Saltar para o conteúdo

LX90: um livro-museu de Lisboa nos anos 90

Pessoa a folhear livro de fotografias numa mesa com fotos e postais espalhados, parede com fotos ao fundo.

Um quarto volume que transforma o livro em museu

De dez em dez anos, muda-se de vida. “LX90” é o quarto tomo de uma coleção em que uma jornalista e um designer convertem o formato livro numa espécie de museu portátil. Mais do que para ser lido de fio a pavio, pede para ser observado com vagar, folha a folha, como se cada página fosse uma sala de uma visita que só ganha sentido quando se percorre o conjunto.

“LX90” e a memória de Lisboa nos anos 90

Em cada página fica o travo de algo que a passagem do tempo apagou: coisas que foram relevantes e, de repente, deixaram de o ser. Elementos que preencheram o quotidiano e as notícias até a vida dar o salto e seguir em frente. Ainda assim, este retorno fixa uma cidade e, ao mesmo tempo, acolhe um país inteiro. Embora muito do que surge no livro tenha Lisboa como marca e respiração, uma parte substancial do que ali se reúne também pertenceu a um Portugal mais amplo. São referências que funcionam como horizonte e chão comum - e, por isso, é natural que tenham atravessado igualmente a capital: os Excesso, os anúncios de televisão, a música pimba, a polémica Saramago e Sousa Lara.

259 páginas em fragmentos: arquivo, exposição, instalação

O material é abundante - exposto ao longo de 259 páginas - e, por isso, algumas entradas parecem hoje longínquas, enquanto outras continuam perto, ao alcance de um olhar nostálgico ou simplesmente desarmado. Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes voltam a provar que o objeto livro, quando aliado a uma procura minuciosa do território deixado para trás, atua como máquina do tempo: conserva um lugar que já passou - mesmo que ainda permaneça, noutras formas e noutros sons, a levantar novo património cultural, social e político. Esta oscilação está entre os traços mais divertidos do livro, porque obriga quem o folheia a pôr-se na crista da vaga da voragem do tempo, que tanto avança como repete, tanto ultrapassa como reitera.

“LX90”, tal como os seus irmãos mais novos, assume-se assim como objeto híbrido. Parece uma exposição, ou um arquivo: um museu vasto que cabe numa estante. Não segue uma narrativa convencional - não começa em janeiro do primeiro ano nem fecha em dezembro do décimo -; em vez disso, reúne fragmentos que, colocados lado a lado, constroem (ou reativam) uma memória coletiva. O grafismo aproxima-o de uma instalação, e a escrita não se demora em contemplações: é texto direto, “em osso”. Nesse sentido, o design integra a própria linguagem, em vez de funcionar apenas como suporte; a leitura faz-se por camadas, saltando entre palavras, imagem e, muitas vezes, a memória pessoal de quem vê.

Esse pacto com o leitor permite, de resto, dispensar grandes explicações ou uma “cola” que una tudo. O livro organiza-se como constelação - um dos seus trunfos centrais - e não precisa de conduzir o percurso. Quem atravessou a década reconhece de imediato; quem não a viveu pode sentir estranheza ou confirmar um passado que não presenciou, mas de que leu ou ouviu falar e que aqui aparece compilado. Num caso e noutro, folhear equivale a mexer num arquivo de um tempo simultaneamente próximo e inacessível - tal como a cidade.

É nessa fenda que o livro se mantém em equilíbrio, colocando no mesmo plano episódios fugazes e marcas estruturais: de um anúncio televisivo em que uma personagem dizia “'tou xim” ao centro comercial Colombo como epicentro do consumismo na capital do país. Isto acontece porque “LX90” não se propõe explicar os anos 90; prefere mostrá-los, quase sem filtro, em mosaicos que formam um todo e que acabam também por funcionar como tratado sobre a memória - irregular em vez de linear e, muitas vezes, pouco obediente a hierarquias eruditas.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário