A erosão da confiança nas vacinas à escala global tem surgido em paralelo com o reaparecimento, em alguns locais do mundo, de doenças que seriam evitáveis - como o sarampo - e com uma memória cada vez menos nítida do peso que tiveram infeções quase eliminadas.
Nesta entrevista, o imunologista Luís Graça regressa ao período exigente da pandemia, desfaz equívocos sobre tecnologias vacinais mais recentes e chama a atenção para riscos muito reais de um retrocesso que deixou de ser apenas teórico.
Confiança nas vacinas e o efeito do seu sucesso
Começo por uma provocação. Enquanto cientista, consegue perceber o movimento antivacinas?
A meu ver, este grande movimento antivacinas nasce, em parte, do enorme êxito da vacinação. Quando alguém toma um medicamento para tratar uma doença, percebe de imediato o benefício, porque vê a melhoria do problema. Com as vacinas acontece o contrário: como evitam a doença, há uma tendência para as pessoas irem esquecendo aquilo que, precisamente, elas impedem.
Portugal é um caso paradigmático: tal como na maioria dos países europeus, teve uma quebra na confiança nas vacinas, mas continua a ser o país da Europa em que mais se confia. Como se explica isto?
Portugal tem, historicamente, elevada cobertura vacinal e um nível alto de confiança na vacinação. Ainda assim, é verdade que há fatores que ajudam a compreender algumas oscilações. Um deles é a chegada de pessoas de países do leste europeu, onde a confiança nas vacinas sempre foi bastante mais baixa. Isto pesa muito porque vivemos num mundo em movimento e, por isso, o efeito da vacinação ultrapassa as fronteiras de cada país.
“Acredito que este grande movimento antivacinas é consequência do enorme sucesso da vacinação”
Sarampo e o regresso de doenças evitáveis
De que forma é que este ceticismo mundial nos pode afetar?
Convém perceber que algumas destas doenças são extremamente transmissíveis. O sarampo é um exemplo claro: os surtos podem começar com facilidade. Em Portugal isso já aconteceu de forma pontual, mas, neste momento, nos Estados Unidos, já se vê uma grande dificuldade em controlar surtos de sarampo. Nos últimos anos, o número de casos cresceu de forma considerável. É triste que exista sofrimento e mortes que seriam completamente evitáveis.
Além dessa, que outras doenças poderão voltar?
Eu diria: todas aquelas para as quais existem vacinas e que conseguimos deixar quase erradicadas. Digo “quase” porque, oficialmente, não erradicámos nenhuma para lá da varíola. Há aqui um paradoxo: ao mesmo tempo que existe uma perceção coletiva de que seria muito positivo prevenir muitas doenças infeciosas para as quais ainda não há vacinas. Pense-se, por exemplo, na malária, que mata muitos milhões de crianças todos anos. Ou no HIV, ou em algumas formas de Hepatite que ainda não têm tratamento.
Um caso concreto é o cancro do colo do útero, que pode ser prevenido de forma bastante eficaz com a vacina contra o HPV. O que se observa agora é que, à medida que a população vacinada vai envelhecendo e entra nas idades em que surgiriam alguns casos, o cancro está a desaparecer. O benefício é evidente - e seria muito lamentável perdê-lo.
Vacinas da covid‑19, mRNA e a ideia de “pressa”
Pode-se dizer que a vacina da covid-19 foi o despontar da desconfiança acerca da vacinação?
Vai ser interessante analisar a pandemia do ponto de vista sociológico. Hoje existe uma perceção generalizada de que, no fim de contas, o SARS-CoV-2 não é assim tão grave - que a doença até tende a ser ligeira. Isso acontece porque todos nós já tivemos exposição ao vírus e desenvolvemos boa imunidade. Mas facilmente se apaga da memória o que se viveu em janeiro de 2021, com filas de ambulâncias à porta dos hospitais.
Como explica que, em 2021, quando surgiram as vacinas de mRNA, estas tenham sido encaradas como algo feito à pressa, quase experimental?
