“Quando pensamos em ter filhos, pensamos sempre em dar-lhes o melhor e não é isso que sinto quando olho para o futuro”. Catarina Mota ainda encara a ideia de formar família “de forma distante”, mas não tem dúvidas de que o “peso” das alterações climáticas vai influenciar essa escolha.
“Até que idade poderá viver um filho que tenha nos dias de hoje? Será que a zona onde vivemos continuará habitável daqui a algumas décadas?”. São perguntas que descreve como “difíceis” e para as quais, diz, “não há respostas claras”. E “isso”, admite, “pesa”.
Em Portugal, quatro em cada dez jovens mostram hesitação em ter filhos devido às alterações climáticas, segundo o estudo “Vozes dos jovens sobre ansiedade climática, traição governamental e lesão moral: um fenómeno global”, publicado em 2021 na revista Lancet Planetary Health.
Catarina assume que “será uma decisão muito mais ponderada do que seria noutras circunstâncias”. “O mundo está a mudar rapidamente e educar uma criança neste contexto levanta muitas questões, não é uma decisão leve”, sublinha.
“Há uma sensação constante de instabilidade”
O “verdadeiro choque de realidade” chegou com os incêndios de 2017 na zona de Leiria, onde vive. Foi aí que, conta, percebeu “pela primeira vez, a dimensão real do problema [ambiental] e como somos afetados diretamente”. A partir desse momento, passou a integrar o grupo de seis jovens que avançou com uma acusação contra 32 Estados europeus, por alegada falha na proteção do direito humano a um ambiente saudável, junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.
Numa nota de apresentação sobre Catarina, divulgada no website do projeto liderado pela Rede Global de Ação Legal (GLAN), já se lia que estava “profundamente com o seu futuro e com o futuro da família que espera vir a constituir um dia”.
O que mais a inquieta, explica agora ao Expresso, “era, e continua a ser, o desconhecido”. “Há uma sensação constante de instabilidade. Por exemplo, no início deste ano tivemos a Tempestade Kristin, algo que nunca tinha acontecido daquela forma com tamanha intensidade, a verdade é que acredito que episódios destes vão tornar-se mais frequentes no futuro”, relata.
O mais recente relatório quinquenal da Agência Europeia do Ambiente (AEA) sobre o estado do ambiente coloca Portugal entre os países do sul da Europa mais expostos e vulneráveis às alterações climáticas.
Subsistência da família, sentimentos ambientais e políticos e visões ambientalistas
A dúvida sobre o que o futuro reserva a uma criança é apontada como um dos fatores explicativos numa revisão sistemática publicada na revista científica Plos Climate, ao analisar a ligação entre preocupações com a crise climática e a intenção de ter menos filhos - ou de não ter.
O mesmo trabalho refere ainda outros elementos que alimentam esta relação: a capacidade de garantir a subsistência da família, sentimentos ambientais e políticos e visões ambientalistas focadas na sobrepopulação e no consumo excessivo. No debate sobre como responder às alterações climáticas, a questão da população permanece particularmente controversa.
“Será egoísta trazer mais uma criança para este mundo?”
Mourana Monteiro chegou a perguntar a si própria se seria “egoísta e até injusto trazer mais uma criança para este mundo”. Questionava-se sobre “que condições teria ela para viver com dignidade”.
“Um dos meus sonhos sempre foi ser mãe”, partilha a jovem de Palmela. No entanto, a certa altura, às “não recentes preocupações financeiras e relacionais” juntaram-se receios ambientais. As incertezas apareceram e começaram a ter efeitos na forma como se via e se relacionava, interferindo até com a “perspetiva conjunta em relação ao futuro” que existia no seu relacionamento.
Agora com 29 anos, Mourana diz que a hesitação assentava em “assunções erradas”: “a sobrepopulação, a culpa individual ou a pegada de carbono”. A vontade de ser mãe, afirma, “foi restabelecida”, mas apenas depois de um “processo” em que conseguiu “desvendar as causas, os processos e as consequências desses fenómenos”. Esse percurso levou-a também a orientar a ação ambiental para a “influência” sobre a política nesta área.
O medo crónico de catástrofe ambiental
Formada em Psicologia e em especialização em Neurociências Cognitivas e Neuropsicologia, Mourana reconhece hoje que a indecisão em ter filhos por razões ambientais tinha camadas mais profundas. Estava a lidar com ecoansiedade - o “medo crónico de catástrofe ambiental”, definição usada pela American Psychological Association (APA).
“Foi sendo gerada em mim uma quase-obsessão com a temática das alterações climáticas, estava constantemente a ler artigos e a ver vídeos sobre o assunto, não conseguia deixar de pensar nisso”, descreve.
“Mudei tudo o que conseguia mudar: disse adeus aos produtos descartáveis e a tudo o que provinha de origem animal, diminui banhos, usava o carro só para o estritamente necessário e deixei de consumir produtos fora de casa que implicam embalagens desnecessárias. Mas nada parecia bom o suficiente”, recorda.
Pelo caminho, sentiu “insónias” e “pesadelos”, notou “alterações no apetite, humor e irritabilidade” e percebeu “diferenças nas capacidades cognitivas”. Os pensamentos sobre a família que desejava construir faziam parte das dúvidas que a ocupavam e lhe dispersavam a atenção.
Ecoansiedade pode constituir um determinante
A investigação académica tem vindo a reforçar a associação entre níveis mais elevados de ecoansiedade e a intenção de não ter filhos - ou de ter menos - por motivos ambientais, com evidência particular no contexto português.
