O Banco Central Europeu (BCE) optou, esta quinta-feira, por não alterar as taxas de juro, mantendo a taxa de referência nos 2%. A deliberação voltou a ser unânime, embora Christine Lagarde tenha revelado, na conferência de imprensa de apresentação das conclusões da reunião de política monetária, que a possibilidade de um aumento chegou a ser ponderada, com opiniões divergentes.
A presidente do banco central reconheceu que “a decisão se baseou em dados ainda insuficientes, mas que após análise de várias opções, incluindo mesmo uma subida de juros, acabou por ser tomada por unanimidade”, nota Paulo Monteiro Rosa, coordenador do Gabinete de Estudos Económicos do Banco Carregosa.
Há sinais de ‘desvio’ do cenário base do BCE
Mesmo perante sinais desfavoráveis associados à estratégia de guerra no Médio Oriente atribuída à Administração Trump, em plena madrugada, e depois de números negativos divulgados pelo Eurostat - inflação mais elevada em abril e perda de ritmo no primeiro trimestre na área do euro -, a instituição liderada por Christine Lagarde mantém a leitura de que "permanece bem posicionado para navegar a atual incerteza".
Ainda assim, Lagarde confirmou que o enquadramento macroeconómico da zona euro está “a desviar-se do cenário base” apresentado em março. Nessa altura, o BCE apontava para um crescimento de 0,9% em 2026 e para uma inflação de 2,6%. Entretanto, foram mostrados dois cenários alternativos, mais negativos, em que o crescimento não ultrapassa 0,4% e a inflação sobe para mais de 4%. Sem quantificar a amplitude do ‘desvio’, a presidente remeteu essa avaliação para a próxima reunião, nos dias 10 e 11 de junho, quando serão divulgadas novas projeções e reavaliados os cenários.
Apesar de o BCE insistir que não se compromete antecipadamente com os próximos passos, Lagarde também não excluiu um aumento das taxas em junho. Lembrou que “Há seis semanas para recolher dados” e considerou que então será “o momento certo” para a reflexão. Nos futuros, reforçaram-se as probabilidades de uma subida já em junho (para 2,25%) e, depois, em julho e setembro, com mais duas subidas de 25 pontos-base (um quarto de ponto percentual). Paulo Monteiro Rosa salientou que, no mercado monetário, a probabilidade de subida em junho já ronda os 90%.
Erros do passado recordados
O jornal britânico Financial Times confrontou a presidente do BCE com o histórico de decisões que, segundo vários analistas, foram interpretadas como erros, quer por ação precipitada, quer por reação tardia.
Um dos episódios mais citados foi a decisão do BCE, então sob Jean-Claude Trichet, de aumentar as taxas em abril e julho de 2011, medida que acabou por agravar a crise das dívidas soberanas.
Já no caso de Lagarde, alguns críticos consideram que o início do ciclo de subidas só em julho de 2022 foi tardio, numa altura em que a inflação na zona euro já atingia 8,6%.
“Estaremos atentos nas próximas seis semanas”, assegurou a presidente do BCE. "Não queremos correr o risco de agir cedo demais, como fizemos em 2011, ou um pouco tarde demais, como em 2022", acrescentou.
"Não queremos correr o risco de agir cedo demais, como fizemos em 2011, ou um pouco tarde demais, como em 2022", disse Christine Lagarde na conferência de imprensa desta quinta-feira
Inflação em 3% e crescimento mais fraco
A reunião do BCE, em Frankfurt, decorreu sob o impacto de notícias negativas, tanto no plano interno como no externo (com cenários de guerra em avaliação na Casa Branca).
No plano interno, os dados do Eurostat foram pouco animadores. A economia da zona euro desacelerou para 0,8% no primeiro trimestre deste ano e a inflação em abril subiu para 3%, o nível mais elevado desde setembro de 2023. Seis países da moeda única registam inflação acima de 4%. Em Portugal, a inflação avançou para 3,4%, de acordo com o INE, e para 3,3% na métrica do Eurostat (Índice Harmonizado dos Preços no Consumidor), que permite comparações dentro da União Europeia. O valor português está acima da média da área do euro; ainda assim, em crescimento, Portugal figura entre as três economias com melhor desempenho na zona euro, ao lado de Espanha e Lituânia, com taxas superiores a 2%. Todas estas variações são homólogas, isto é, face ao mesmo período do ano anterior.
