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No Foro La Toja, Paulo Rangel evita críticas; Paulo Portas e Augusto Santos Silva atacam Trump

Três homens em fato sentados numa conferência com bandeiras e imagem de Donald Trump ao fundo.

Nem à esquerda nem à direita: não é aí que se vê a clivagem. A diferença relevante está entre quem ainda carrega o peso - e as limitações - de ser ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) e quem, já fora do cargo, se sente livre para ser “sincero” e dizer o que pensa.

Foi isso que ficou particularmente visível no Foro La Toja, uma conferência de alto nível - ao estilo de um “Davos Ibérico” - que decorreu esta quarta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. O MNE em funções, Paulo Rangel, falou com cuidado e sem críticas diretas ao aliado norte-americano; já os antigos ministros Paulo Portas e Augusto Santos Silva não pouparam a administração Trump.

Ao longo de uma manhã com intervenções e presenças de figuras de topo - como o ex-presidente do Governo espanhol Mariano Rajoy, o presidente do Conselho Europeu António Costa (por vídeo), o ex-ministro das Finanças Mário Centeno, a ministra espanhola da Defesa Margarita Robles e o Presidente da República António José Seguro - sobressaiu esta tensão entre protagonistas de três partidos diferentes, historicamente alinhados na defesa da relação transatlântica.

Foro La Toja: Paulo Rangel e o vínculo atlântico

Na abertura, Paulo Rangel começou por sublinhar que o mundo se transforma “a uma velocidade vertiginosa”. A conferência, centrada no “vínculo atlântico”, decorria em simultâneo com uma intervenção do embaixador norte-americano na NATO na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

O chefe da diplomacia portuguesa descreveu o momento como “uma mudança de era, uma mudança de tempo, inaugurando uma nova era geopolítica, um novo tempo geopolítico”, associando essa aceleração à sequência de acontecimentos que sintetizou no eixo “Venezuela-Gronelândia-Médio Oriente”, a par da ausência de um desfecho à vista para a guerra na Ucrânia.

Mesmo reconhecendo que, em muitas dessas crises, os EUA e a administração Trump surgem como denominador comum, Rangel evitou leituras de rutura. Considerou que a perceção de a “ideia de um arrefecimento” das relações europeias com os EUA, ou a ideia de “uma tensão intermitente”, não obriga a abandonar a convicção de que o relacionamento entre Portugal e os Estados Unidos tem continuidade, ancorado em razões históricas.

A partir daí, procurou demonstrar que, apesar de uma mudança radical nos EUA e da entrada numa nova era, Portugal mantém a orientação de fundo na relação transatlântica. Para sustentar a ideia de permanência, recuou às raízes da política externa portuguesa - chegando à Idade Média - e evocou mesmo o Ultimato britânico como exemplo de uma variação que não teria quebrado a lógica de aliança. “Essas variações, por vezes perfurantes, da relação atlântica, não puseram, todavia, em causa a sua perenidade”, afirmou, sem trazer para o discurso as consequências internas do Ultimato, nomeadamente a mudança de regime.

Sem apontar o dedo a Washington, Rangel preferiu enquadrar a crise entre Europa e EUA num registo de oportunidade. “Alguns creem ser um paradoxo, mas na verdade é um efeito positivo dessa tensão, ou ao menos um efeito paradoxalmente positivo: o tal arrefecimento obriga a Europa a tomar plena consciência da sua própria responsabilidade”, defendeu. Na sua perspetiva, “Os países europeus”, Estados “de alto desenvolvimento”, possuem capacidade financeira, recursos e massa crítica para tomar em conta da sua defesa, ainda que - por opção geopolítica evidente - o devam fazer no quadro de uma aliança com os parceiros do outro lado do Atlântico.

O ministro recuperou ainda uma ideia que vem repetindo em anos sucessivos: “em 2024, disse que vivíamos um tempo de um mundo em mudança, e em 2025 disse que essa mudança tinha acelerado. Este ano, 2026, verifico algo de mais drástico. A mudança atingiu uma velocidade vertiginosa”. A formulação voltaria a ser citada pouco depois por Paulo Portas.

Por se tratar de um fórum ibérico, Rangel fez questão de marcar distâncias em relação a Espanha, sobretudo quanto à proximidade aos EUA e à NATO (da qual Portugal é membro fundador). Sublinhou o contraste entre o Governo espanhol - com Pedro Sánchez descrito como o principal opositor de Trump na Europa, ao ter fechado a passagem de meios norte-americanos por bases espanholas em direção ao Médio Oriente - e a postura de Luís Montenegro, mais alinhada com os EUA, incluindo as permissões associadas ao uso da Base das Lajes, nos Açores.

Espanha, ONU e o direito internacional

Já perto do encerramento, Margarita Robles, ministra da Defesa de Espanha, foi perentória num ponto que Rangel não destacou: a centralidade das regras internacionais. “Acreditamos firmemente no direito internacional e no direito humanitário e nas organizações internacionais”, afirmou. E trouxe também para a discussão as Nações Unidas, lideradas pelo português António Guterres: “Oxalá o apoio às Nações Unidas possam cada dia reafirmar-se e ser mais fortes”.

A ausência desse enfoque no discurso do MNE português contrastou, igualmente, com a mensagem vídeo enviada por António Costa, presidente do Conselho Europeu. O ex-primeiro-ministro foi direto ao apontar “uma crescente violação da ordem baseada nas regras que vigorava desde o pós-guerra”. Descreveu um contexto em que a força se sobrepõe à lei e onde “o direito internacional é frequentemente ignorado, onde grandes potências violam a paz e perturbam o comércio internacional” - uma referência com leitura possível tanto para a Rússia como para os Estados Unidos.

Num registo cuidadosamente diplomático, e tratando os EUA “com pinças”, Rangel só tangenciou o tema quando sugeriu, para o futuro, uma “nova ordem” que pudesse funcionar como uma “nova ordem” paa o futuro como se fosse “uma espécie de acordo de Helsínquia” - à semelhança do entendimento de 1975 que ajudou a estabilizar a relação com a URSS durante a Guerra Fria -, servindo como “a carta consensual de navegação para as potências envolvidas na época de pós-conflito”.

Ainda assim, o contraste mais marcado acabou por ser o que separou o atual titular dos Negócios Estrangeiros de antigos responsáveis do Palácio das Necessidades.

O desrespeito de Santos Silva pelo secretário-geral da NATO e a descrença de Paulo Portas nos EUA

Entre Paulo Rangel e Paulo Portas houve, pelo menos, um ponto de contacto: a ideia de que “não há paz sem Defesa”. O ex-líder do CDS sustentou que “o maior incentivo à invasão da Ucrânia pelos russos foi a certeza de que não teriam pela frente uma defesa europeia”.

Mas, para sublinhar que o discurso do ministro em exercício não acompanhava a gravidade do momento, Portas ironizou diretamente a intervenção de Rangel: “Eu estava a ouvir o MNE, e pensei o que é que ele diria sobre 2026, a mudança, a aceleração, a gravidade, só faltava o precipício. E nesta matéria, para mim é uma coisa absolutamente evidente”, afirmou.

O antigo vice-primeiro-ministro de Pedro Passos Coelho explicitou aquilo que o ministro em funções não disse: “Prefiro não chegar ao dia em que a Rússia entre, por exemplo, pela Estónia e se faça a pergunta, os Estados Unidos vêm defender o seu aliado Báltico, sim ou não? Como eu não tenho certeza sobre essa resposta, prefiro que ele seja travado na Ucrânia”.

Num painel partilhado com Mariano Rajoy, Portas voltou a distanciar-se do alinhamento público do Governo português e lançou uma observação histórica: “Que eu me lembro é a primeira vez, desde 1917, que temos um Presidente dos Estados Unidos com predileção pela Rússia”. Acrescentou que a “Rússia gostaria era de cansar os europeus” e observou que, na Europa, há “alguns russófilos”.

O tema ecoou no mesmo dia em que o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, é citado pelo jornal “Politico” como tendo defendido o estabelecimento de diálogo com a Rússia, algo que terá causado desconforto entre pares. Por seu lado, Paulo Rangel não referiu a Rússia no discurso e mencionou a Ucrânia apenas uma vez, ao falar do “arrastamento do conflito”.

Augusto Santos Silva foi mais longe do que Portas na crítica política - ainda que ressalvando que falava em nome pessoal e não em representação das instituições de que faz parte (incluindo o Partido Socialista). Defendeu que “A reação da Europa à declaração da atual administração norte-americana devia ser mais forte e a atitude das instituições europeias face aos cidadãos europeus devia ser mais sincera, mais clara, porque só essa sinceridade e clareza é que garantem que as pessoas confiam nos seus dirigentes políticos”, admitindo que, se estivesse a exercer funções, não se expressaria com tamanha frontalidade.

Embora Rangel tenha aludido à Gronelândia de forma indireta - integrada nos fatores de aceleração geoestratégica -, Santos Silva leu a retórica agressiva de Donald Trump como uma rutura profunda entre EUA e Europa e chegou a caracterizar o antigo aliado como potencial potência hostil: “A última grande ameaça que a NATO recebeu foi dos Estados Unidos, que ameaçaram invadir forçadamente um país membro da NATO, a Dinamarca”, afirmou. E acrescentou: “A última vez em que estivemos próximos de ter que ativar o artigo 5º [do tratado da NATO] e assegurar a defesa coletiva de um dos nossos membros foi, no fim do ano passado, perante a ameaça de a Dinamarca ser agredida pelos Estados Unidos. E, portanto, nós não nos devemos esquecer disso porque, em política e em política internacional, as palavras contam muito e os gestos contam muito”.

Quanto à confiança entre aliados, Santos Silva classificou a guerra ao Irão como uma iniciativa unilateral norte-americana que fragiliza a relação transatlântica, por não ter existido o circuito habitual de consultas. Defendeu que isso corrói a própria noção de Aliança Atlântica: “É muito difícil falar de um sistema estável de alianças no qual os aliados, por definição, confiam-nos nos outros quando nenhum dos membros da NATO foi consultado ou sequer informado previamente, da ação militar empreendida pelos Estados Unidos no Irão”. Em sentido oposto, a única referência de Rangel ao Irão foi para assinalar “a resposta iraniana contra todos os vizinhos do Golfo e não só”, sem mencionar o ataque israelo-americano.

E aquilo que Santos Silva dificilmente diria enquanto MNE foi dito, já sem esse constrangimento, sobre Mark Rutte, secretário-geral da NATO, e sobre a Casa Branca: “Não tenho respeito nenhum pelos secretário-geral da NATO, e considero que as palavras e os actos da atual administração norte-americana são uma ameaça à unidade da NATO e até à sobrevivência da NATO”.

Em contraste, Paulo Rangel manteve-se no registo institucional e limitou-se a reiterar a linha oficial: “em qualquer destes conflitos, Portugal apoia sempre a via diplomática”, evitando verbalizar as críticas que se ouviram dos seus antecessores e também da ministra espanhola.

O antigo ministro socialista - muitas vezes visto como realista e adepto da ambiguidade própria da linguagem diplomática quando conduziu a política externa - criticou agora a duplicidade europeia (e, por arrasto, portuguesa) na conjuntura atual. Para o ex-presidente da Assembleia da República, “o evidente duplo padrão, duplo padrão de avaliação que pratica na sua relação com o Israel, na sua relação com a Palestina, na sua relação com os Estados Unidos”, está a ser prejudicial: “Não há prejuízo pior que a Europa tenha estado a experimentar pelo seu comportamento recente, no que diz respeito à sua capacidade de influência geopolítica”.

Para responder à aceleração geoestratégica apontada por Rangel, Paulo Portas defendeu que a Europa deve dotar-se de “uma defesa capaz e suficiente”. Evitou, contudo, a palavra “independente” dos Estados Unidos, por considerar que uma independência militar total “seria muito mais caro e muito mais complexo”, mas insistiu: a Europa não pode precisar de pedir autorização a terceiros para defender os seus interesses”.

Já Santos Silva, crítico da meta de 5% de despesa em defesa imposta por Trump na NATO - e não cumprida por Espanha -, alertou para o impacto nas políticas sociais caso essa fasquia seja levada à letra. Reconheceu as limitações que teria se ainda estivesse em funções: “Se eu tivesse funções públicas, não falaria assim, naturalmente”, admitiu. E defendeu que o debate tem de ser feito também com os cidadãos comuns: “É muito importante que nós falemos também para as pessoas comuns, e há muitos milhões de europeus aflitos com a ideia de que vai haver menos dinheiro para pensões, porque é necessário mais dinheiro para equipamento militar”.

Nas palavras finais, Carlos López Blanco, presidente do Comité Organizador do Fórum La Toja, insistiu na necessidade de reforçar o vínculo atlântico, por ser esta é “uma comunidade de valores”. Ainda será?

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