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Dia da Terra: soluções naturais que já travam o clima

Jovem cientista planta muda de árvore num ecossistema de mangue para estudo ambiental.

Todos os anos, quando chega o Dia da Terra, as atenções tendem a virar-se para soluções climáticas de alta tecnologia - máquinas concebidas para retirar carbono do ar, avanços energéticos quase futuristas e experiências ambiciosas de milhares de milhões de dólares.

No entanto, há algo que continua a receber muito menos destaque do que merece: algumas das ferramentas mais eficazes para o clima já existem na própria natureza.

Não dependem de electricidade nem exigem um cientista para as pôr a funcionar. Estão, discretamente, a cumprir a sua função há milhares de anos.

Os mangais armazenam enormes quantidades de carbono

Os mangais capturam e guardam carbono muito mais depressa do que as florestas típicas - a ritmos até 18 vezes superiores. Esse carbono infiltra-se em profundidade nos solos húmidos, onde pode ficar retido durante centenas de anos.

Um estudo recente concluiu também que os solos dos mangais aprisionam uma forma de carbono proveniente de incêndios florestais tão estável que quase não se decompõe. Ou seja, é possível que os mangais estejam a armazenar ainda mais carbono do que os cientistas estimavam até aqui.

Mas o seu efeito não se limita ao carbono. Os mangais funcionam como uma barreira natural contra tempestades e inundações, evitando ao mundo danos avaliados em cerca de $80 billion todos os anos.

Um estudo publicado na revista Nature Communications revelou que proteger mangais suficientes para produzir um impacto climático significativo exigiria apenas um pequeno aumento da área de terra que actualmente já se encontra protegida.

As turfeiras estão a tornar-se menos estáveis

As turfeiras (que incluem pântanos e outras paisagens encharcadas) ocupam apenas três percent da superfície terrestre - e, ainda assim, concentram mais de 30 percent de todo o carbono armazenado no solo.

Trata-se de mais carbono do que o conjunto de todas as florestas da Terra, acumulado ao longo de milhares de anos em plantas que se decompõem lentamente, mas que nunca chegam a degradar-se por completo.

O problema é que as turfeiras estão a perder estabilidade: a subida das temperaturas e as secas prolongadas vão secando estes ecossistemas, aumentando o risco de libertarem reservas gigantescas de carbono.

Em determinados cenários, a seca e o fogo podem libertar rapidamente carbono que esteve armazenado durante séculos.

Um estudo recente da Cornell University apurou que uma única seca severa pode levar as turfeiras a emitir four times mais carbono do que o habitual.

E, como as secas se tornam cada vez mais frequentes, as turfeiras ficam progressivamente mais instáveis - precisamente numa altura em que mais precisamos delas.

Soluções naturais para reduzir emissões

As zonas húmidas cobrem apenas cerca de one percent do planeta, mas absorvem mais de 20 percent do dióxido de carbono removido da atmosfera.

A agricultura também pode ajudar. Com melhores práticas de gestão do solo, as explorações agrícolas poderiam armazenar mais de um mil milhões de toneladas de carbono por ano - e, ao mesmo tempo, reter mais água, ajudando as culturas a resistirem à seca.

Especialistas de organizações como o World Wildlife Fund (WWF) e a The Nature Conservancy concordam num ponto. Proteger e restaurar a natureza poderia assegurar até 37% dos cortes de emissões necessários até 2030.

Apesar de se tratar de uma via comprovada, apenas cerca de 1.5% do financiamento climático é canalizado para soluções baseadas na natureza.

Um relatório da ONU de 2026 sublinha um desequilíbrio gritante na forma como investimos: por cada $1 aplicado na protecção da natureza, aproximadamente $30 são gastos em actividades que a prejudicam.

Ou seja, os sistemas que poderiam ajudar a estabilizar o clima estão a ser minados muito mais depressa do que estão a ser apoiados.

Outro relatório, do Global Center on Adaptation, concluiu que cada $1 investido na natureza pode gerar um retorno entre $2 e $8. Mesmo com estes benefícios, continuamos a investir menos do que seria necessário.

Proteger o que já funciona

Nada disto é ciência recente. Há anos que sabemos que os mangais, as turfeiras e os solos saudáveis são soluções climáticas poderosas.

Não é preciso inventar, testar ou aprovar estas respostas. Elas já existem e já funcionam - o verdadeiro desafio é simplesmente protegê-las.

Este Dia da Terra deixa uma mensagem clara: a solução nem sempre é a mais nova ou a mais cara. Por vezes, é a floresta encharcada que drenámos, a turfeira que soterrámos ou o solo que levámos além do limite.

Proteger zonas húmidas, turfeiras e mangais não é uma ideia abstracta. É uma escolha que se reflecte em políticas, em financiamento e nas decisões do dia-a-dia.

Os alimentos que compramos, as terras que protegemos e as organizações que apoiamos influenciam aquilo que sobrevive.

As soluções climáticas mais importantes não estão fora do nosso alcance - já estão aqui.

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