Uma caminhada tranquila numa floresta pode mudar o que sentimos em poucos minutos. O canto das aves, o roçar das folhas e os chamamentos distantes de insectos criam um ritmo natural que ajuda a acalmar a mente.
Muita gente percebe esta mudança, mas nem sempre sabe explicar a razão. Por isso, cientistas têm vindo a investigar estas paisagens sonoras para compreender de que forma influenciam o humor, a atenção e o stresse.
Um estudo recente acrescenta uma nuance importante: os sons naturais não têm o mesmo efeito em todas as pessoas.
O elemento decisivo é simples. Os sons que nos parecem familiares tendem a ter um impacto mais forte do que aqueles que soam novos ou “distantes”.
Como os sons da floresta nos afectam
Os investigadores partiram de uma pergunta directa. Sabe-se que o contacto com a natureza favorece a saúde mental e que, em muitos casos, mais biodiversidade está associada a melhores efeitos.
Mas será que ouvir mais sons de animais numa floresta melhora, de facto, a forma como nos sentimos? E será que as pessoas reagem da mesma maneira a florestas locais e a florestas tropicais?
A Dra. Melissa Marselle, da University of Surrey, explicou: “Estar ao ar livre e em contacto com a natureza melhora sem dúvida o nosso humor e a sensação de calma. A ambiência do ambiente florestal, em particular os sons que ouvimos, aves a cantar e folhas a roçar, tem um papel nisto.”
E acrescentou: “No entanto, apesar disso, sabemos muito pouco sobre a diversidade e a complexidade do canto das aves e o efeito positivo que desencadeia - será que paisagens sonoras de floresta com maior variabilidade de sons de aves e insectos fazem as pessoas sentir-se melhor?”
Como foi montada a experiência
A equipa analisou 195 estudantes de universidades alemãs. Cada participante ouviu duas gravações de floresta: uma com menos sons de animais e outra com muitos.
Alguns escutaram gravações de florestas europeias, enquanto outros ouviram sons de florestas tropicais.
Antes e depois da audição, os estudantes indicaram como se sentiam, incluindo o humor, o stresse, a capacidade de concentração e o seu nível de deslumbramento. As gravações variavam desde poucos sons de aves até combinações com muitas aves e sons de insectos.
Os investigadores distinguiram dois tipos de diversidade sonora. Um deles foi a diversidade real - o número efectivo de espécies presente na gravação. O outro foi a diversidade percebida - aquilo que os ouvintes achavam que estavam a ouvir.
Para avaliar esta percepção, perguntaram quão “rico” parecia o ambiente sonoro e quantos sons diferentes de animais as pessoas diziam ter notado. Esta diferença revelou-se crucial.
Sons de animais e melhorias no humor
Quando os participantes reparavam em mais sons de animais, sentiam-se melhor. O humor subia, as emoções negativas diminuíam e a concentração melhorava. Ouvir sons distintos de aves ou insectos parece ser, por natureza, agradável.
Mas surgiu um pormenor inesperado: quando as pessoas apenas sentiam que a paisagem sonora era complexa, sem identificar claramente animais, a resposta emocional piorava ligeiramente.
Uma mistura sonora sem significado evidente pode ser vivida como confusa, ao passo que sons de animais reconhecíveis e familiares tendem a ser mais reconfortantes.
A comparação entre sons locais e sons tropicais trouxe o resultado mais surpreendente. Os estudantes alemães preferiram as paisagens sonoras das suas próprias florestas.
Consideraram-nas mais familiares, mais agradáveis e mais relaxantes do que as gravações de florestas tropicais. Além disso, sentiram mais deslumbramento ao ouvir florestas locais - algo que os investigadores não antecipavam.
Sons familiares da floresta e respostas emocionais mais fortes
Trabalhos anteriores sugeriam que ambientes desconhecidos e “exóticos” teriam maior probabilidade de provocar deslumbramento. Aqui, porém, a familiaridade pareceu aprofundar a resposta emocional.
A professora Aletta Bonn, da University of Jena, observou: “As nossas conclusões mostram que não se trata apenas de quantas espécies existem por aí.”
E continuou: “Sons que fazem as pessoas lembrar-se de florestas que conhecem, como as aves que ouvem numa caminhada perto de casa, parecem ter um efeito positivo muito mais forte. Isto oferece novas perspectivas incríveis sobre as formas complexas como a biodiversidade e o bem-estar mental estão ligados.”
Houve também um resultado claro: as pessoas sentiram mais deslumbramento quando sons familiares de floresta incluíam mais vozes de animais.
Ou seja, uma combinação mais rica de sons de um lugar conhecido gerou a sensação de maravilhamento mais intensa. Isto indica que biodiversidade e familiaridade actuam em conjunto para melhorar a forma como as pessoas se sentem.
Um sentido de lugar
O estudo recorre ao conceito de “sentido de lugar”, que descreve a ligação emocional profunda que as pessoas desenvolvem com locais que conhecem bem.
Ao ouvirem sons familiares de aves, é provável que os estudantes tenham tido uma resposta afectiva mais forte do que quando escutaram sons desconhecidos de floresta tropical.
Marselle salientou que os sons naturais não ajudam toda a gente da mesma maneira. O efeito é maior quando as pessoas reconhecem o lugar e os sons.
Sons familiares podem despertar memórias e induzir sensações de calma.
Porque é que as cidades precisam de sons naturais
Estas conclusões são relevantes para cidades e parques. As paisagens sonoras naturais podem beneficiar a saúde mental, mas tendem a funcionar melhor quando as pessoas as reconhecem. Por isso, os espaços urbanos devem apoiar aves e insectos locais.
Marselle sublinhou que este tema é particularmente importante agora, porque as populações de aves estão a diminuir enquanto as cidades continuam a crescer. Resultado: as pessoas têm cada vez menos oportunidades de ouvir sons naturais.
A investigadora destacou ainda que as paisagens sonoras naturais podem apoiar cuidados de saúde mental. Podem ser usadas em intervenções simples baseadas na natureza para ajudar as pessoas a sentirem-se mais calmas e a melhorar o humor.
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