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A humidade faz a Agapostemon subtilior mudar de cor em poucas horas

Cientista a examinar uma grande abelha numa placa de petri num laboratório com microscópio e insetos.

Quando entramos num prado, partimos do princípio de que as cores se mantêm estáveis. As flores continuam amarelas, as folhas continuam verdes e uma abelha parece sempre… uma abelha.

No entanto, a natureza nem sempre obedece a regras simples. Uma investigação recente indica que uma pequena abelha consegue alterar a sua cor no espaço de um único dia. O motivo não é a idade nem a luz - é a humidade no ar.

Uma observação inesperada

No sul da Califórnia, uma espécie de abelha do suor apresenta muitas vezes um brilho metálico verde intenso.

Em ar seco, o corpo tende a parecer mais frio e azulado. Já em ambiente húmido, o mesmo corpo desloca-se para um verde mais quente e acobreado.

Não se trata de uma transformação lenta, ligada às estações: é uma mudança rápida, capaz de acontecer em poucas horas.

Durante anos, muitos cientistas assumiram que as cores dos insectos eram fixas - uma abelha verde seria simplesmente verde. Este trabalho vem pôr essa ideia em causa.

O aspecto das abelhas reflecte o clima

O estudo centrou-se em Agapostemon subtilior, uma espécie presente ao longo da costa ocidental da América do Norte.

Investigadores da Universidade da Califórnia, Santa Barbara (UCSB) e de institutos parceiros quiseram testar uma questão directa: será que a humidade, por si só, consegue mudar o aspecto de uma abelha?

“Quando as pessoas pensam em abelhas, muitas vezes imaginam abelhas-do-mel baças e castanhas”, afirmou a Dra. Madeleine Ostwald, docente na Queen Mary e autora principal do estudo.

“Na realidade, as abelhas são incrivelmente diversas e coloridas, e só agora estamos a começar a compreender como o seu aspecto reflecte o clima em que vivem.”

Para responder, a equipa montou uma experiência controlada com exemplares de abelhas preservados. Parte deles foi colocada em recipientes muito húmidos, com humidade acima de 95 por cento.

Os restantes foram mantidos em condições extremamente secas, com humidade abaixo de 10 por cento.

Mudanças de cor em Agapostemon subtilior num só dia

Os resultados foram nítidos e chamativos. Em cerca de 24 horas, as abelhas expostas a ar húmido tornaram-se mais quentes na tonalidade: o verde passou a aproximar-se de um tom azeitona com matiz alaranjada.

As abelhas mantidas em ar seco exibiram o padrão inverso, ficando com um verde-azulado mais profundo.

Quando os investigadores inverteram as condições, as cores voltaram a mudar no sentido oposto. Ou seja, a alteração não era permanente; mantinha-se flexível e podia repetir-se sempre que as mesmas condições fossem restauradas.

Nem todos os exemplares reagiram do mesmo modo. Os exemplares mais antigos de museu apresentaram mudanças mais acentuadas do que os preservados há menos tempo. Alguns estavam armazenados há anos.

Isto parece relacionar-se com a camada exterior da abelha, a chamada cutícula. Com o passar do tempo, essa camada degrada-se e deixa entrar mais água. Quanto maior a entrada de humidade, mais intensa tende a ser a alteração de cor.

A estrutura dos insectos é que determina a cor

A explicação para esta mudança tem mais a ver com física do que com pigmentos.

Em muitos insectos, as cores surgem devido a estruturas minúsculas na camada exterior. Essas estruturas reflectem a luz de forma muito específica, e é o espaçamento entre camadas que determina quais os comprimentos de onda que observamos.

Quando a água entra nessa estrutura, provoca um ligeiro inchaço. Isso desloca a luz reflectida para comprimentos de onda mais longos, que nos parecem mais avermelhados.

Quando a estrutura seca, contrai-se. A luz reflectida regressa a comprimentos de onda mais curtos, originando uma tonalidade mais azulada.

Mecanismos deste tipo também aparecem nas penas das aves, nos escaravelhos e até na pele das lulas.

Indícios obtidos na natureza

Os resultados em laboratório são úteis, mas o meio natural é mais complexo. Para procurar padrões fora do laboratório, os investigadores recorreram ao iNaturalist, uma plataforma com milhares de fotografias de vida selvagem tiradas pelo público.

Foram reunidas mais de 1.000 imagens de fêmeas de Agapostemon subtilior em diferentes pontos da América do Norte. Em seguida, cada fotografia foi cruzada com dados de humidade do mesmo local e da mesma data.

O padrão voltou a surgir, embora de forma menos marcada. As abelhas fotografadas em regiões húmidas tendiam a parecer mais acobreadas. Já as de zonas secas apresentavam com mais frequência um aspecto verde-azulado.

A associação era estatisticamente real, mas fraca. É provável que muitos outros factores influenciem a cor nas fotografias: a iluminação, as definições da câmara e diferenças genéticas contribuem para aumentar o “ruído”.

Além disso, a maioria das imagens vinha de regiões costeiras, o que limita a visão global do fenómeno.

Implicações para museus

Esta descoberta levanta uma preocupação para cientistas que dependem de exemplares preservados.

Uma abelha guardada numa gaveta durante anos pode já não exibir a mesma cor que tinha quando estava viva. As condições ambientais durante o armazenamento conseguem alterar o seu aspecto.

Isto significa que algumas descrições antigas da cor de insectos podem ter de ser reavaliadas.

Nos insectos, a cor não é apenas um detalhe visual. Influencia a forma como absorvem calor, como evitam predadores e como comunicam.

Se a humidade consegue deslocar a cor, então mudanças nos padrões climáticos podem afectar estas características. À medida que a precipitação e a humidade do ar se alteram, também a aparência dos insectos poderá mudar.

Isto acrescenta uma nova dimensão à forma como pensamos os efeitos do clima nos sistemas vivos.

Uma nova camada de mistério

Os cientistas ainda não identificaram a estrutura microscópica exacta que desencadeia este efeito nas abelhas do suor.

Estudos futuros com técnicas avançadas de imagiologia poderão esclarecer os detalhes. E como mudanças semelhantes já foram relatadas noutras espécies de abelhas, é possível que o fenómeno seja mais comum do que se pensava.

“A maioria das pessoas associa a mudança de cor a animais como os camaleões, que a controlam activamente”, disse Ostwald.

“Estas abelhas não estão a escolher mudar de cor; isso acontece de forma passiva, simplesmente em resposta à humidade à sua volta. Isso acrescenta uma camada totalmente nova de mistério sobre a razão pela qual estas cores evoluíram em primeiro lugar.”

Esta descoberta altera a forma como olhamos para algo tão comum como uma abelha. A cor que repara de manhã pode não ser a mesma à tarde - e a mudança ocorre em silêncio, guiada pelo ar que a rodeia.

A natureza não é tão fixa quanto parece. Até as criaturas mais pequenas respondem ao ambiente de maneiras que só agora começamos a perceber.


Crédito da imagem: fotografia do iNaturalist tirada por Karen Fraser

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