Ao atravessar os portões que separam a estrada da reserva natural, na Ribeira Grande, em São Miguel, abre-se um cenário dominado por muitos tons de verde, onde fauna e flora desenham uma paisagem quase contínua. Encostada à encosta norte do Vulcão do Fogo, a Caldeira Velha funciona como um refúgio natural: plantas e árvores envolvem o que ali atrai praticamente todos os visitantes - as poças termais.
“É a minha primeira vez aqui na Caldeira Velha. A experiência é muito bonita, estamos encantados com a natureza deste lugar. Saímos totalmente relaxados, estávamos a planear fazer uma caminhada mas, tendo em conta que estamos tão relaxados, não sabemos se vamos conseguir fazê-lo”, diz, a rir-se, Maria Alvarez, uma turista espanhola.
Junto à saída de uma das quatro piscinas naturais, Oneli Harbater, que veio da Estónia, descreve o mesmo encanto: “Este sítio é muito bonito para fazer uma pausa, todo este verde luxuriante é absolutamente fantástico, adoro”.
Segundo Tiago Menezes, coordenador do Centro de Interpretação Ambiental da Caldeira Velha, o valor do local também se mede pelo reconhecimento oficial: “A Caldeira Velha está classificada como Monumento Natural do Parque Natural da Ilha de São Miguel e é também um geossítio do Geoparque Mundial da UNESCO. É uma área de vulcanismo secundário do Vulcão do Fogo, onde temos uma nascente termal cuja temperatura vai, na zona de emergência, dos 30 aos 32 graus, e temos também uma fumarola, cuja temperatura da água está entre os 60 e os 90 graus, sensivelmente”.
No interior do monumento natural, as poças termais são procuradas por centenas de turistas todos os dias. Talia Leodori, turista norte-americana, conta como sentiu as diferenças entre os tanques: “Acho este local lindo. A primeira piscina a que fomos, com a cascata, estava um pouco fria, mas as outras duas estavam mais quentes e este local é maravilhoso. A água é muito relaxante, tem imensos benefícios termais e até dá um formigueiro na pele, de tão relaxante que é, ”.
Do lado da gestão, uma das prioridades passa por manter a paisagem sem perder o equilíbrio ecológico. O responsável pela Caldeira Velha explica que o controlo de espécies invasoras exige atenção constante: “Esta paisagem mais exótica caracteriza muito a Caldeira Velha, portanto as pessoas quando vêm cá já procuram muito a existência dos fetos, por exemplo. Por isso, o nosso objetivo passa por encontrar um equilíbrio. Vai-se fazendo este controlo de espécies invasoras e vamos, gradualmente também, replantando e permitindo que haja espaço para que as espécies autóctones possam proliferar”.
Mais a sul, encontra-se aquele que é frequentemente apontado como o parque natural mais emblemático dos Açores: o Parque Terra Nostra. Com 12,5 hectares, reúne centenas de espécies oriundas de diferentes pontos do mundo. Ainda assim, há um local que concentra os olhares: o grande tanque termal de água férrea, construído para aproveitar uma nascente que ali desagua.
Gonçalo Lopes, gerente de receção do Terra Nostra, sublinha o impacto do tanque, quer pelo ambiente quer pela água: “O tanque é uma grande massa de água, de impacto visual muito marcado e grande mística, pois as suas próprias águas, pelas temperaturas que têm, a rondar os 39 graus, transmitem uma forte sensação de relaxamento. Há pessoas que, inclusive, falam em benefícios de pele”. O responsável acrescenta que, nos últimos anos, o espaço recebeu melhorias significativas: “os balneários foram alvo de uma profunda renovação, foi criada uma zona de bilheteira nova, um pequeno centro interpretativo e também uma loja”.
“O termalismo é o único sector capaz de combater a sazonalidade açoriana. Temos 170 mil utilizadores anuais”
Luísa Pereira
Presidente da Associação Termas dos Açores
No vapor que se levanta da água quente, os banhistas surgem e desaparecem entre a neblina como num jogo de sombras. Chegam de várias geografias. Juliana Santos é portuguesa, mas vive na Islândia, e compara experiências: “Lá na Islândia há diferentes termas: há a Lagoa Azul e muitas outras, mas esta é muito mais férrea, tem um cheiro mais natural, tem mais verde... É diferente e é espetacular. A combinação de chuva com água quente é imperdível”, diz, enquanto a chuva continua a cair.
A referência à Islândia repete-se noutras vozes. “Adoro isto, é lindo. Este tanque termal é maravilhoso. Vi algo do género na Islândia, onde já estive”, afirma Debbie Scott, turista do Canadá. Daniela Matos, do Porto, destaca o carácter raro da experiência: “Este tanque é fantástico, nunca vi nada assim, água tão quentinha. Nós no continente não temos nada disto, é uma experiência diferente, não apetece sair. Esta água deixa-nos mesmo relaxados”.
Entre quem regressa, Octávio Couto - açoriano a viver em Lisboa - nota o que mudou sem descaracterizar: “Conheço este local desde puto. A piscina mantém-se mais ou menos igual mas fizeram um melhoramento muito bom nos balneários”. E acrescenta: “E na piscina havia partes em que a água era fria e agora não. A profundidade também é menor, o que é melhor para as crianças, ou seja, conseguiram manter a imagem original e melhorá-la”.