Resultados preliminares de um estudo com adolescentes da Área Metropolitana do Porto, com idades entre os 16 e os 18 anos, indicam que os jovens que invocam razões ambientais para não quererem ter filhos “apresentam uma mediana de ecoansiedade cerca de três vezes superior” à registada entre quem aponta outros motivos para não ter filhos e entre quem pretende ter filhos.
Os dados, ainda por publicar, são avançados ao Expresso por Ana Isabel Ribeiro, geógrafa da saúde e epidemiologista, integrante da equipa que realiza a avaliação centrada na ecoansiedade no âmbito do estudo de coorte Geração XXI, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP). “Os resultados sugerem que a ecoansiedade pode constituir um determinante relevante nas intenções reprodutivas”, afirma.
Mudanças nos padrões reprodutivos
“A médio e longo prazo”, observa Ana Isabel Ribeiro, “se as intenções se traduzirem em comportamentos reais, poderão ocorrer mudanças nos padrões reprodutivos, como o adiamento da parentalidade ou a redução do número de filhos desejados”.
“Isso poderá contribuir para taxas de natalidade ainda mais baixas, com possíveis impactos na estrutura etária da população e no equilíbrio entre gerações”, acrescenta. Lembra que o número médio de filhos por mulher já está abaixo do limiar de substituição de gerações na Europa - e também em Portugal, onde, segundo o INE, em 2024 o indicador era de 1,4 filhos por mulher.
A investigadora pede “cautela” nas projeções, mas deixa um aviso: com o aumento da frequência e intensidade de fenómenos climáticos extremos, em simultâneo com outros fatores sociais e económicos - como dificuldades no acesso à habitação, inflação e precariedade laboral - pode formar-se uma “sinergia entre preocupações climáticas e constrangimentos estruturais”.
Consequências psicológicas
Mourana Monteiro, que integra o grupo EcoPsi dedicado à promoção da saúde mental no contexto das alterações climáticas, destaca a ligação destas preocupações a “consequências psicológicas associadas à incongruência entre as expectativas e perspetivas futuras e as evidências científicas e os cenários ecológicos previstos”. "Falamos de sentimentos de tristeza, desesperança, ansiedade e raiva, dificuldades académicas e laborais, isolamento social”, enumera.
Ao mesmo tempo, sublinha que “devemos ter cautela em patologizar a hesitação na tomada de decisão reprodutiva, e procurar reconhecer estas experiências emocionais como reações naturais e válidas”.
A discussão é paralela quando o tema é a ecoansiedade. “Não existe consenso na comunidade científica, académica ou clínica” quanto a rotulá-la como “uma perturbação mental”, explica.
Por um lado, reconhece que “a classificação é necessária para o devido encaminhamento para tratamento psiquiátrico ou psicoterapêutico”. Por outro, lembra que, nas Teorias de Perturbações de Ansiedade, surgem critérios ligados a um medo excessivo e desproporcional perante um objeto que não constitui um perigo real e iminente. “As alterações climáticas não são uma ameaça potencial ou hipotética, mas sim um risco robustamente corroborado e a reação de medo é totalmente justificada”, defende.
Contribuem para a ecoansiedade fatores psicológicos, sociais e contextuais
As conclusões já publicadas do estudo Coorte Geração XXI sobre os fatores que contribuem para a ecoansiedade mostram, segundo Ana Isabel Ribeiro, que “a ecoansiedade não é apenas uma questão individual, mas resulta da interação entre fatores psicológicos, sociais e contextuais”.
Entre as variáveis com maior destaque surgem o sexo, com as raparigas a apresentarem uma probabilidade mais de 2,5 vezes superior de reportar ecoansiedade, bem como o estado geral de saúde mental, as fontes de informação utilizadas e fatores socioeconómicos.
Tendo por base estes resultados, a investigadora salienta a importância de “promover uma comunicação equilibrada e realista sobre as alterações climáticas”, “reforçar a literacia ambiental e emocional nas escolas” e “promover o envolvimento ativo dos jovens em ações ambientais”.
Além disso, aponta como essencial “garantir acesso a apoio psicológico quando necessário” e “reduzir desigualdades sociais e económicas, uma vez que estas estão associadas a maior vulnerabilidade aos riscos climáticos e a problemas de saúde em geral, incluindo problemas relacionados com a saúde mental e a ecoansiedade”.
Promoção da saúde psicológica e social
Na perspetiva de Mourana Monteiro, “a melhor aposta na prevenção será sempre a promoção da saúde psicológica e social”. Para a jovem, o foco não está tanto em evitar por completo a ecoansiedade, mas em aprender “como acolhê-la, evitando desenvolver estados extremos de mal-estar, preocupação, tristeza ou apatia”.
Quanto à mitigação, explica que implica a pessoa sentir que tem capacidade “para lidar com o desafio imposto”. “Essa mudança pode acontecer através de mudanças no estilo de vida, envolvimento no voluntariado, associativismo, ativismo, política formal, ou grupos de apoio específicos, mas pode também ser necessária intervenção clínica especializada para tratar sintomas mais graves”, detalha.
Foi esse percurso de mitigação - que viveu na primeira pessoa - que lhe devolveu o sonho da maternidade, embora “se mantenham as preocupações e a apreensão em relação “ao estado do Mundo” e ao que “o futuro reserva””.
Com inquietações próximas, Catarina Mota também afirma não ter posto de parte a possibilidade de vir a ter uma família e mantém uma convicção: “se esse momento chegar, a única certeza que tenho é que vou tentar educar com mais consciência, mais responsabilidade”.
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