Estas vacinas já vinham a ser investigadas; algumas estavam mesmo em ensaios destinados a outros vírus, incluindo vírus associados a doenças tropicais. E há um aspeto particularmente relevante: permitem uma adaptação muito rápida. Pela forma como são desenhadas, foi possível alterar depressa a sua estrutura para passarem a conferir proteção contra o SARS-CoV-2.
E não foram as únicas a avançar rapidamente. Também as vacinas baseadas em adenovírus - como a vacina da Janssen, da AstraZeneca e, na Rússia, a vacina Sputnik - foram desenvolvidas num curto espaço de tempo. Importa sublinhar que todas passaram por estudos rigorosos antes de serem administradas à população.
Foi co‑presidente do Grupo Consultivo Nacional para a Vacinação contra a covid‑19. Qual foi o maior desafio nesse período?
O maior desafio, sem qualquer dúvida, foi o período de dezembro de 2020 e janeiro de 2021: sabíamos que tínhamos uma estratégia muito eficaz para prevenir doença grave e morte, mas não existiam vacinas suficientes para chegar a toda a população.
“Todas as vacinas [contra a covid] passaram por estudos rigorosos antes de serem administradas à população”
Ensaios clínicos, ética e escrutínio entre cientistas
Dentro do descrédito para com as vacinas, há grupos que acreditam que existem cientistas combinados para fazerem testes nas populações. Como é que responde a isto?
Para se realizar qualquer ensaio [clínico], nos países ocidentais, é obrigatório apresentá-lo a uma comissão de ética independente. É assim que os estudos ficam sujeitos a escrutínio.
O escrutínio também existe pela própria interação entre cientistas?
Sim - e é significativo, sobretudo entre cientistas que trabalham nas mesmas áreas. Já lá vai o tempo em que um cientista, isoladamente, conseguia produzir uma contribuição notável; penso nos tempos da Marie Curie. Hoje, regra geral, os trabalhos envolvem equipas e investigadores de várias instituições, precisamente porque há a noção de que o progresso exige um esforço coletivo.
É a ciência a ensinar-nos também como é que devemos reagir à sociedade?
Num mundo como o atual, com tantas barreiras, ser cientista tem também esse lado privilegiado: ter colegas e amigos em várias partes do mundo. A ciência aproxima as pessoas.
Hesitação vacinal na História e o que pode vir a seguir
Quando é que, na História, também se verificou hesitação vacinal?
Ela apareceu logo após as primeiras vacinas. A primeira foi desenvolvida por [Edward] Jenner, no Reino Unido, contra a varíola. Jenner percebeu que, se inoculássemos pessoas com o vírus que causava a doença nas vacas, pela proximidade entre os vírus, as pessoas ficariam igualmente protegidas. Mesmo assim, na época, houve quem considerasse contranatura injetar em alguém o “material de vaca”.
Por outro lado, a história mostra que normalmente é em contexto de grandes crises, como guerras e pandemias, que a ciência dá grandes saltos, por uma questão de necessidade. Qual é o salto científico que vamos ter a seguir?
É importante não esquecer que as guerras também têm um impacto muito forte nas doenças infeciosas que estavam a desaparecer. Em geral, quando há uma guerra, deixa de existir infraestrutura para vacinar a população. E, rapidamente, voltam a surgir epidemias preveníveis por vacinação - como sarampo, tétano, etc. Essa é uma consequência.
Mas o que eu espero é que este contexto internacional funcione, por si só, como uma vacina social contra o prejuízo que tudo isto nos traz. Seria bom que compreendêssemos melhor a importância da paz. Do ponto de vista científico, espero que o mundo ocidental seja mais generoso a olhar para os problemas que atingem outras regiões. Importa pensar em como evitar doenças muito associadas a países tropicais mas que, com as alterações climáticas e a mobilidade das pessoas, terão cada vez mais impacto também nas nossas próprias sociedades.
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