A história do Parque Terra Nostra recua ao último quarto do século XVIII e começa com o comerciante norte-americano Thomas Hickling. Fascinado pelos Açores - e, em particular, pelas Furnas - comprou em 1782 a propriedade que viria a dar origem ao parque. No ano seguinte, ali ergueu uma casa de férias e construiu um tanque de recreio com uma ilha ligada à margem, estrutura que corresponde ao atual tanque termal.
Décadas mais tarde, a propriedade passou para um comerciante local de São Miguel, que ampliou e valorizou o parque, adquirindo novos terrenos e reforçando a introdução de espécies vindas de vários países. Já no início da década de 1930, o jardim mudou novamente de mãos. Gonçalo Lopes explica: “O jardim acaba depois por passar para a propriedade de Vasco Bensaúde, através da Sociedade Terra Nostra, no início dos anos 30 do século XX. A ideia de Vasco Bensaúde era complementar, ter um jardim de retaguarda para o hotel e agora temos um jardim que complementa essa experiência deste hotel”.
Açores têm 50 emergências termais
De regresso à costa norte de São Miguel, as termas da Ribeira Grande - sem hotel associado - recebem, ainda assim, um fluxo significativo de visitantes, entre residentes, turistas nacionais e estrangeiros. Em 2025, este espaço contabilizou cerca de 60 mil banhistas.
Luísa Pereira, sócia-gerente das Termas da Ribeira Grande e presidente da Associação Termas dos Açores, enquadra a relevância patrimonial do complexo: “As termas da Ribeira Grande são muito importantes porque é o complexo edificado mais antigo dos Açores e um dos mais antigos do país. Estamos a falar de um edifício que tem construção de 1811, mas cujo primeiro aproveitamento foi construído em 1803”.
O local é também conhecido como “Banhos da coroa”, por um episódio histórico ocorrido em 1901. Foi nesse ano que o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia visitaram o espaço e, como recorda Luísa Pereira, “concederam um brasão ao próprio edifício com uma coroa”.
As Termas da Ribeira Grande têm duas piscinas exteriores, e o tom azul da água é um dos elementos que mais impressiona quem chega. Becki Briscker, turista norte-americana, deixa elogios: “Gosto muito desta água e da sua cor, e é muito fácil entrar e sair com esta temperatura. É um local lindíssimo, muito relaxante, que recomendo a toda a gente”. E compara com outra paragem termal: “No Terra Nostra a cor da água é diferente, mais mineralizada. Gosto mais desta água por ser azul, é mais confortável. A natureza aqui é bela”.
Irina Evert, da Estónia, volta a apontar semelhanças com o Norte da Europa: “É muito bonito, faz-me lembrar a Islândia”, e destaca um detalhe que valoriza: “Gosto particularmente do facto de não ter muita gente”.
Apesar de não serem a Islândia, os Açores contam com muitos pontos de água termal, embora a maioria não esteja acessível ao público. A presidente da Associação Termas dos Açores explica: “Temos 50 emergências termais identificadas nos Açores, dispersas por cinco ilhas: as Flores, a Terceira, o Faial, São Miguel e a Graciosa”. Apenas uma parte reduzida pode ser visitada, existindo margem para desenvolvimento.
Luísa Pereira reforça a importância estratégica do sector: “O termalismo é o único sector capaz de combater a sazonalidade açoriana. Temos um número estimado nos Açores de 170 mil utilizadores anuais em termas: as termas aqui são de uma zona de desgasificação vulcânica, o que é um fenómeno único na região”.
Roteiro termal
Que termas visitar nos Açores
Caldeira Velha
Integra uma zona de vulcanismo secundário, com fumarolas e uma nascente termal férrea. A nascente e a ribeira que dela nascem alimentam duas quedas de água. Atualmente, a nascente termal regista temperaturas na ordem dos 34 graus. Uma segunda piscina termal apresenta uma temperatura da água que ronda os 38 graus. Existem quatro poças para banhos.
Cada adulto paga 10 euros (bilhete completo) e as crianças a partir dos seis anos pagam 5 euros. Para os residentes dos Açores, a entrada é gratuita.
Parque Terra Nostra
Com 12,5 hectares de terreno, o Parque Terra Nostra começou a ser construído em 1782 pelo inglês Thomas Hickling. Tem um parque natural com centenas de espécies diferentes, um tanque termal, vários jacúzis, balneários, hotel, centro interpretativo e uma loja.
Cada adulto paga 17 euros e as crianças a partir dos seis anos pagam 14,5 euros. Está aberto todos os dias, das 10h30 às 16h30.
Termas da Ribeira Grande
Localizadas no interior da ilha de São Miguel, a construção das Termas da Ribeira Grande remonta ao século XIX. Estão situadas num vale atravessado por uma ribeira e rodeadas por vegetação com espécies típicas da floresta Laurissilva.
É aqui que se encontra a banheira mais antiga da região, datada de 1803.
Cada adulto paga 7 euros e tem direito a usufruir do espaço durante uma hora. As crianças dos 2 aos 5 anos pagam 3,5 euros.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário