O acesso ao mercado de trabalho está a mudar: o diploma vai perdendo centralidade e, em paralelo, as competências surgem cada vez mais como fator decisivo nos processos de recrutamento. Esta é uma tendência global que, de acordo com o estudo mais recente da consultora de recrutamento Michael Page, também se confirma em Portugal.
A análise assenta em quase 31 mil questionários recolhidos a nível mundial entre agosto de 2025 e fevereiro deste ano. Do total, 438 respostas foram obtidas em Portugal, onde uma maioria expressiva (85,4%) entende que, na avaliação feita pelos recrutadores, as competências contam mais do que um diploma académico - uma perceção transversal ao género, à idade, à região e ao grau de experiência.
Entre os 25 aos 29 anos, esta convicção é ainda mais forte (89,2%). Por áreas, destaca-se a gestão (mais de 90%) e, de forma unânime, a área jurídica (100%). Considerando a categoria profissional, são os diretores quem mais atribui primazia às competências (mais de 87%).
Competências em vez de diploma: o retrato da Michael Page em Portugal
Na direção oposta, apenas 9,6% dos inquiridos indicam que a formação académica é o critério mais valorizado pelos empregadores. Ainda assim, esta opinião tem mais peso entre os profissionais com mais de 60 anos (quase 19%) e no sector da informática (18,2%), apesar de continuar a representar uma minoria em ambos.
Mesmo dando mais relevância à formação do que outros sectores, os profissionais de informática também admitem que as competências podem colmatar a ausência de um percurso académico. Em Portugal, 80% dos participantes consideram possível esta compensação; e, em áreas como gestão de escritórios, vendas e informática, a percentagem aproxima-se dos 100%. Já no sector financeiro é onde se observa maior ceticismo quanto à capacidade das competências substituírem um diploma.
Quando comparados com a média internacional, os portugueses revelam uma confiança superior no valor das competências. Na nota divulgada com o estudo, a Michael Page refere que, globalmente, 75% dos respondentes acreditam que as competências podem compensar a falta de um diploma académico, sendo esta perceção particularmente frequente em funções administrativas e de gestão de escritórios.
Uma “revolução” no recrutamento
Para Álvaro Fernández, diretor-geral da Michael Page Portugal, o que está a acontecer corresponde a uma “revolução silenciosa”, em que as competências funcionam como “passaporte para a empregabilidade”. “Durante décadas, os diplomas foram considerados a principal porta de entrada para profissões qualificadas, mas hoje a capacidade de demonstrar competências sólidas é vista como determinante para o sucesso profissional”, afirma. Ainda assim, sublinha que esta mudança não está a ser “vivida de forma homogénea”.
Apesar desta evolução, na prática das entrevistas continua a prevalecer a experiência profissional como o elemento mais valorizado no recrutamento. Pelo menos é essa a perceção indicada por 52,3% dos candidatos relativamente ao que é mais destacado nas entrevistas de emprego, e por mais de 60% quando se trata do seu curriculum vitae.
Ainda assim, 78,5% dos participantes reconhecem que a formação académica contribuiu para aceder a melhores oportunidades de trabalho - um valor ligeiramente abaixo da média internacional (80%). Em Portugal, esta perceção é mais intensa nos sectores jurídico, financeiro e imobiliário e construção; já a nível internacional sobressaem, além destes, os sectores de recursos humanos e tecnológico.
Formação relevante na mudança de carreira
A formação mantém, contudo, um papel importante, sobretudo para quem pretende reorientar o percurso profissional. A ênfase não recai necessariamente numa licenciatura ou num mestrado, mas antes em cursos de menor duração que permitam desenvolver competências técnicas e emocionionais que, hoje, são mais procuradas.
De acordo com o estudo, aproximadamente 70% dos profissionais inquiridos em todo o mundo (71% em Portugal) dizem ter feito pelo menos um curso nos últimos 12 meses com o objetivo de reforçar competências. Esta tendência é mais marcada entre as mulheres e entre os profissionais mais jovens, tanto no contexto global como no português. Por sector, sobressaem as áreas tecnológica e jurídica (e, em Portugal, também a área da saúde).
Questionados sobre os motivos para investirem em formação, os participantes apontam sobretudo a perspetiva de promoção e a possibilidade de mudança de carreira. Em Portugal, a mudança de carreira foi a razão principal para os profissionais dos sectores jurídico, financeiro, de operações, secretariado e gestão de escritórios terem realizado um curso nos últimos 12 meses. Nas restantes áreas, o desejo predominante foi conseguir uma promoção.
No que toca aos obstáculos, o estudo da Michael Page identifica como principais barreiras à formação a falta de tempo (43,3% dos inquiridos em Portugal) e o custo elevado (16,5%).
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