Debate sobre voos noturnos no helitransporte do INEM
Ainda não passou um ano desde que o Governo entregou à operadora maltês Gulf Med o serviço de helitransporte de doentes e, apesar disso, já arrancou a conversa sobre o modelo operacional que deverá acompanhar a refundação do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). Entre as primeiras mudanças em cima da mesa está a possibilidade de terminar com os voos de socorro durante a noite, restringindo a operação dos meios aéreos a turnos diários de 12 horas - ou menos. Em declarações ao Expresso, o presidente do INEM, Luís Cabral, sustenta que “é uma discussão que o país precisa de iniciar, porque está a gastar-se muito para uma atividade noturna reduzida”.
Segundo dados do INEM, desde que os quatro helicópteros da Gulf Med começaram a operar 24 horas por dia, em outubro do ano passado, foram acionados 38 vezes no período noturno, entre as 20h e as 8h. Essas partidas - a partir das bases de Macedo de Cavaleiros, Viseu, Évora e Loulé - correspondem a 16% do total de 232 voos ao serviço do INEM até março.
Nos primeiros três meses do ano, o maior número de descolagens noturnas (11) aconteceu nas bases de Viseu e de Évora. Em Loulé (Algarve) registaram-se nove acionamentos e em Macedo de Cavaleiros sete. Na prática, isto significa que cada aeronave passou a maior fatia das noites sem levantar voo. Em 2024, os registos já apontavam para a mesma utilização pontual: somaram-se, ao longo dos 12 meses, 132 saídas entre as 20h e as 8h, o equivalente a 14% dos 943 voos de socorro.
A alternativa terrestre: VMER e papel de redundância dos helicópteros
Caso deixe de existir helitransporte de doentes depois do pôr do sol, a resposta passará a assentar sobretudo no dispositivo terrestre. “Temos 44 viaturas médicas de emergência e reanimação (VMER) [as viaturas rápidas com médico e enfermeiro] e praticamente em todo o país chegam mais depressa do que o helicóptero. Os ‘hélis’ existem para quando não há disponibilidade das VMER ou nas situações onde falta acesso. São uma redundância”, explica Luís Cabral.
“Está a gastar-se muito para uma atividade noturna reduzida”
Luís Cabral
Presidente do INEM
Bases hospitalares e equipas hiperespecializadas
A proposta defendida pelo presidente do INEM já foi transmitida à ministra da Saúde, e Ana Paula Martins pretende que o tema entre formalmente em discussão. Na semana passada, no Parlamento, durante a Comissão Parlamentar de Inquérito ao INEM, a ministra trouxe o assunto à conversa, mas sem o detalhar. Falou em helicópteros de nível A e B e em bases logísticas de retaguarda, o que acabou por gerar entropia na comunicação e desconforto entre as equipas.
Em termos práticos, além do fim das missões noturnas, está a ser desenhada uma organização com bases hospitalares destinadas ao helitransporte de equipas muito diferenciadas e, paralelamente, a utilização de aeronaves militares no restante socorro e na transferência de doentes entre unidades.
No modelo projetado, a intenção é instalar bases em hospitais polivalentes - São João (Porto), Coimbra, Santa Maria (Lisboa) e Faro - com equipas hiperespecializadas, capazes de chegar ao doente e iniciar de imediato procedimentos complexos, como ECMO - técnica de circulação externa ao corpo que permite preservar coração e pulmões em caso de falência. Este helitransporte deverá ficar assegurado por ‘hélis’ ligeiros, com elevada prontidão e níveis de operacionalidade semelhantes aos atualmente garantidos pela Gulf Med.
Nas bases hoje em funcionamento poderão permanecer outros meios aéreos. A governante referiu o apoio logístico ou de retaguarda, sobretudo em cenários de multivítimas ou de catástrofe, mas o desenho em estudo é mais amplo: inclui o socorro atual, pré e inter-hospitalar, e não exclui a eventual mudança de localização de alguns meios. Nesse enquadramento, os Black Hawks da Força Aérea poderão passar a assegurar as missões que hoje estão a cargo da Gulf Med, ficando um operador privado com as futuras missões de elite - com médicos nos serviços que embarcam mediante chamada, à semelhança das equipas de transplantação.
Black Hawks da FAP chegam em agosto
O Expresso questionou o Ministério da Defesa sobre quando serão entregues os quatro helicópteros de fabrico norte-americano e qual o plano de atividade, mas a resposta foi breve. “O contrato para os UH60 FAP/Emergência Médica foi assinado com a Ace Aeronautics, por um montante inferior a €32 milhões, financiado através do PRR, e o prazo-limite de entrega é 31 de agosto.”
“Temos de pensar num modelo para um contexto onde existe um novo hospital em Lisboa (Oriental), melhores infraestruturas nos heliportos e quatro Black Hawks da Força Aérea”, enquadra o presidente do INEM. Quanto ao motivo da urgência: “O concurso para 2030 tem de começar a ser preparado no próximo ano, já com um novo conceito. Tudo tem de estar fechado em setembro de 2029 para entrar em vigor em junho de 2030.” Até lá, “não está prevista qualquer alteração ao modelo operacional em funcionamento”.
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