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Retiros e “Sentido Pleno”: pausa, promessa e negócio

Jovem sentado de pernas cruzadas a meditar ao ar livre numa plataforma de madeira com natureza e outras pessoas ao fundo.

Há ofertas para todos os gostos. No fecho do retiro chamado “Sentido Pleno”, uma participante aceita ser filmada e resume a experiência: “trago as pessoas, as caminhadas, as aprendizagens”. A frase parece-me sincera. Ao menos não recorre ao chavão de que se “reconectou consigo mesma”, fórmula que tantos orientadores, mediadores terapêuticos e gurus sem contraditório vendem a quem adere ao pacote regenerador. Ela limita-se a apontar o que, de facto, apreciou naquele dia. E, para um dia inteiro de actividades, o preço não me pareceu desajustado.

A promessa dos retiros e o vocabulário da “reconexão”

Na internet multiplicam-se anúncios a retiros em hotéis, moinhos, jardins, casas bem plantadas na paisagem, praias remotas e silenciosas - tudo cenários que prometem reconexão com o eu interior, ligação aos outros, partilha, natureza, práticas rituais, às vezes com a “tribo”, por vias xamânicas ou, noutros casos, apenas com ioga ou pilates, sempre acompanhados por comida caseira “só” saudável ou vegana.

Deparei-me com um retiro junto ao mar que se apresenta como um reinício, um regresso “ao essencial, deixando o mar guiar o ritmo dos dias”. Quem se inscreve ganha “três dias de ioga ao amanhecer e terapia sonora sob as estrelas”. Terapia sonora faz-me pensar, por exemplo, em taças tibetanas. Para eu alinhar, teriam de me pagar acima do máximo.

Há outros programas que garantem massagem ancestral, aromaterapia, rituais aiurvédicos, mantras, incensos, velas, sininhos - um inventário inteiro colocado ao serviço de “nutrir” corpo e mente, com a mesma promessa repetida: reconectar.

A pausa necessária - e o limite do aceitável

Não me oponho à ideia de fazer uma pausa ao fim de semana, quebrar a rotina e descansar como deve ser: dormir realmente bem, praticar ioga, conversar e pensar em conjunto sobre o que nos leva a procurar retiros e em que estado chegamos. Uma paragem a sério.

Nas cidades vive-se sob pressão quase contínua. O ruído, o caos do trânsito, o consumo de séries violentas e distópicas em plataformas digitais e as brutalidades do quotidiano desequilibram-nos num instante. Ainda assim, nem tudo se justifica. Basta perder algum tempo a explorar sites, ler brochuras e comparar valores para se perceber onde está a tramoia. Preços desmedidos, atitudes com ar de seita e “ativações da Kundalini” são sinais que merecem atenção.

Não tenho nada contra a ideia de se parar num fim de semana, sair da rotina e descansar a sério. Dormir bem. Fazer ioga, refletir em conjunto sobre o que nos leva aos retiros, sobre o estado em que estamos

Quando a pausa vira negócio: preços, logística e devoção

A procura por retiros denuncia, a certa altura, um abalo de confiança na espiritualidade canónica. Igrejas, não; padres e pastores, melhor manter distância. No entanto, um terapeuta que parece ter caído do céu - e que prescreve actos, gestos, palavras e pensamentos - substitui-os com eficácia, dando a sensação de controlo. É preciso olhar de fora para notar a devoção e a paixão investidas nestes mortais que se autoatribuem conhecimento e poder.

Em formatos de fim de semana, ou três dias de sexta a domingo, as opções de baixo custo ficam entre os 500 e os 700 euros. Nestas não se espere luxo: as dormidas são espartanas. Num dos retiros, quem vem de longe (suspeito que quase toda a gente) pode acabar a dormir num saco-cama na sala onde decorrem as sessões, mediante o pagamento de um valor xis.

Além disso, estes retiros acontecem em lugares geograficamente afastados, por vezes sem transportes viáveis. Ainda assim, cobra-se a “cura”, as refeições “saudáveis” e, acima de tudo, a mestria dos orientadores. Alguns até publicaram livros em edições de autor sobre a própria filosofia de vida e, em muitos casos, parecem mafiosos mitómanos musculados à custa de máquinas. Já as terapeutas, essas, lembram muito professoras de Educação Física do secundário - ou, no extremo oposto, professoras primárias doces e sensatas.

Do “Sentido Pleno” às experiências de respiração guiada

A minha intenção não é condenar os retiros em bloco, como se fossem todos iguais, porque existem propostas perfeitamente aceitáveis. O “Sentido Pleno”, mencionado no início, descreve-se como “um dia passado com cons­ciên­cia e intenção”, em que o movimento, o autocuidado e a pausa abrem espaço para “te escutares”. A meta, dizem, é abrandar, respirar e “voltarmos a nós de forma guiada e sustentada”. Traduzido: além de um pequeno-almoço tardio, haverá uma sessão de pilates e um ritual de cuidados de pele - coisas que, admito, podem ser relaxantes.

E há mais: meditação, conversa, reflexão e troca de experiên­cias. O dia serviria para cada pessoa regressar “à vida com clareza, presença e consciência sobre aquilo que queremos priorizar”. Mesmo nesta apresentação modesta, com um valor não inflacionado, reconhece-se o léxico típico do modo retiro: a pausa, a respiração consciente, a tal “nutrição” de corpo e espírito, o autocuidado e a inclusão de exercícios que são sempre qualquer coisa “de cura”.

Outros, pelo contrário, cheiram-me a viagem psicadélica. Um, bastante promovido, chama-se “evento” e tem como nome o acto de respirar, noutra língua, prometendo reprogramar a mente durante três horas. Tem marca registada. No vídeo vê-se uma sala enorme, com muitas pessoas relativamente novas, sentadas ou estendidas no chão, em penumbra, com auriculares iluminados, como se estivessem num estúdio de som. Desses auriculares saem sons seleccionados por um “mestre”.

Em transe, as pessoas mexem-se no chão ou de pé, agarradas ao peito. Há uma equipa de apoio aos transformandos. Avisam que quem tiver problemas cardíacos ou respiratórios não deve participar. Lê-se que é “um portal energético de intenção”, “neurociência aplicada”, “uma cerimónia de transformação pessoal”, uma ligação a “sons ancestrais”. Trabalha-se a “respiração conscien­te através de frequências, sons binaurais, música 432 Hz, som 8D, ruído branco, meditação profunda e PNL”.

O que eu vejo é uma multidão a atravessar uma experiência radical através de sons - e, acima de tudo, um grande negócio.

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