Por esta altura, torna-se claro que o cinema de Dupieux responde, em termos gerais, a duas vontades paralelas: por um lado, criar pequenas “instalações” surrealistas, auto-suficientes e fechadas sobre si mesmas (como em “Pneu” ou “100% Camurça”); por outro, construir comentários satíricos sobre alguns dos grandes assuntos do momento. É neste segundo caminho que cabem títulos como “Reality”, “O Segundo Acto” (sobre a IA) e, agora, “O Acidente Com o Piano” (sobre a celebridade instantânea na era do TikTok).
A sátira de Dupieux e os temas do momento
“O Acidente Com o Piano” parte de uma premissa que promete olhar, com ironia, para a cultura mediática contemporânea. A ideia é simples: confrontar a lógica da fama rápida e do consumo de imagens com uma protagonista moldada, desde cedo, por essa mesma engrenagem.
Magalie (Magalouche): uma vedeta moldada pela dor
A história acompanha Magalie (também conhecida como Magalouche): uma mulher na casa dos 30 e com mais tiques físicos do que ideias na cabeça (Exarchopoulos) que, ainda adolescente, se tornou uma estrela das redes sociais. O motivo é tão directo quanto perturbador: nos vídeos que publica, explora a sua insensibilidade congénita à dor e submete-se a experiências extremamente dolorosas para qualquer pessoa comum.
Quando o filme começa, vemo-la a esconder-se num chalé de montanha, acompanhada pelo seu assistente pessoal de meia-idade (Commandeur). Ele odeia-a, mas, apesar disso, tolera ser maltratado por ela para não perder o salário.
O telefonema, a chantagem e o “acidente com o piano”
Não demora muito até Magalie receber uma chamada de uma jornalista local (Kiberlain) que garante conhecer o tal “acidente com o piano” a que o título alude - e de que só ficaremos a saber os contornos já com a narrativa a decorrer, a meio da acção. A jornalista avança então com a chantagem: em troca de manter silêncio sobre esse episódio, desconhecido do público e das autoridades, exige a primeira entrevista de sempre da carreira de Magalie.
É aqui que assenta a base de um filme que, sob o pretexto de oferecer uma perspectiva satírica sobre o lado mentecapto da nossa cultura mediática, acaba por se limitar a seguir a mesma lógica que diz criticar.
Caricatura, hipérbole e grotesco como estratégia
Perante a ausência de empatia que atravessa as personagens, Dupieux responde com um ponto de vista que a reproduz (“vejam como elas são más”) e com uma estratégia discursiva apoiada nas mesmas armas do adversário: a caricatura (todas as figuras são traçadas a grosso), a hipérbole (cada situação é empolada até à deformação) e o grotesco.
Não há um plano que se imponha à memória, nem um momento humorístico que surpreenda pela inteligência. Em suma, é um cinema instantâneo que pretende apresentar-se como produto requintado: compre quem quiser.
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