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Ramón Martínez, ETA e Cándido Azpiazu: o resgate de 1962 e o assassínio de 1980

Fotografia antiga a preto e branco com dois homens junto a um carro, relógio, mapa e jornais sobre mesa de madeira.

Ramón Baglietto Martínez era um biscainho de Bilbau, onde nasceu em janeiro de 1938, em plena Guerra Civil de Espanha. Tinha 24 anos quando, em 21 de setembro de 1962, se encontrava junto à porta do seu estabelecimento de comércio de mobiliário, em Azkoitia (Guipúscoa), no País Basco espanhol, e acabou por assistir - e intervir, por instinto - numa cena aterradora: uma mãe de duas crianças, visivelmente sobrecarregada, avançava com um bebé ao colo e levava a outra criança pela mão.

O rapazito, irrequieto, trazia uma bola apoiada no antebraço; a bola escorregou para a calçada e ele desatou, de repente, a correr para a ir buscar. Nesse exato momento aproximava-se um veículo pesado, que o atropelou mortalmente, atingindo também a mãe quando esta tentou socorrê-lo. Martínez, a escassos metros, viu-se com tempo e presença de espírito para retirar o bebé dos braços da mulher no instante em que ela sucumbia - evitando-lhe, assim, uma morte prematura e violenta. A criança salva daquela tragédia ficou órfã de mãe; chamava-se Cándido Azpiazu e tinha apenas 11 meses.

1962: o acidente que uniu Ramón Martínez e Cándido Azpiazu

Dezoito anos depois desse episódio, Ramón Martínez atravessara já o período de transição democrática em Espanha. Era simpatizante da União do Centro Democrático (UCD) e do seu líder, Adolfo Suárez (1932-2014), escolhido Presidente do Governo nas eleições gerais de junho de 1977. Martínez tinha exercido funções como vereador no Município de Azkoitia - chegando a desempenhar o cargo de vice-presidente municipal - e, à época, também a sua irmã era vereadora pela UCD.

1980: o atentado da ETA que matou Ramón Martínez

Há 46 anos, ao fim do dia 12 de maio de 1980, ao volante do seu automóvel, Ramón Martínez regressava a Azkoitia após mais uma jornada de trabalho no armazém de mobiliário que mantinha em Elgoibar (Guipúscoa). Circulava no Alto de Azkarate quando foi intercetado por um carro onde seguiam dois membros da organização terrorista “Euskadi Ta Askatasuna” (“Pátria Basca e Liberdade” – ETA), que abriram fogo com pistola e metralhadora.

A viatura do industrial basco, já sinistrada, com a vítima gravemente ferida, acabou por se imobilizar depois de embater com violência contra uma árvore. Um dos terroristas saiu do automóvel e executou Ramón Martínez de forma fria e sumária, com um disparo na têmpora. Deixava dois filhos menores, com nove e 13 anos.

A ironia, tão sinistra quanto cruel, impôs-se: a criança que Martínez retirara viva de junto das rodas do camião, 18 anos antes, era agora adulta e assassinava barbaramente o homem que a salvara. O autor do homicídio era Cándido Azpiazu.

Cinco dias depois, em 17 de maio de 1980, os dois autores do ataque foram capturados. Seriam julgados e condenados a 49 anos e dois meses de prisão e, solidariamente, ao pagamento de uma indemnização aos herdeiros da vítima, no montante de 10 milhões de pesetas. Uma década mais tarde, em 1990, seriam colocados em liberdade condicional.

Em 2001, com 41 anos, Azpiazu afirmaria numa entrevista que não era um assassino; disse ter matado Martínez por “necessidade histórica” e por considerar que a vítima “era parte do aparelho opressor” que recaía sobre Euskadi.

Em 2004, Azpiazu instalou um negócio de vidros perto da residência da viúva, Pilar Elías - que viria a ser eleita vereadora pelo Partido Popular - e dos filhos do seu salvador, Ramón Martínez. Assim, o homem resgatado em bebé e as vítimas indiretas do seu crime cruzavam-se diariamente.

A família Martínez acabaria por abdicar daquela morada e, como a indemnização permanecia por pagar, o tribunal competente determinou o leilão da loja especializada em vidros, revertendo a receita a favor dos herdeiros. Num leilão realizado em 2008, a mulher de Azpiazu adquiriu o negócio por um valor muito baixo, mas não procedeu ao pagamento integral da indemnização ainda em dívida.

ETA em Portugal e o fim anunciado em 2018

O ano de 1980 foi o mais mortífero de sempre em termos de operações terroristas da ETA durante o período conhecido em Espanha como “os anos de chumbo”: entre 1978 e 1981, a ETA assassinou 278 pessoas, tendo-se registado 98 vítimas mortais só em 1980.

Ao longo de mais de 42 anos de atentados - desde 1968 até 2010 - e nos seus 60 anos de existência, a organização terrorista abertzale matou 858 pessoas e provocou mais de três mil feridos, como resultado de 3517 ataques. A maioria ocorreu em Espanha, mas também houve ações em França (10 mortos). Ficaram para trás milhares de órfãos, pessoas estropiadas e amputadas, e famílias destroçadas.

Durante quase meio século, a ETA constituiu a principal ameaça à Segurança Nacional do Reino de Espanha. Em atentados levados a cabo em Hegoalde, o País Basco espanhol, entre 1982 e 1996, matou três portugueses e deixou outros tantos feridos.

Portugal também foi palco de presença e atividade da ETA durante décadas, com maior incidência no quinquénio 2007/2011. A organização montou uma infraestrutura na região de Óbidos (2009/2010) dedicada ao fabrico de engenhos explosivos destinados a atentados em Espanha. Em 2007 e 2008, alugou cinco automóveis em território nacional - em geral usados depois em Espanha como viaturas de fuga e de apoio a ataques terroristas - e, em 2009, furtou mais dois na via pública, em Viseu e Castelo Branco. Em janeiro de 2010, um par de membros da ETA oriundos de França e em fuga de Espanha foi capturado na região de Torre de Moncorvo, no nordeste de Portugal (seriam entregues a Espanha em julho e outubro desse ano, prosseguindo o procedimento penal no país vizinho).

Pela primeira e única vez, um membro da organização etnonacionalista e separatista basca foi condenado em Portugal. A sentença foi proferida no Tribunal Judicial das Caldas da Rainha, a 6 de janeiro de 2012, e aplicou uma pena de 12 anos de prisão por crimes de apoio e pertença a organização terrorista, posse de arma proibida (explosivos) para cometer ações terroristas, falsificação, furto de veículo e coação e resistência à autoridade. Cumpriu pena e saiu em liberdade no final de março de 2019, regressando a Euskadi.

Sem cumprir os objetivos definidos na sua fundação, em dezembro de 1958 - a independência e a autodeterminação de Euskal Herria (“o povo e a terra basca”) -, após um primeiro cessar-fogo “geral e verificável pela comunidade internacional” anunciado em janeiro de 2011 e mais tarde confirmado em outubro desse ano, há oito anos, a 3 de maio de 2018, a ETA comunicou ao mundo a sua autoextinção.

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