No comunicado divulgado esta quinta-feira, o BCE admitiu que “se intensificaram os riscos em sentido ascendente para a inflação e em sentido descendente para o crescimento”. Acrescentou ainda que, “quanto mais tempo durar a guerra e os preços dos produtos energéticos se mantiverem elevados, mais forte será o provável impacto na inflação em geral e na economia”. Christine Lagarde destacou que a energia é, neste momento, o principal motor da inflação, embora ainda não se vejam efeitos secundários indiretos, como, por exemplo, um aumento de salários.
Uma inflação a subir e um crescimento a perder força colocam um problema difícil ao BCE: a inflação empurra para um aperto monetário (juros mais altos), enquanto a estagnação pressionaria para prolongar a pausa nos 2% ou até regressar aos cortes. A presidente rejeitou, porém, que o banco central esteja já perante esse cenário. A economia da zona euro não está em estagnação - apesar de ter crescido apenas 0,1% entre o último trimestre de 2025 e os primeiros três meses de 2026 - e, segundo Lagarde, também não segue rumo à estagflação (estagnação com inflação elevada ao mesmo tempo), fenómeno que associou à memória histórica dos anos 70 do século XX. Ainda assim, garantiu que o BCE “observa ambas as variáveis”.
Para já, os futuros de taxas apontam para três subidas em junho (na próxima reunião), em julho e em setembro, levando a taxa de referência para 2,75% no final do ano. A pressão inflacionista - especialmente a energia, que subiu 10,9% em abril - reforça o argumento a favor de aumentos de juros.
Powell assegurou que ficará no conselho de governadores da Fed durante "um período determinado" que poderá ir até ao final do mandato em janeiro de 2028, até que o assunto de que é acusado fique definitivamente enterrado.
Duas ‘bombas’ na última reunião chefiada por Powell
A Reserva Federal (Fed), o banco central dos Estados Unidos, decidiu na quarta-feira manter as taxas inalteradas no intervalo entre 3,5% e 3,75%, prolongando uma pausa em vigor desde dezembro do ano passado - um desfecho amplamente antecipado. De resto, os mercados de futuros não apontam para qualquer alteração das taxas nos EUA até ao fim do ano, apesar da intenção do próximo presidente, Kevin Warsh, de promover uma “mudança de regime” dentro do banco central.
O inesperado foi a votação ter terminado com 8 votos a favor e 4 contra. A primeira ‘bomba’ foi, na prática, o início de consolidação de uma terceira tendência no conselho de governadores, com três presidentes de bancos regionais da Fed a rejeitarem a decisão maioritária, por entenderem que a Fed não deveria deixar em aberto a hipótese de cortes, como pretende Stephen Miran, presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, indicado por Trump. Miran voltou a votar a favor de um corte de juros (25 pontos-base, um quarto de ponto percentual). A dissidência de Beth Hammack, presidente da Fed de Cleveland, Neel Kashkari, presidente da Fed de Minneapolis, e Lorie Logan, presidente da Fed de Dallas, é considerada premonitória por Peter Cohan, professor do Babson College, em Boston, e por Pedro Amaral, professor de economia na California State University, em Fullerton, antigo quadro do banco regional da Fed em Cleveland durante oito anos, ouvidos pelo Expresso. Warsh e Miran, assim, terão maiores dificuldades para cumprir o desejo de Trump de um percurso de cortes.
O segundo fator de agitação prendeu-se com o facto de esta ter sido a última reunião de política monetária presidida por Jerome Powell, cujo mandato à frente da instituição termina a 15 de maio. O sucessor, Kevin Warsh - escolhido por Donald Trump - já foi confirmado, por margem mínima, pela Comissão Bancária do Senado, com 13 votos a favor e 11 contra: todos os senadores republicanos apoiaram e os democratas votaram contra, após o republicano Thom Tillis retirar a sua objeção, enquanto o Departamento de Justiça não desse por encerrada a investigação conduzida pela procuradora Jeanine Pirro às obras num dos edifícios da Fed, investigação que teve Powell como alvo. É esperado que o Senado confirme Warsh a tempo de este presidir à próxima reunião de política monetária, a meio de junho, quando deverão ser divulgadas novas projeções macroeconómicas e expectativas para os juros.
Ainda assim, Powell “não parece ter ficado convencido com a declaração do Departamento de Justiça, porque este logo a seguir ressalvou que poderia reabrir o processo”, sublinha Pedro Anaral, que destaca a ‘bomba’ lançada por Powell na conferência de imprensa ao assegurar que ficará no conselho de governadores durante "um período determinado" que poderá ir até ao final desse mandato em janeiro de 2028, até que o assunto de que é acusado fique definitivamente enterrado.
Quem reagiu de forma particularmente crítica foi o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que classificou a atitude como uma "ruptura com a tradição histórica" da instituição e um "insulto" aos novos nomeados por Trump.
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