano passado, embora 0,5% acima de 2024. Ainda assim, o cenário piora nas primeiras consultas hospitalares: 650.288, menos 7,3% e menos 4,7%, respetivamente.
Listas de espera para cirurgia e atrasos além do clinicamente indicado
Nos hospitais, quem necessita de cirurgia está mais prejudicado este ano. As intervenções programadas passaram de 133.349 em 2024 e de 140.833 no ano passado para 130.439 em fevereiro deste ano.
Do lado do acesso, a pressão também aumentou: os inscritos para cirurgia subiram para 273.871 - mais 1,4% face a 2025 e 2,6% face a 2024 - e o tempo de espera agravou-se de forma evidente. Há 84.593 doentes com demora já acima do que é clinicamente indicado, um agravamento expressivo, tendo em conta que em fevereiro dos dois anos anteriores o número foi de 73.486 (menos 15%) e 75.824 (menos 11,6%).
Mais profissionais e mais custos, mas menos atividade
A diminuição de cuidados tem um lado paradoxal: o SNS dispõe agora de mais profissionais e recorre a mais trabalho extraordinário. Os recursos humanos ascendem a 157.094 pessoas, mais 2,3% do que em 2025 e mais 4,1% em comparação com 2024. Contam-se 22.122 médicos e 52.989 enfermeiros, ambos com mais 2,4% face ao ano passado.
Apesar do aumento de efetivos, as horas extraordinárias também cresceram, com destaque para o período noturno. Totalizaram €2,10 milhões, contra €1,94 milhões e €1,91 milhões nos dois anos anteriores. Na prática, o SNS ficou mais caro: os gastos operacionais aumentaram para €2723,6 milhões, mais 39,7% do que em 2024. Em paralelo, cresceram os pagamentos em atraso e a dívida total a fornecedores, para €78,1 milhões no primeiro indicador e €1718,9 milhões no total.
Nos centros de saúde, registam-se melhorias muito ligeiras: 85,1% dos utentes têm médico atribuído, mais 0,1% do que em 2025 e menos 0,1% do que em 2024. As áreas com evolução favorável são hoje mais restritas, verificando-se melhorias, por exemplo, na afluência às Urgências ou na despesa com tarefeiros e suplementos.
Gestores culpam Governo
A Direção Executiva do SNS não respondeu ao Expresso, e o gabinete ministerial reiterou as explicações apresentadas por Ana Paula Martins no Parlamento no final de abril, começando por afirmar que é “fundamental não retirar conclusões apressadas”. A ministra defendeu então que a redução nos cuidados de saúde primários “deve-se em grande medida a fatores concretos: menos dias úteis e condições climatéricas adversas no primeiro trimestre”. Quanto aos hospitais, acrescentou que “também os dados exigem leitura responsável, houve uma redução pontual (...) explicada pelo impacto do pico da gripe e pela suspensão da atividade programada”.
No entanto, os dados do Instituto Ricardo Jorge indicam que a 18 de janeiro a atividade gripal estava em “tendência decrescente” e que, na primeira semana de fevereiro, se tratava já de uma “atividade não epidémica”.
“É altamente preocupante e as causas são todas responsabilidade do governo”
Líder dos gestores do SNS
A ministra traçou ainda o seu prognóstico para o SNS: “Quando comparamos com 2023, temos mais consultas, mais cirurgias e maior capacidade de resposta global e isto demonstra que o sistema não está a recuar, está a adaptar-se.” Do lado dos gestores das ULS, a leitura é oposta. “A situação é altamente preocupante. Temos mais médicos, mais médicos em dedicação, mais enfermeiros, mais trabalho extraordinário, mais 25% nas remunerações e um ano depois temos uma redução na atividade. É preciso explicar o que está a acontecer”, afirma Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares.
Enquanto o Governo não apresenta explicações, Xavier Barreto descreve o que, na sua perspetiva, está a falhar: “Não existem objetivos definidos, as equipas não estão mobilizadas, não temos os termos de contratualização nem os contratos-programa assinados, não sabemos quais são os objetivos definidos, não há gestão intermédia, temos administradores que nunca geriram uma unidade de saúde, investimento abaixo do necessário, camas bloqueadas. Tudo questões da responsabilidade do Governo.”
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